Agenda científica

Violência exposta

Pesquisa de mestra em Linguística pela Unifran analisa ascensão do Me Too, que tomou grandes proporções na internet

Lais Lazarini

Lucas Faleiros

Foto acima: Movimento surgiu em 2006, mas passou a ser mais conhecido em 2017, quando atriz fez um post no Twitter encorajando denúncias contra a violência (Banco de imagens)

Não é segredo para ninguém que, ainda que estejamos em pleno século XXI, atos abusivos contra mulheres continuam assolando o mundo todo. Somente no Brasil, foram registradas, ao longo de 2020, mais de 105 mil denúncias do tipo, segundo dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Entretanto, uma forma específica de violação contra o sexo feminino chama muita atenção: o de cunho sexual. O tópico, inclusive, tornou-se tema central de uma pesquisa realizada pela mestra em Linguística pela Unifran Giovana Oliveira de Russi, que aborda a banalização dessa violência, o luto vivido por suas vítimas e o desenvolvimento e impactos causados pelo movimento Me Too.

Um dos pontos defendidos pela pesquisadora é que os estupros, assédios e vários abusos cometidos contra as mulheres são normalizados por parte da população.

Um exemplo recente dessa banalização repercutiu bastante ao longo dos últimos três anos no país: o caso de Mariana Ferrer, promotora de eventos que foi estuprada pelo empresário André Aranha durante uma festa na noite de 15 de dezembro de 2018, em Jurerê Internacional.

Mesmo com o inquérito policial concluindo, em 2019, que o empresário havia violentado Mariana, a Justiça o inocentou por falta de “provas contundentes”. Em meio ao processo, o promotor que assumiu o caso afirmou que, no entendimento dele, o acusado não saberia se a vítima estava em condições de consentir a relação sexual, ou seja, que ele não teria tido a intenção de estuprá-la, o que foi amplamente repercutido nas redes como uma tentativa de dizer que Aranha teria cometido um “estupro culposo”.

A pesquisa de Giovana aponta que eventos como esse fazem as mulheres perderem a coragem de denunciar crimes. Baseado nisso, o movimento Me Too tomou força nas redes sociais como uma forma de expor casos de violência sexual e, assim, estimulou milhares de mulheres a contarem seus relatos.

O início do Me Too
A iniciativa surgiu quando a ativista negra Tarana Burke ouviu relatos de uma jovem de apenas 13 anos que havia sido abusada sexualmente pelo padrasto. Vários anos depois, Burke ainda se arrependia por não ter dito “eu também” (me too) à vítima naquele momento, visto que ela igualmente havia sofrido violência sexual.

Em 2006, a própria Tarana criou a Just Be Inc., uma organização sem fins lucrativos que ajuda meninas de 12 a 18 anos em situação de risco. A partir disso, o Me Too passou a ser uma forma de enfrentar traumas e acolher pessoas que tiveram a mesma experiência que ela.

A causa, porém, era pouco conhecida até 2017, quando ocorreram inúmeras denúncias contra o famoso produtor de Hollywood Harvey Weinstein. O escândalo contava com relatos de aproximadamente 70 mulheres assediadas por ele e, mesmo com as diversas denúncias – algumas oficializadas, outras não -, nada aconteceu com o acusado.

Foi então que a atriz Alyssa Milano fez um post no Twitter encorajando as vítimas de abuso ou agressão sexual a tuitarem: “#metoo”. Resultado: a hashtag explodiu no mundo todo.

Giovana decidiu investigar ao Me Too ao ouvir pergunta de orientadora: “O que te incomoda?” (Foto: Acervo pessoal)

Quebrando barreiras
Na pesquisa, Giovana de Russi mostra que o movimento transcendeu o mundo virtual, utilizando como exemplo o que aconteceu com Kate Donnelly. Em 2017, ela gravou um vídeo contando sua experiência com a violência sexual e mostrou onde tudo aconteceu: em um colchão, que ainda estava em sua sala. Kate já não sabia mais o que fazer com ele.

Após a publicação da gravação, ela o colocou em seu quintal e, nele, escreveu “eu também. Neste colchão. Na minha casa. No segundo encontro”, convidando outras mulheres para contarem histórias relacionadas ao tema. Horas depois, ao fim do dia, ela se emocionou ao voltar para casa e encontrar o objeto coberto de palavras de desabafo. Diversas pessoas foram até o local e registraram suas vivências naquele mesmo colchão.

Todos os acontecimentos citados mostram o quão constante é a violência sexual contra a mulher. Contudo, movimentos como o Me Too representam mais do que isso. Eles contribuem para que aconteça uma ressignificação do trauma e combate às práticas como o estupro, o assédio e o abuso sexual. Segundo Giovana, além de exibirem a magnitude do problema, essas ações convocam as pessoas oprimidas a transformarem o luto, que naturalmente ocorre quando alguém tem seu corpo e intimidades violados, em luta.

De acordo com Giovana, um discurso empodera o outro. Ou seja, quanto mais mulheres se unem em prol da causa, mais forte ela se torna. Por isso, a #metoo, promovida pela atriz Alyssa Milano, cresceu tanto e foi mencionada mais de 100 mil vezes somente no Twitter. Quanto mais pessoas mostram suas experiências, mais encorajadas as outras se sentem para “colocar para fora” os seus traumas e trazer à tona a verdade.

O movimento foi tão importante que recebeu sequência em outras plataformas. Enquanto o Google criou o site Me Too Rising, voltado para noticiar casos relacionados com assédio e abuso sexual no mundo todo, no Brasil foi formada a iniciativa Me Too Brasil, que dá apoio às vítimas da violência contra a mulher no país.

Desenvolvimento da pesquisa
Perguntada sobre a motivação para escolher como tema do seu trabalho a violência sexual contra a mulher, Giovana diz que sempre achou o assunto algo importante de se debater. “Minha primeira orientadora me perguntou, logo na primeira vez que conversamos: ‘o que te incomoda?’ De imediato, pensei nesse assunto. Acho que foi meu pontapé.”

Inicialmente, a mestra em Linguística relata ter pensado em abordar um universo maior, mas, até pela questão do tempo, preferiu dar ênfase ao movimento Me Too, que surgiu como uma grata surpresa em meio ao processo.

“Eu queria entender as formas discursivas na mídia, quando se tratavam de violência contra mulher. Entretanto, isso se mostrou muito amplo. Conforme fui construindo o arquivo e fazendo as análises, o meu material de pesquisa me levou a esse estreitamento do tema. Como inicialmente estava examinando notas de desculpas feitas por homens acusados de assédio e, dentre elas, estava a feita por Harvey Weinstein, que, de certa forma, provocou o tweet de Alyssa Milano, foi algo natural. Além disso, a #metoo foi responsável por libertar mulheres ao meu redor e também a mim mesma, tornando-se um interesse pessoal”, conta.

A respeito da organização do trabalho, a professora que orientou Giovana, Aline Fernandes de Azevedo Bocchi, docente do Programa de Pós-Graduação em Linguística, diz que surgiram algumas dificuldades no caminho.

“A primeira delas foi organizar o material e selecionar o que exatamente seria analisado. Na Análise de Discurso, mobilizamos os conceitos para compreender como os sentidos são produzidos. No caso da pesquisa, nossa questão era entender como os sentidos para a violência se constituíam naquele material, que era marcadamente digital, ou seja, tratava-se de uma hashtag, a #metoo, e de como ela gerou discursos no mundo todo para denunciar a violência sexual e o assédio contra mulheres.”

Resultados
Apesar da complexidade de se abordar o tema e o arquivo da pesquisa, Aline vê com ótimos olhos o resultado do trabalho. “Mesmo tendo sido um grande desafio, orientar a Giovana foi muito recompensador. Esse é um assunto de extrema importância e impacta diretamente na sociedade. Para se ter uma dimensão do problema, o Brasil registra mais de 180 estupros por dia, segundo o 13° Anuário de Segurança Pública, publicado em 2019. Só que esses números podem, na verdade, ser bem maiores, por conta da questão da baixa notificação. Esse é um tema que precisa ser mais explorado, sobretudo em pesquisas qualitativas.”

Integrante da banca examinadora, a professora doutora Luciana Carmona Garcia aprovou a tese de Giovana de Russi. “A pesquisa cumpre totalmente com o que se propõe a fazer. As análises realizadas me tocaram muito como mulher, ainda mais em um momento em que se faz mais do que necessário denunciar a violência e formar uma proteção conjunta. O trabalho traz essa denúncia e, ao mesmo tempo, mostra a importância de se formar uma rede de apoio na vivência violenta da mulher.”

Assim como Aline Bocchi, Luciana vê a necessidade de que o tema da violência sexual contra a mulher seja mais veiculado. “Isso precisa circular na sociedade. É um modo de conscientização sobre um problema que é visto como natural e, não raramente, associado a uma reclamação sem consistência, como um ‘mimimi’, diminuindo a dor da mulher quando tem seu corpo e alma violado.”

Giovana torce para que seu trabalho escancare as várias faces da violência. “Ela causa mais coisas do que só marcadores físicos. Traz, junto consigo, o luto e o trauma. Porém, depois disso, vem também a luta. Ainda espero que, de alguma forma, possa contribuir para o campo teórico da Análise de Discurso com o termo ‘acontecimento midiático’ ou até mesmo com a discussão do jurídico no discurso e no corpo.”