Entre tapas e beijos

Por causa do distanciamento social, pandemia de Covid-19 acelerou uniões e separações; teve até cerimônia drive-in em Franca

Rafaela Costa

Foto acima: Rafael conta que a adaptação em outro país não tem sido fácil, mas que tem recebido muita ajuda da esposa (Acervo pessoal)

A pandemia do novo coronavírus tem sido, para muitos casais, uma oportunidade não só para oficializar a união, mas para viver aventuras antes impensadas.

Noemy e Wallyson são exemplos. Eles se casaram no dia 15 de agosto de 2020, em Franca, procurando seguir todas as medidas de segurança recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Acabaram protagonizando a primeira cerimônia drive-in da cidade.

Essa história começa quando se conheceram na igreja e engataram uma amizade. O pedido de namoro foi em 2015. Após dois anos, deram o segundo passo: o noivado e, a partir daí, os preparativos para o casamento, inicialmente marcado para 26 de setembro de 2019. Tudo caminhava bem, até que Wallyson, que é sapateiro, perdeu e o emprego. O sonho precisou ser adiado. “Resolvemos não fazer o casamento naquela data e esperar um pouco mais”, afirma Noemy. Quando o noivo, depois de algum tempo, conseguiu serviço em outra empresa, a data foi remarcada para fevereiro de 2020.

Mas veio a Covid-19. E as notícias de que o vírus se espalhava com facilidade. Na época, Wanderson de Oliveira, secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, informou que uma “investigação retrospectiva” descobriu que o primeiro caso no Brasil havia ocorrido em 23 de janeiro.

Noemy e Wallyson adiaram o casamento por duas vezes antes de oficializarem a união, em agosto de 2020 (Foto: Acervo pessoal)

A doença trouxe uma série de impactos. No trimestre encerrado em junho, por exemplo, a taxa de desemprego atingiu 13,3%, o que representava 12,8 milhões de pessoas. Só neste período, foram fechados 8,9 milhões de postos de trabalho.

Wallyson estava, novamente, na lista de dispensas. Mas não só ele. Noemy também ficou sem o trabalho e o casamento foi, de novo, desmarcado. Decidiram guardar todas as economias para emergências, já que a situação não apontava sinais de melhora.

Só que o adiamento, dessa vez, tinha um agravante: não era possível prever uma nova data.

A ideia

Noemy conta que a proposta do casamento drive-in surgiu numa reunião entre o noivo, os irmãos dele e o fotógrafo que havia sido contratado. “Ali, eram tratados assuntos de negócios e, no meio da conversa, falaram sobre cinema drive-in. Aí, veio a ideia”.

A fuga do tradicional, aliada à vontade de concretizar a união, fez com que a cerimônia, segundo Noemy, fosse ainda mais especial. Com a ajuda de empresas especializadas em organização de eventos, os convidados participaram de dentro de seus veículos, respeitando uma distância estabelecida entre as vagas.

“Deixamos espaços maiores entre os carros para manter a segurança e pedimos a colaboração de todos para não ter contato. Todos compreenderam e foi incrível! Não vou me esquecer de quando passamos no corredor. O grupo musical tocando Roupa Nova e os convidados buzinando. Foi top”, declara Noemy, sorrindo.

Naquele momento, eles sentiram que a pandemia era capaz de transformar, mas não de atrapalhar uma relação.

Cerimônia drive-in, a primeira de Franca, foi pensada para evitar o risco de contágio pela Covid-19 (Foto: Acervo pessoal)

Além-mar

Quem também viveu uma história bem diferente foram Rafael Oliveira e Anabela. Ele saiu de Franca, onde nasceu e foi criado, e se mudou para Portugal, em plena pandemia. Chegando lá, conheceu pessoalmente a esposa, portuguesa, com a qual mantinha um relacionamento virtual havia cinco meses e já havia se casado no civil.

Isso porque, antes de viajar, Rafael já tinha providenciado a papelada no Brasil. Uma procuração foi enviada para Anabela, que aceitou o casamento antes mesmo do primeiro contato presencial. A cerimônia no Cartório de Notas de Franca, com ele aqui e ela lá, teve poucos convidados, para evitar aglomeração.

Rafael conta que a pandemia não impediu o encontro, mas dificultou um pouco, já que embarcar para Portugal foi outro desafio. Foi necessário fazer teste para Covid-19, o que foi exigido de todos os passageiros que iriam para o mesmo destino, gerando um atraso na entrega do resultado e na emissão do passaporte.

“Não foi fácil. Não bastasse o processo ter sido cansativo, deixei minha família, amigos e trabalho para começar uma vida do zero. Mas tem sido surpreendente. Fui muito bem recebido por todos e estou me adaptando. Tenho algumas dificuldades, mas minha esposa tem me ajudado muito.”

Ele sabia que se casaria um dia, mas não que seria de forma tão inusitada. “Foram muitas surpresas, do início ao fim.”

Separações

Enquanto alguns se unem durante a pandemia, outros não têm tido um final feliz. Uma pesquisa feita pelo Colégio Notarial do Brasil revela que os divórcios consensuais realizados no país, entre os meses de maio e junho de 2020, cresceram, em média, 18,7%. Das 27 unidades da federação, 15 registraram aumento.

Este incremento nos números coincide com o período em que divórcios, inventários, partilhas, compra e venda, doações e procurações puderam ser feitos por videoconferência.

Fonte: Colégio Notarial do Brasil

Cacilda de Aguiar Garcia é advogada em Franca. Afirma ter recebido vários casos de divórcio durante a pandemia. “Cada caso deve ser analisado, porque a grande maioria desses divórcios se dá em função da incompatibilidade de gênios, pelo fato de estarem mais próximos no dia a dia. Eu tive clientes com problemas envolvendo o uso de entorpecentes, agressões psicológicas e até motivos mais simples, como a dificuldade econômica, o que acarretou a decisão da separação.”

Entre as causas, estão também as agressões. Em abril de 2020, quando o distanciamento social durava pouco mais de um mês, a quantidade de denúncias de violência contra a mulher recebidas pelo Disque 180 deu um salto: 40% a mais em comparação com o mesmo mês de 2019, segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMDH).

A psicóloga Izabella Silva Costa, de Franca, diz que a pandemia “nos pegou despreparados”. O resultado foram situações de estresse, tensão, preocupação e ansiedade. Fatores altamente relevantes nas mudanças repentinas das rotinas dos casais. Foi tirado deles o direito de sair, de realizar atividades, sozinhos ou acompanhados, seja no trabalho ou no lazer. Conviver 24h por dia fez, segundo Izabella, com que coisas antes consideradas irrelevantes tomassem grandes proporções. Os defeitos ficaram mais evidentes.

“É necessário compreender a individualidade um do outro. É importante entender que, mesmo sendo um casal, não deixam de ser um homem e uma mulher com suas individualidades, e a convivência mais próxima às vezes não respeita isso.”

*Esta reportagem é uma das que integram a Revista Dois Metros, produzida por estudantes do segundo ano de Jornalismo da Unifran no segundo semestre de 2020. Clique aqui para ler a revista toda

Anabela e Rafael em Portugal; cerimônia civil foi a distância (Foto: Acervo pessoal)