Bocas gritando…

Série com quatro reportagens aborda a falta de visibilidade e os preconceitos sofridos pela população negra em Franca

Gabriela Sturaro

Talita Souza

Foto acima: Talita Souza e Gabriela Sturaro com o poeta Carlos de Assumpção, no lançamento do filme “Carlos de Assumpção: Protesto” (Acervo Minô Comunicação)

A cultura negra em Franca-SP é o tema da série de reportagens “Bocas que gritam contra a crueldade”, composta por quatro textos, cujo objetivo é falar sobre os obstáculos e conquistas do Movimento Negro francano. Os temas são: 1) a vida e a obra do poeta Carlos de Assumpção, um dos fundadores e principais nomes do movimento; 2) a trajetória do próprio movimento e a história dos escravos na cidade; 3) o artesanato de Dona Evelline; e 4) o teatro do Grupo Corpo Negro.

A série é resultado das pesquisas para o Projeto Experimental do curso de Jornalismo da Unifran. Desde o segundo semestre de 2019, quando o projeto começou a ser pensado, a proposta era dar voz às minorias sociais, uma das principais missões do Jornalismo. Esta série de reportagens surgiu a partir de Carlos de Assumpção. Aos 93 anos, ele é uma referência para os negros francanos e, aos poucos, vai vendo seu nome de expandindo para outras regiões.

O primeiro contato foi na casa dele. Uma tarde inteira ouvindo sobre a vinda para Franca e a criação dos primeiros grupos do Movimento Negro na cidade. Um gatilho para que todas as outras pautas tivessem alguma relação com o movimento.

A próxima etapa foi a realização das pesquisas. Nesta fase, se percebeu que o tema aparece muito pouco na imprensa local e regional. Era escasso, também, o material bibliográfico, o que denuncia a invisibilidade da população negra na história. Com isso, a ideia central do projeto é fomentar uma discussão que contribua, mesmo que de forma singela, para mudar esse quadro.

Foi por meio de Assumpção que também veio o nome da série. No poema “Profecia”, publicado pela primeira vez em 2017, na fanzine “Poemas Escolhidos”, da Artefato Edições, e depois em 2020, na página 143 do livro “Não pararei de gritar”, da Companhia das Letras, o poeta reflete sobre a discriminação sofrida pelo povo negro e destaca que “são milhões de bocas gritando contra a crueldade” imposta pela elite do país. O título faz referência ainda ao papel do jornalista em questões como essa, de indignação e denúncia. Confira o poema “Profecia” na íntegra:

 

Um mais um somos mais do que dois

Somos talvez milhões

De bocas gritando

Contra a crueldade

Que a elite do país nos impõe

Um mais um somos mais do que dois

Somos milhões de quilombolas

Milhões de guerreiros

 

Amanhã

Com toda a certeza

A muralha do mal vai cair

 

Tá escrito nas estrelas

 

Por meio das reportagens, publicadas de 27 a 30 de novembro, marcando o Mês da Consciência Negra, é possível conhecer alguns dos principais grupos e coletivos que fazem parte do movimento e nomes que inspiram essa luta, tanto localmente quanto no país.

Você pode encontrar outras informações sobre o projeto nas páginas da Minô Comunicação, assessoria criada para gerenciar o projeto. Seja através do Facebook ou do Instagram.

Membros do Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Franca (COMDECON) reunidos na Casa da Cultura “Abdias do Nascimento” (Foto: Gabriela Sturaro)

CONFIRA UMA PRÉVIA DAS REPORTAGENS: 

 

Voz em Movimento

“O coletivo é quem manda. O coletivo é quem faz. Ninguém faz nada sozinho”. É dessa forma que Carlos de Assumpção procura dar eco aos seus escritos de resistência contra a opressão. Aos 93 anos, completados em 23 de maio, e considerado, por quem o conhece, um griot – palavra de origem africana usada para denominar alguém com o dom de preservar e transmitir histórias, conhecimentos e cultura de um povo –, o poeta afirma, convicto, que o racismo não deve ser visto, apenas, como um problema do negro, mas de toda a população brasileira. “O racismo não prejudica só o negro. Prejudica o branco racista e o país. Porque somos a maioria da população e estamos quase todos na marginalidade. Infelizmente, é o que ocorre no Brasil”.

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‘Tem que ser de luta’

“A luta dos negros é uma questão da humanidade. O branco tem um papel muito importante de entender essa luta. E também não basta ser negro, tem que ser de luta. Tem que criar ações beneficentes para a comunidade”.

A percepção é de Carlos Eduardo da Silva, conhecido como Du, presidente do Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Franca (COMDECON), e expressa uma busca por respeito. Uma história que começou a ser escrita há mais de 200 anos, desde quando foram registradas as primeiras presenças de escravos africanos por essas terras, mas que só foi materializada em forma de movimento há quatro décadas.

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Boneca preta

Há cinco anos, Evelline Souza, ou simplesmente Dona Evelline, hoje com 58 anos, se mudou de Barretos para Franca. Acompanhava o filho, João, contratado para jogar pelo SESI Franca Basquete. Mas a origem dela está no Rio de Janeiro. Nasceu e se criou lá. A chegada ao interior de São Paulo foi, também, motivada por João, cujo primeiro convite foi para jogar na terra do peão de boiadeiro.

O rapaz evoluiu rápido na modalidade e chamou a atenção da equipe francana. A passagem por Barretos foi curta, menos de um ano, mas suficiente para que Dona Evelline encontrasse o Movimento Negro de lá. Queria se integrar, porque já participava de ações semelhantes no Rio. Como a mudança foi rápida, continuou essa busca em Franca, onde se aproximou, inicialmente, do coletivo “As Pretas”, um grupo que trabalha pela produtividade da mulher negra.

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Corpo Negro

Foi em 2016 que Josiana Martins, Kauane Ketholin, Gabriel Saqueto e Rodrigo Raphael, estudantes do curso técnico de Teatro do Serviço Nacional do Comércio (Senac) de Franca e fundadores do Grupo Corpo Negro, começaram a perceber a ausência de negros, seja representando ou assistindo. .

Josiana conta que assistiam a uma peça no Teatro SESI, sobre cultura africana. Havia apenas uma atriz negra em cena e poucas pessoas negras nas cadeiras. “Umas cinco. Nós nos incomodamos e começamos a debater”.

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