Boneca preta

A exemplo das Abayomi, figuras como a artesã Evelline Souza resgatam a ancestralidade e dão protagonismo à história dos negros  

Gabriela Sturaro

Talita Souza

Foto acima: Dona Evelline procurou os grupos e coletivos do Movimento Negro logo que chegou a Franca, em 2015 (Acervo pessoal) 

Há cinco anos, Evelline Souza, ou simplesmente Dona Evelline, hoje com 58 anos, se mudou de Barretos para Franca. Acompanhava o filho, João, contratado para jogar pelo SESI Franca Basquete. Mas a origem dela está no Rio de Janeiro. Nasceu e se criou lá. A chegada ao interior de São Paulo foi, também, motivada por João, cujo primeiro convite foi para jogar na terra do peão de boiadeiro.

O rapaz evoluiu rápido na modalidade e chamou a atenção da equipe francana. A passagem por Barretos foi curta, menos de um ano, mas suficiente para que Dona Evelline encontrasse o Movimento Negro de lá. Queria se integrar, porque já participava de ações semelhantes no Rio. Como a mudança foi rápida, continuou essa busca em Franca, onde se aproximou, inicialmente, do coletivo “As Pretas”, um grupo que trabalha pela produtividade da mulher negra.

Recebendo homenagem no Dia da Consciência Negra em 2019 (Foto: Pablo Fernando/COMDECON)

“Nos reunimos, às vezes, para apresentar nossos produtos. Mas o coletivo tem alguns desdobramentos. Temos um trabalho e arrecadação de alimentos e distribuição. No período da Consciência Negra, a prefeitura apoia o COMDECON e, juntos, fazemos feiras e eventos nas praças. É um coletivo bastante ativo,” conta Dona Evelline.

Nesta terceira reportagem da série “Bocas gritando contra a crueldade”, sobre a cultura negra em Franca (clique para ver a primeira e a segunda), você vai saber como ela se tornou conhecida no movimento, como lida com o preconceito e quais caminhos enxerga para as questões raciais.

Logo que chegou a Franca, Dona Evelline fez uma pesquisa na internet e encontrou o site da loja “Boneca Preta”. Foi visitar e conheceu Janaína Santos, a dona do lugar. “Vi o link e falei: ‘Poxa, Boneca Preta, uma loja na cidade. Vou lá!’”. Foi Janaína quem apresentou “As Pretas”. “Na primeira reunião do coletivo, ela já foi acolhida. Começou a participar, também, do ‘Sarau Protesto’ e de rodas de poesias”, lembra Janaína, que é uma das fundadoras do sarau.

Com Janaína, proprietária da “Boneca Preta” (Foto: Acervo Janaína)

O primeiro encontro entre as duas foi inusitado. Quando entrou na loja, especializada em roupas femininas, Dona Evelline teve uma surpresa. “‘Moça, por que não tem nenhuma boneca preta aqui?’ Ela não soube me dizer. Fiquei doida com isso. Questionei como uma loja com esse nome não tinha bonecas pretas. Foi aí que comecei a oferecer as bonecas para a Janaína, e ela passou a vender na loja.”

Janaína explica como escolheu o nome do estabelecimento. “Estava com meus irmãos em Miguelópolis [a 75 quilômetros de Franca] e vimos uma boneca namoradeira na janela, em uma casa, de artesanato. Meus irmãos começaram a falar da boneca preta e que parecia comigo. Foi quando falei: ‘nossa, o nome para a loja.’”

Dona Evelline não havia sido a única a procurar bonecas ali. Por isso, quando Janaína aderiu à ideia, ganhou ainda mais simpatia dos clientes. “Já no início, as pessoas adoravam ver aquelas bonecas pretas e alguns davam de presente.”

Para Dona Evelline, presente mesmo foi quando conheceu Carlos de Assumpção. “Participei muito do ‘Sarau Protesto’. O contato com Carlos aconteceu, justamente, no meu momento de buscas dos pares. Foi uma das primeiras pessoas que conheci em Franca e logo me identifiquei, também porque ele é advogado e professor. Tivemos uma trajetória parecida.”

Trajetória

Formada em Direito, ela atuou na área por mais de duas décadas, mas foi no artesanato que encontrou o caminho para empoderar e ajudar a comunidade negra a conhecer um pouco mais sobre sua história e ancestralidade. Conta que, mesmo antes de se mudar para Franca, as peças que produz, como as bonecas de pano Abayomi, nunca ficaram em segundo plano. Nem quando o Direito demandava bastante atenção.

Ouça lenda sobre as bonecas Abayomi na voz de Dona Evelline: 

 

Além das bonecas, sapatos, turbantes, bolsas, passou a fazer máscaras com tecidos africanos a partir da chegada da pandemia de Covid-19. Também cria brincos, pulseiras e colares que representam diversas etnias da África.

Dona Evelline fez o Ensino Fundamental I no Instituto Jesus Eucarístico, no Irajá, até se formar e ir para o II, o antigo Ginásio, na Escola Municipal Geni Gomes, no centro do Rio. O pai era rigoroso e levava muito a sério a educação dos filhos. “Meu pai era militar. Foi uma pessoa que trabalhou muito e viveu sozinho. Estudou em uma escola de meninos de rua. A questão educacional foi de fundamental importância na vida dele e passou isso para os filhos.”

Após concluir o Ginásio, veio o Ensino Médio integrado ao magistério, no Colégio Estadual Júlia Kubitschek. Durante os estudos, trabalhou na loja de um amigo do pai até a formatura. Passou num concurso público e foi ser professora.

Quando assumiu, decidiu frequentar, escondida do pai, as Faculdades Integradas Estácio de Sá. Queria cursar Direito, que era visto como profissão masculina. “Tive que fazer cinco períodos sem meu pai saber. Para ele, ser professora era suficiente pra mim. Tinha que começar trabalhando e chega, né? Nada de advocacia. Imagina! Profissão de homem e tal…”

No III Colóquio de Raça na Unifran em 2019 (Foto: Acervo pessoal)

Havia apenas três pessoas negras na turma. “A primeira decisão que tomei séria na vida foi a faculdade de Direito, que era particular, no Rio Comprido. De maneira nenhuma, passava pela minha cabeça entrar numa universidade pública. O curso era muito caro. Eu era a segunda mulher preta e a terceira pessoa preta na sala”.

Durante o curso, foi convidada por um professor para participar do grupo de jurados do 1º Tribunal de Júri do Rio de Janeiro, onde atuou por 15 anos. Também exerceu a profissão militando em defesa da igualdade racial nas repartições jurídicas. Aos 39 anos, quando ficou grávida do namorado, fazia pós-graduação em Segurança Pública e Políticas Criminais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Após a descoberta da gestação, se casou, mas, quando João completou oito anos, a união chegou ao fim. Decidiu assumir toda a responsabilidade pelo filho. Era o artesanato que ajudava a completar a renda da casa. “Apesar de estar como funcionária pública, sempre tem um mês que você gasta mais, que tem uma despesa maior. O que me salvava eram as bonecas, colares, quadros, pinturas… E nunca faltou nada para a gente.”

Artesanato

O artesanato apareceu quando ela tinha 13 anos. Após terminar o Ensino Fundamental I, o pai decidiu, paralelamente ao Ginásio, pagar um curso de artes visuais na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. “Tive a oportunidade de desenvolver minhas habilidades artísticas. Foi lá que tive o primeiro contato com pintura, desenho livre, modelo vivo… Fui aluna de Lélia Gonzalez, de História da Arte.”

E foi com o artesanato que Dona Evelline se tornou mais conhecida no Movimento Negro de Franca. Atualmente, além de integrar o coletivo “As Pretas”, participa das feiras promovidas pelo Kilombo das Quitandeiras, onde vende suas peças. “Sempre amei fazer e sempre fiz. Não quis mais me envolver com o Direito, mas mantenho minha carteira ativa. Uso o Direito pra mim, caso precise ajudar um amigo ou fazer uma consultoria. Me aposentei e faço todo esse trabalho artesanal aqui. Amo fazer artesanato.”

O Kilombo é um grupo de mulheres que fazem e comercializam artesanato ligado à cultura afro-brasileira. Desde boneca até comida. O termo “quitandeiras” designava, na época da escravidão, aquelas que tinham autorização para vender seus produtos, mas tinham que dar um percentual para o dono do engenho. “Elas iam juntando o dinheiro para comprar a própria alforria [ato pelo qual um proprietário liberta um escravo] ou a de outros escravos.”

O objetivo do grupo é reunir quem tem talento para criar e aptidão para vender. São artistas plásticas e visuais, psicólogas, entre outras, que aproveitam as feiras promovidas pelo COMDECON para marcar presença.

Além de expor e vender suas peças, Dona Evelline promove oficinas de bonecas Abayomi em Franca. Conforme algumas lendas, essas bonecas, que são de pano e sem nenhuma costura, eram feitas pelas negras acalmar as crianças trazidas em navios negreiros ao Brasil.

Segundo informações do projeto “Cadê nossa boneca?”, realizado pela Organização Avante Educação e Mobilização Social, de Salvador, na Bahia, as bonecas pretas representam apenas 6% dos modelos fabricados pelas principais marcas no Brasil. Por isso, para Dona Evelline, o artesanato é uma forma de contribuir para que o povo negro se encontre, trazendo representatividade para os que vivem oprimidos pelo racismo. “Representatividade importa, né? É uma questão muito séria. Muito importante que essas pessoas saibam que temos nossas conquistas e condições. Apesar da história triste que aconteceu com nossos ancestrais, podemos nos desenvolver.”

Além das bonecas, Dona Evelline faz outras peças, como calçados (Foto: Acervo pessoal)

Resgatar a ancestralidade

Nesse sentido, ela considera que a participação em grupos e coletivos do Movimento Negro é um processo de autocuidado. Como se estivesse sempre em busca de pares. “Se você é preta ou se sente preta e está perto de pessoas que também são, você está bem. Porque podemos debater sobre questões importantes e que dizem a respeito de nós mesmas. A gente dá dicas e ensina o autocuidado.”

O coletivo tem um clube de leitura, pelo qual as participantes realizam debates. Uma troca que permite adquirir e passar conhecimento. “É muito legal participar de um coletivo. Muito forte essa questão de você ter consigo mesma, mas com relação ao outro. Saber algo e ajudar outra pessoa. De nada vale ter conhecimento se ficar só com você. Precisa ajudar e, através dos coletivos, fazemos isso.”

Ela avalia o Movimento Negro como algo de extrema importância, para Franca e para o país, já que é por eles que os negros compreendem sua história e constroem um elo com sua ancestralidade. “É preciso entender o trabalho feito pelo colonizador. Não conseguimos nos apropriar nem da nossa própria língua, e isso é muito sério. Tudo nosso é assim, em função da fala do colonizador e daquilo que ele deixou. Fomos colonizados por europeus e tivemos que seguir, forçadamente, a cartilha deles, o que permanece até hoje.”

Ao entender isso, segundo Dona Evelline, os negros podem se libertar da falta de liberdade e assumir o domínio da própria história.

Bonecas Abayomi são feitas de pano e sem costura: marca de ancestralidade (Foto: Acervo pessoal)