O vírus preconceito

Informações falsas sobre a origem da Covid-19 resultam em episódios de xenofobia contra povos orientais e muçulmanos

Marília Neves

Foto acima: Ataques xenofóbicos contra crianças orientais podem provocar traumas, a serem tratados com terapias e até medicamentos (Banco de imagens)

Ana (nome fictício) tem 11 anos e está animada para ir à escola. O ano letivo tinha acabado de começar. Cursando o sexto ano em uma escola pública, tem novas matérias, professores e amizades.

Acorda perto das 11h da manhã. Ansiosa, se levanta, toma banho e se arruma para um novo dia. Como sempre, pede que a irmã mais velha lhe faça um penteado. Logo, o cabelo escuro, pouco ondulado e comprido, que passa do quadril, está trançado. Ela almoça e espera o pai chegar do trabalho.

A rotina é corrida. Por causa do tempo curto de almoço do pai, ele a deixa na escola ao meio-dia, mais cedo que o horário de entrada. Na secretaria, fica acompanhada por uma das novas amigas, que também chega mais cedo.

Ana é tímida. Sempre que conhece uma pessoa ou enfrenta uma situação nova. Mas, tão logo cria um laço, se transforma. Fica alegre e comunicativa. Gosta de conversar. Mesmo estando em início de ano, já fez várias amizades.

O dia passa como os outros. Mas tudo muda quando o som alto e estridente da campainha toca, anunciando o intervalo. Ana anda pelo pátio cheio de crianças com idades variadas, acompanhada pela amiga da secretaria. Muitas conversas se misturam. Uma barulheira. A ideia se se sentarem parece boa.

Elas caminham em direção a um dos bancos de cimento. Um grupo de cinco meninos de uma turma mais velha se senta próximo. Como a conversa entre elas flui, não dão atenção ao grupo. Até que ouvem algo.

— Aquela é a coronavírus — diz um dos meninos olhando para Ana.

Os avós dela são japoneses. O pai nasceu no Brasil, mas os traços asiáticos não negam a descendência.

Ela questiona, ainda sem muita certeza, se é o alvo do comentário.

Coronavírus — outro diz, apontando para Ana.

Aquele não é seu nome. Não entende os comentários. Não havia feito nada.

Mais olhares são direcionados às meninas, acompanhados de falas repetidas e altas. Elas não conseguem reagir. Ora, é de se esperar! Como duas pequenas garotas poderiam retrucar um grupo mais velho de cinco meninos, enquanto estão vigiadas por mais um monte de gente?

O intervalo acaba. Ana remói aquele momento. Assim que o relógio aponta seis e vinte de noite, o sinal toca. Ela volta pra casa e não diz nada.

Wuhan, na China: país é acusado de ter produzido vírus em laboratório (Foto: Banco de imagens)

Sintomas

Tudo parece igual no dia seguinte. Só Ana não é a mesma. Ela não se sente bem. Até que o pai chega e nota que a filha não está pronta.

— Por que ainda não se arrumou? – questiona ele.

Ela começa a chorar. Em meio às lágrimas, conta o que vivera no dia anterior.

— Ficavam falando alto, me chamando de coronavírus enquanto olhavam para mim.

A família se reúne, tentando consolá-la. A irmã não diz nada. Apenas a abraça, fazendo carícias. Pouco a pouco, Ana relata o ocorrido. E, ainda chorando, pede, temendo que a situação se repita:

— Eu não quero ir para a escola. Me muda de escola!

Todos ali entendem. Quem vai pra escola é o pai, para pedir esclarecimentos. Ao chegar, procura a diretora, que lhe assegura:

— Entendo a situação. Sou negra, sei bem como é isso. Darei todo o meu apoio a sua filha. Não acontecerá novamente.

No outro dia, Ana acorda de novo perto das 11h. O mesmo trajeto em direção à escola. Ela entra acompanhada pelo pai e seguem até a diretora, que a conforta.

Quando soa o sinal de entrada, a menina precisa fazer algo difícil: identificar os cinco agressores. Sala a sala, faz uma procura rápida com os olhos. O reconhecimento é fácil. Os rostos deles ficariam em sua memória por um bom tempo.

Eles ficam surpresos quando a diretora exige que peçam desculpas a Ana.

— Desculpa… Mesmo juntas, as vozes deles não são altas como as de dois dias atrás. Suas cabeças, baixas, não estavam nessa posição quando jogavam em Ana palavras cobertas de maldade.

Ana continua na escola. Por causa do distanciamento social, provocado pela pandemia, as aulas estão sendo online. Ela não sofreu mais nenhum ataque. Na companhia da família, se protege do coronavírus e do vírus preconceito.

Vítimas precisam de amparo psicológico (Foto: Banco de imagens)

A propagação

A xenofobia, caracterizada pelo preconceito contra pessoas de outros países, pode desenvolver traumas em quem a sofre. Segundo a psicóloga Gabriela Peroni, de Franca, há casos em que há necessidade de terapia comportamental, que pode incluir técnicas para lidar com ansiedade, crise de pânico, taquicardia, entre outras reações, que dependem do quanto a pessoa se sente ameaçada e incomodada. É possível, também, que medicamentos sejam usados, principalmente para ansiedade e pânico, que podem se estender para membros da família e outros que convivem com a vítima.

O caso de Ana não é isolado. Discussões sobre a origem da Covid-19 se tornaram assunto não só para pesquisadores e cientistas entenderem a evolução e transmissão da doença, mas impulsionou a propagação de mentiras e de ataques xenofóbicos. A China chegou a ser acusada de produzir o vírus em laboratório e de espalhá-lo propositalmente.

Antes mesmo da pandemia, a ONG SaferNet, que reúne denúncias de crimes cibernéticos, processou 978 denúncias anônimas de xenofobia em 2019, envolvendo 628 sites identificados com esse tipo de ofensa. A tendência é que o número aumente por conta das disputas ideológicas entre países envolvendo o novo coronavírus.

Esse cenário chamou a atenção de autoridades mundiais. No dia 8 de maio de 2020, por exemplo, o secretário geral Antônio Guterres, da Organização das Nações Unidas (ONU), fez um apelo, alertando para o “tsunami de ódio e xenofobia” desencadeado pela pandemia. Ainda que seja difícil determinar de onde vêm esses ataques, sabe-se que eles encontram um terreno fértil nas redes sociais.

Prevenção e combate

Para Maurício Moraes, repórter em São Paulo da Agência Lupa, a primeira do Brasil especializada em checagem de informação, a história de Ana ilustra o preconceito que a Covid-19 despertou não apenas em relação aos chineses, mas a outros povos.

Ele cita uma reportagem que ele fez sobre posts falsos a respeito do contágio pela doença. “Nessa reportagem, deu para notar, claramente, muitas mensagens atribuindo a responsabilidade pela transmissão a chineses e também a mulçumanos. No começo da pandemia de vários países, vimos duas ondas bem claras de desinformação. Uma foi sobre chineses que tinham vindo de Wuhan [localidade da China onde foram identificados os primeiros casos de Covid-19] e transmitido o vírus, ou descendentes de chineses”.

A outra foi na Índia, em abril. “Teve um evento religioso de uma comunidade mulçumana em março, com muitas pessoas aglomeradas, o que permitiu realmente um contágio para vários lugares do país. Só que, no mês seguinte, surgiram notícias falsas dizendo que os mulçumanos intencionalmente estavam querendo transmitir o vírus”.

Ele acredita que o problema pode ser amenizado com informação de qualidade e educação. “Devemos continuar checando informações que são falsas e tentar divulgá-las o máximo possível quando a gente checa. E também educar pessoas, mostrando que não dá para confiar em tudo o que se vê na internet”. O repórter ainda aconselha: “Cheque em outras fontes que são mais confiáveis e valorize bastante o jornalismo”.

De acordo com o advogado Erik Vinicius, de Franca, a xenofobia é crime. Está prevista na Lei n° 9.459, de 1997. “Lá, está bem claro que serão punidos os crimes resultantes de discriminação e preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Vale lembrar que essa lei fez com que se inserisse um parágrafo no Código Penal brasileiro, no artigo 140, que prevê pena de um a três anos de reclusão e multa.”

*Esta reportagem é uma das que integram a Revista Dois Metros, produzida por estudantes do segundo ano de Jornalismo da Unifran no segundo semestre de 2020. Clique aqui para ler a revista toda

Facilidade de uso torna redes sociais terreno fértil para o preconceito (Foto: Banco de imagens)