“Profissão prazerosa”

Entre as histórias do jornalista Nilson Fradique, do GCN, está a de que quase foi demitido por causa do futebol

Lucas Faleiros

Foto acima: Fradique começou a ter contato com o Jornalismo aos 14 anos, como office boy no jornal Comércio da Franca (Acervo pessoal)

Nilson Fradique Alves, ou simplesmente Fradique, de 48 anos, é um jornalista e radialista francano que atua na área desde jovem. Sua primeira experiência no ramo foi aos 14 anos de idade, quando foi contratado para trabalhar como office boy no Comércio da Franca, tradicional e já extinto jornal da cidade. Lá, passou a conviver com outros jornalistas, com quem aprendeu e foi criando apreço pela profissão.

Desde então, Nilson passou por diversos veículos de comunicação e exerceu várias funções – foi repórter, editor, redator e radialista -, sendo premiado por trabalhos realizados nos jornais Comércio da Franca e Diário da Franca, e na rádio Hertz.

Em 1987, venceu a categoria Destaque do Ano no Prêmio Noite EP – indicado pelo jornal Comércio da Franca. Também foi contemplado em várias edições do Prêmio O Dono da Bola, devido às suas coberturas esportivas na região e reportagens de apoio a atletas da Associação Atlética Francana e do Franca Basquete. Recebeu, ainda, homenagens de instituições como a Aspa (Associação de Pais e Amigos do Franca Basquete). Em 2018, Fradique chegou ao portal GCN, onde trabalha como repórter e faz participações em noticiários da rádio Difusora.

Nessa conversa, o jornalista falou sobre vários assuntos relacionados à profissão. Os tópicos vão desde suas escolhas pessoais até as mudanças trazidas pela pandemia de Covid-19. Ele também deu sua opinião sobre o que os jornalistas em formação devem estimar para seus futuros e a questão da exigência do diploma.

Fradique, para começar, por que escolheu o Jornalismo? Foi algo que foi acontecendo ou você já sonhava com isso?

Quando comecei no jornal Comércio da Franca como office boy, com 14 anos, já tinha vontade. Porém, foi tudo acontecendo naturalmente. Cresci dentro daquele ambiente e comecei a conviver com outros jornalistas na redação. Isso foi despertando o desejo. Mas as coisas aconteceram aos poucos. Passei a trabalhar na parte de diagramação do jornal e fui me interessando pela profissão. Até que chegou um momento em que comecei a escrever alguns textos, principalmente voltados para o esporte. Tudo começou assim.

Creio que a profissão já deve ter lhe proporcionado várias experiências positivas. Tem alguma bacana que você possa contar? Algo que tenha realmente te marcado durante a carreira.

Houve algumas entrevistas que fiz com jogadores dos quais eu gostava. Ídolos mesmo. Cobri Jogos Regionais e vieram vários atletas famosos para Franca. Falei com o Xuxa, o Gustavo Borges… Conversei e convivi com atletas do futebol dos quais eu era fã. Nos jogos das estrelas que o jornal realizava em parceria com outras empresas, entrevistei e cheguei a jogar bola com caras como o Cafu, Roberto Carlos, Washington e Caio Ribeiro, hoje comentarista da Globo. Então, a gente acaba vivenciando passagens como essas, sabe? Ainda pude ver o auge do basquetebol de Franca, vi o time ser campeão brasileiro e entrevistei vários jogadores da Seleção Brasileira de Basquete. Falei com Hélio Rubens, pude vê-lo jogar e vencer vários títulos como jogador e treinador. Teve o Guerrinha, o Fausto, o próprio Helinho… Tive o prazer de ver várias gerações do esporte. Estou há 20 anos nessa área. É muito bacana.

E existiu alguma história triste nesse caminho?

Dentro do jornal a gente já fez de tudo, né? Em uma época em que fui fotógrafo, acabei indo em muitas ocorrências. Já vi vários acidentes graves. Coisas daquelas que a gente vê, não se conforma e acaba repensando na vida. Também houve episódios em que fiz alguma matéria que acabou não agradando outras pessoas. Aí acontece de virem te questionar por uma notícia negativa. Porém, tudo o que fazemos é embasado. No geral, essa é uma profissão muito prazerosa. O Jornalismo tem a sua parte triste, tem algumas notícias desagradáveis que você precisa dar independentemente de qualquer coisa, mas te entrega muita coisa gostosa e boa de participar.

Qual foi a coisa mais maluca que você já presenciou trabalhando? Algo que tenha até mesmo te assustado durante o ofício.

O que acontece de maluco na profissão às vezes não tem nem a ver com a matéria. É quando você conhece alguém diferente, que você passa a trabalhar junto, algumas brincadeiras que rolam na redação… São viagens que você faz para cobrir algo e acontece alguma coisa no caminho. Em termos de matéria, acho que não teve nada. Mas levando em conta o companheirismo e as amizades formadas, foram muitas coisas. Colegas de profissão entrando em enrascadas e a gente acaba indo junto [risos]. É esse tipo de situação mesmo.

E você já fez algo de errado e acabou tendo “a orelha puxada” pelos seus superiores?

Mais ou menos [risos]. Quando eu tinha por volta de 17 anos, passei a treinar no time de juniores da Francana. Isso ao mesmo tempo em que trabalhava no jornal. Na época, teve um começo de temporada e fui me apresentar ao clube junto com os jogadores no meu horário de trabalho. Nisso, estava lá um fotógrafo do Comércio da Franca e acabei aparecendo nas fotos dele, lá no meio dos atletas. Quando entregaram as fotografias pro meu patrão, o já falecido Corrêa Neves, ele percebeu a minha presença. Eu fui chamado na sala dele e o que escutei foi “eu tenho todos os motivos para te mandar embora. Você estava em outro lugar, fazendo outra coisa, enquanto deveria estar trabalhando”. Contei a ele que eu tinha o sonho de ser jogador. Acho que isso mexeu com ele, que gostava muito de futebol e chegou até a ser presidente da Francana. Acabou que eu fui perdoado e ele permitiu que eu fosse treinar uma vez na semana. Mas, de início, levei uma baita bronca. Quase perdi o meu emprego.

Qual assunto você mais gosta de cobrir nas reportagens?

Como fiquei muito tempo no meio dos esportes, é o assunto que mais gosto de falar. Adoro escrever sobre e ir aos eventos. Fiquei a minha vida toda correndo atrás da Francana e do Franca Basquete, que são os times locais. Foram várias narrações e participações em rádio. Coberturas de campeonatos externos também. Narrei o Campeonato Brasileiro no estádio Santa Cruz, em Ribeirão Preto, fui também para São Paulo… É muito prazeroso para mim. Hoje, faço matérias que envolvem todas as áreas, mas o esporte é apaixonante.

Em algum momento você pensou em mudar de área e abandonar a vida de repórter?

Não! Apesar de que, quando estava com uns 20 anos, ainda começando no jornal, prestei concurso para ser policial. Fiz para tenente no Barro Branco, para polícia em Ribeirão Preto e passei em todos os exames. Porém, não me chamaram. O meu irmão até passou e foi policial por uns dez anos. Mas foi a única tentativa de outra coisa. Eu me enraizei mesmo nos jornais, onde estou até hoje.

Você é um jornalista que não passou pela faculdade. Qual a sua opinião sobre a o diploma de jornalismo? Ele é importante?

Acredito que tudo seja importante. Quando você faz um curso e se especializa em uma determinada matéria, isso precisa ser reconhecido. Sou a favor do diploma. Porém, precisamos também levar em conta as histórias de alguns grandes jornalistas que não fizeram faculdade. Na verdade, é uma situação cheia de controvérsias, né? Uma juíza deferiu o registro para alguns jornalistas que possuem trabalhos e eu, inclusive, tenho esse registro profissional mesmo sem ter feito faculdade. O diploma é importantíssimo, claro. Mas acredito que o dia a dia na profissão tenha um grande valor. Em todos esses anos fazendo matérias, sendo editor, redator e repórter, a gente acaba passando muita coisa pro pessoal mais novo na área. Eles adquirem muito conhecimento na prática. As duas coisas são valiosas: a teoria e a prática. Porém, repito: o diploma é importante. Hoje, muitas grandes empresas o exigem na hora de contratar.

Mudando um pouco de assunto, a pandemia chegou até nós no início de 2020. Como foi para você, que trabalha há mais de 25 anos, vendo gente, trocando experiências e palavras com outras pessoas todos os dias, precisar dar uma pausa nisso? Foi um baque muito forte?

Foi uma mudança gigantesca. Com a pandemia, precisamos nos reinventar. Isso valeu para tudo: procurar matéria, conversar, entrevistar e ir até os locais onde ocorreram os fatos. Antes, nós conseguíamos ter um contato mais direto. Agora, boa parte das coisas é feita por meio de videoconferência ou por celular. Aquele contato meio que acabou. Algumas vezes, por exemplo, matérias repercutem e não ficamos nem sabendo quem deu o depoimento, por conta de ser só por áudio. Alterou muito a forma de se correr atrás da notícia. Teve um afastamento entre repórter e fonte. Mas nos adaptamos.

Como você pensa que todo esse surto afetou o Jornalismo? O que você tirou de lição?

A gente aprendeu que existem outros meios de se obter informações, né? Fomos forçados a sair de nossa zona de conforto. Além disso, teve a parte de você precisar evitar ao máximo o contato com outras pessoas e, ainda assim, continuar tendo que buscar tudo e todos os dados ao mesmo tempo. Foi um grande desafio.

No caminho inverso, o que você acha que a pandemia nos ensinou a não fazer?

Creio que foi tudo com relação ao contato. Acabamos, de certa maneira, nos afastando um pouco de nossa família, devido à preocupação e medo de poder passar alguma doença como essa para nossos entes. Fora o receio de sair, ir a um supermercado e fazer compras. É uma nova realidade. Sinceramente, não sei se nos ensinou a fazer ou não as coisas. É difícil responder essa pergunta. Mas que precisaram acontecer várias mudanças, isso não tem como negar. Tivemos que aprender a conviver de longe e continuar apresentando resultados.

Você acompanhou várias histórias de pessoas que contraíram a Covid-19. Como foi tentar conversar com elas para contar suas caminhadas em meio a todo esse drama?

No começo da pandemia, eu, realmente, fui o repórter mais exigido pela editoria com relação a sair, entrevistar e contar as histórias dessas pessoas. Porém, foi bem complicado. A pandemia é algo que ninguém conhece direito. É um vírus desconhecido e ninguém tem dados concretos a seu respeito. Então, no começo, as pessoas saíam dos hospitais, iam para as suas casas, mas não queriam falar sobre o assunto. Tinha todo o trabalho de procurar um familiar, para que ele fizesse a ponte entre o repórter e o entrevistado, porém, as pessoas que contraíram a doença tinham que aceitar falar. No início, o povo tinha muito preconceito. Quem pegava a Covid-19 não queria se expor e acabava se escondendo. Principalmente nos primeiros casos. Foi muito difícil. A gente falava com filhos, filhas, esposos e esposas para tentar convencer os pacientes a contar o que passaram. Muitas vezes, isso não dava certo. Agora, quando acontecia, apareciam outras preocupações. Vinha todo aquele cuidado para não se infectar e também o zelo para tentar tirar toda informação que essas pessoas tinham. Tentamos fazer com que elas ajudassem na conscientização do resto da população. Aí, depois das entrevistas, vinha o medo. Você chega em casa, toma um banho, se limpa e troca de roupa, mas fica com aquilo na cabeça: “Será que eu peguei coronavírus?”. Tive medo de beijar a minha filha, para você ter uma ideia. É um processo complexo. Tem o antes, o durante e o depois.

Fradique lamenta ter visto jogadores abandonarem carreira com a pandemia (Foto: Acervo pessoal)

E para você, que sempre fez reportagens relacionadas ao esporte, como foi vivenciar isso tudo?

Os esportes ficaram paralisados por muito tempo. Então, onde trabalho, acabaram aparecendo matérias sobre vários outros assuntos. Porém, mesmo com a pausa, tive que me apegar aos bastidores e procurar saber o que os times estavam fazendo, como os jogadores estavam treinando e o que os atletas faziam para se sustentar paralelamente. Sempre tem a notícia. Para mim, foi um pouco tranquilo, já que faço coberturas sobre outros assuntos. Então, preencheu um pouco o espaço.

Se é que é possível, você pensa que a pandemia pode trazer algo de bom para os esportes?

Ficou tudo parado por mais ou menos seis meses. É complicado. A gente viu até jogador desistir da profissão e procurar outra coisa para fazer. Nos clubes do interior, isso aconteceu muito. É uma parte muito triste. Acredito que, na parte das precauções ou até em mudanças de regras, pode haver algo positivo. Os atletas vão passar a se cuidar melhor e as instituições se preocuparão mais com exames. Porém, o esporte é o público, o contato, a comemoração e o abraço. Sem essas coisas, não tem nada. E a pandemia nos privou de boa parte disso.

Tirando um pouco o foco da pandemia. O jornalismo vem em uma constante mudança. Presenciamos o fim de vários jornais impressos e a ascensão dos veículos de comunicação online. Você acha que essa variação vai continuar?

A tendência é que continuem, sim, ocorrendo as mudanças, mas não nessa velocidade que em que aconteceram. Os jornais impressos acabaram de repente, ninguém mais vai nas bancas e tudo está na palma da nossa mão. Os donos dos grandes veículos de comunicação precisaram investir no digital. Creio que tudo continuará, por algum tempo, caminhando assim, na internet. Porém, a tecnologia não para nunca. Não podemos descartar nada. Alguma coisa nova com certeza vai aparecer e nós, repórteres, teremos que acompanhar. Não podemos parar no tempo. O jornalismo não aceita isso.

E a questão das rádios? Na sua opinião, o AM e o FM estão no fim de seus dias?

Então, o AM, sem dúvidas, vai acabar. Já existe até uma lei para que todas as rádios passem para a frequência FM. Porém, não acredito que o rádio vá acabar de vez. Ele possui uma essência própria, esteja a pessoa escutando em um aparelho antigo ou em um aplicativo. Haverá mudanças e adaptações, mas acho que não acaba.

Hoje, você acredita que o jornalista precisa fazer de tudo? Por exemplo, quem trabalha com esportes precisa saber narrar, comentar, fazer reportagens de campo e, após o jogo, escrever um bom relato? Cada vez mais, o jornalismo exige que sejamos “profissionais 360”?

As coisas mudaram muito de uns tempos para cá. Hoje, se você é só fotógrafo ou só repórter, perde espaço. O profissional precisa ser multimídia. Ele precisa sair, fazer a imagem, o texto, a sonora e qualquer coisa a mais que for pedido. Aí sim, ele terá espaço nas empresas. Atualmente, se a pessoa sai com uma máquina fotográfica só para fazer o clique, por exemplo, e depois volta para a empresa, não tem espaço. Quem tem a vaga é o cara que sai, faz o relato, a fotografia, o vídeo e os áudios. Além disso, o jornalismo é tão dinâmico que não existe mais aquilo de você sentar em uma mesa só para escrever o texto. Muita coisa é feita pelo celular. Você vê algo, registra, faz e envia o texto na hora.

O que você almeja para a continuidade da sua carreira? Quer seguir fazendo o que faz aqui no GCN ou pretende mudar de ares futuramente?

Olha, Lucas, eu sou um cara mais veterano [risos]. Já tive os meus momentos de sair e tentar novas coisas. Trabalhei inicialmente em Franca, fui para Ribeirão Preto, estive em vários jornais e rádios, montei uma agência de publicidade, fui comentarista, repórter, editor, fiz algumas vezes o papel de narrador em jogos e acabei voltando para trabalhar aqui em Franca. Porém, quem está começando – vocês, jornalistas em formação – precisa pensar grande, esperar coisas grandes. Se você está em Franca, pensa em São Paulo. Se está em São Paulo, pensa em ir para a Globo. A pessoa que está na faculdade tem que pensar no William Bonner, na Fátima Bernardes, sabe? Você tem que tentar chegar. A caminhada é dura. É igual no futebol: de mil jogadores, um vai virar Neymar. Mas, se você não pensar lá em cima, acaba não dando os menores passos, que são muito necessários. Quem está no começo precisa sonhar. Eu, por mais que tenha saído e voltado, nunca vou parar de sonhar. Enquanto estivermos vivos, nós sonharemos.

Finalizando, você é feliz com tudo o que conquistou?

Muito! Sou muito realizado.