Salas virtuais

Precisando abandonar o ensino presencial na pandemia, professores se adaptaram a novas rotinas para lecionar a distância  

Isabela Diógenes

Foto acima: Covid-19 provocou mudanças profundas na Educação, com muitas instituições adotando o método do ensino remoto síncrono (Banco de imagens)

Maria Georgina Marques Tonello é coordenadora do curso de Psicologia Pedagógica na Faculdade Psicolog (FAPSI), em Ribeirão Preto-SP. Ela confessa que seguir as regras para evitar a proliferação do novo coronavírus não é uma tarefa muito fácil. Com as instituições de ensino mantidas fechadas por tempo indeterminado, passou a encarar os desafios de ensinar de casa.

A pandemia de Covid-19 provocou mudanças profundas na Educação. A maior parte das escolas de ensino fundamental, médio e superior do Brasil adotaram o método do ensino remoto síncrono, em linha com outros países. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), cerca de 800 milhões de crianças são afetadas pelas medidas de prevenção, número que representa cerca de 50% dos estudantes do mundo.

O ensino síncrono conta com a presença simultânea de estudantes e professores em ambiente virtual, sendo possível a interação em tempo real, o que possibilita esclarecer dúvidas no momento em que elas aparecem. Diferente do assíncrono, mais conhecido no sistema EAD (Educação a Distância), que consiste na disponibilização de aulas gravadas, para que os alunos vejam quando preferirem, e que já apresentava, antes mesmo da pandemia, número crescente de matrículas.

Isso se deve, de acordo com a Associação Brasileira de Ensino a Distância (ABED), ao fato de mais de 116 milhões de pessoas terem acesso à internet no país – cerca de 64% da população. Dados da associação apontam que, nos anos de 2018 e 2019, o Brasil tinha um milhão de estudantes nesse método, crescimento de 900% desde 2005 – quando o número era de 100 mil.

A pandemia adiantou um futuro ainda mais tecnológico para a Educação. Até então, o ensino a distância era praticado, apenas, por alunos que optavam por ele. Gente que possuía internet rápida, que se identificava com uma relação não presencial e/ou que o achava adequado a sua rotina e compromissos. Com a Covid-19, no entanto, a adaptação precisou se estender a quem não tinha boa conexão ou familiaridade com ferramentas digitais. Conforme o Fundo das Nações Unidas para a Infância  (UNICEF), 17% das crianças e adolescentes brasileiros em idade escolar apresentam alguma dificuldade no acesso à internet.

Em abril de 2020, Rodrigo Capelato, diretor executivo do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (SEMESP), afirmou que as faculdades, centros universitários e universidades haviam mudado suas estratégias e metodologias, e investido, “rapidamente, em recursos tecnológicos, e treinamento dos professores e outros profissionais acadêmicos, para poder levar diariamente aulas síncronas a todas as turmas dos cursos presencias durante a quarentena de prevenção à pandemia do novo vírus”. Uma realidade, porém, que não foi observada no ensino público.

Independente da situação, professores tiveram que correr contra o tempo para adaptarem as metodologias presenciais para o universo online. Diferente da forma assíncrona, a síncrona não se caracteriza por docentes especialistas e experientes com novas tecnologias. Diante disso, foi exigido que eles passassem por treinamentos e fizessem modificações em suas didáticas, para que encontrassem maneiras de manter a atenção dos alunos.

Bruno Albertini, professor na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), considera que este processo é um dos principais desafios, já que os professores precisam, ao mesmo tempo, dominar as ferramentas, atingir objetivos de aprendizagem almejados e quebrar barreiras relacionadas tanto ao método presencial tradicional quanto ao ensino remoto.

Transição para aulas síncronas interferiu na saúde mental dos professores (Foto: Banco de imagens)

Experiências

Para entender quais foram os principais desafios dos tutores nessas condições, conversamos com dois deles: além de Maria Georgina, Giovani Silva, professor de Geografia no ensino médio e em cursos pré-vestibulares em cinco instituições: Colégio Alto Padrão Objetivo, Novo Colégio, Curso Pré-Vestibular Exato, Colégio Pessoa, todos em Franca-SP, e Colégio Viva, em Igarapava-SP.

Ambos citam “algumas” dificuldades de adaptação. Segundo Maria Georgina, além de ter sofrido uma demissão durante a pandemia, há desvantagens em lecionar a distância. “Não dispor de um espaço físico adequado. Tive que adicionar mais um ponto de internet no meu escritório”. Ela lembra dos barulhos e distrações na casa, com filhos e animais domésticos. “Tem a falta de contato visual com os alunos. Não sabemos se estão assistindo a aula ou somente com o computador ligado”. E completa: “Tantas outras desvantagens… Alunos angustiados, desmotivados, desempregados… Fica difícil, às vezes, ajudar de longe. E depois, no meu caso, também fiquei desempregada, pois fui demitida ao final do primeiro semestre”.

Já Silva dá ênfase à necessidade de dominar plataformas digitais: “Desde o ano passado, as escolas já ensaiavam iniciar a introdução dessa ferramenta na rotina escolar. Com a pandemia, foram obrigadas a inserir. Porém, não houve tempo para capacitar os professores”, lamenta. “Tivemos que aprender a usar repentinamente. Me lembro que, no início de março, quando foi anunciada a pandemia, dei aulas presenciais num dia e, no seguinte, já fiquei em casa gravando aulas. Começamos gravando. Depois, passamos para uma nova fase, com as aulas síncronas. A maior dificuldade foi aprender a usar as ferramentas de cada plataforma e cadastrar vários usuários com e-mail e senha”, explica o professor, que, por trabalhar em várias instituições, teve que criar contas diferentes.

Ele mantém um caderno só com as senhas, para não se confundir. “Em alguns colégios, começamos usando plataformas gratuitas, mas tivemos que mudar em função de ameaças de hackers. Quando estava quase dominando uma plataforma, tivemos que aprender uma nova. Foi bem estressante. Mas, depois que definimos as plataformas em todas as escolas, as coisas ficaram mais fáceis”. Conta que comprou um notebook novo, porque o dele já era usado e não suportava bem as aulas.

Maria Georgina, por sua vez, não enfrentou tantos problemas nesse aspecto. Já estava habituada ao ambiente digital. Mesmo assim, foi necessário um aprofundamento. “Aprimorar o conhecimento sobre a gravação de aulas, criação de links, elaboração de provas online. Assisti a vários tutoriais sobre isso.”

Mudanças

Apesar das desvantagens, a professora vê fatores positivos nas mudanças repentinas geradas pelas aulas síncronas. Um deles foi a economia de tempo em deslocamentos. “Essa é a maior vantagem, já que muitos viajam para trabalhar e estudar. No meu caso, também é positivo o conforto da minha casa, com internet e espaço físico. Mas essa não é a realidade de todos os alunos.”

Silva passou por alterações mais intensas. “Preparo a aula antes. Porém, muitas vezes, uso a lousa pra montar meu ‘esquema de aula’ e, de vez em quando, uso slides. No ensino síncrono, optei em usar slides para explicar tudo, pois entendo que, para a minha disciplina, fica melhor para o aluno acompanhar a explicação. É como se eu colocasse o ‘esquema da lousa’ no slide”.

O professor conta que os alunos gostaram do formato e garantem acompanhar com facilidade. Mas um dos problemas é que o professor teve que transformar todas as aulas em Power Point. “Algumas, eu já tinha prontas, mas a grande maioria não. Outra mudança é que sempre preciso postar esses slides para os alunos em alguma plataforma, para eles usarem para os estudos em casa após as aulas. Tudo isso demanda um tempo maior.”

O aumento da carga de trabalho é uma reclamação comum a vários professores. “Em alguns momentos, percebo que tenho trabalhado três vezes mais em relação ao ensino presencial. Teve dias em que liguei o notebook às 7h da manhã e desliguei às 23h”. Silva afirma, ainda, que escolas e alunos fazem contato várias vezes ao dia, inclusive no horário noturno. “As escolas nos enviam horários, calendários e demais informações sobre o planejamento escolar e os alunos nos mandam dúvidas sobre a matéria. Dessa forma, estamos sempre trabalhando em todos os períodos.”

Emocional

A transição das aulas presenciais para as síncronas também interferiu em questões emocionais e nos espaços físicos das casas de professores e alunos, já que a sala de aula já não estava mais disponível.

Maria Georgina relata que precisou modificar os cômodos para lecionar, tendo que dividi-los com o marido, também professor: “Alternamos entre sala, escritório e quarto”. Ela conta que a internet oscila muito e, por isso, precisou, além de colocar outra, usar a do pacote do celular. “Mesmo assim, não resolveu muito, pois também oscilava. Então, não tive um lugar fixo para dar aulas”.

Diferente de Giovani, que montou um cantinho para dar aulas todos os dias. “Inicialmente, usava o meu quarto, mas depois tive que preparar um local para que pudesse trabalhar sem interrupções e com uma postura mais adequada”.

*Esta reportagem é uma das que integram a Revista Dois Metros, produzida por estudantes do segundo ano de Jornalismo da Unifran no segundo semestre de 2020. Clique aqui para ler a revista toda

Giovani adaptou um local da casa exclusivamente para aulas de Geografia (Foto: Acervo pessoal)