Expectativa de recorde

Clima seco favoreceu e região da Alta Mogiana espera contribuir com quatro milhões de sacas de café na produção nacional

Heloísa Taveira

Foto acima: Estiagem facilita a secagem do café, o que permite a obtenção de uma bebida melhor (Divulgação/Cocapec)

Com condições climáticas favoráveis, o setor cafeeiro espera de 2020 uma safra recorde, tanto em quantidade quanto em qualidade. A expectativa mundial deste ano é de, aproximadamente, 168,71 milhões de sacas e 35% dessa produção são somente do Brasil, considerado o maior produtor, maior exportador e o segundo maior consumidor de café no mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, mas já com perspectiva de ocupar a liderança em 2021.

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic), são esperadas, pelo menos, 60 milhões de sacas de 60 quilos em todo o país, produção favorecida pelo ciclo de bienalidade dupla. Somente a macrorregião de Franca-SP, localizada na região da Alta Mogiana, que abrange municípios paulistas e mineiros e é conhecida como território do café, deve colaborar com quatro milhões de sacas.

Saulo Faleiros, diretor comercial da Cooperativa de Cafeicultores e Agropecuaristas (Cocapec), diz que esse número é expressivo e tem influência na cafeicultura do país em relação ao volume de produção e colheita de qualidade. “Estamos muito positivos. Neste ano, o produtor conseguiu conduzir bem a sua lavoura com os manejos nutricionais e fitossanitários necessários, além de contar com a expansão da área de produção, devido às lavouras que foram plantadas nos anos anteriores e estão iniciando sua produção agora.”

Cafés especiais crescem 18% ao ano e só retraíram com a pandemia (Foto: Divulgação/Cocapec)

João Jacinto é produtor da região e, apesar das incertezas, está animado com a colheita. “Ainda que 2020 esteja difícil por conta da Covid-19, a expectativa de safra alta e os preços elevados têm deixado os produtores entusiasmados”. Ele explica que o clima seco colaborou muito para a secagem dos grãos, que garante uma qualidade excelente. “O café é uma planta que precisa passar por esse período de estiagem, que chamamos de ‘estresse hídrico’. Tem o momento que ela precisa da água, geralmente em outubro e novembro, e, nesse momento, tivemos muita chuva. Passado o estágio de maturação, a planta precisa muito do clima seco. Quanto menor o nível de umidade no grão, melhor será a qualidade da bebida”. Até o fechamento desta edição, a região não havia registrado chuva desde o fim de maio.

O preço do café é um incentivador nas expectativas do produtor, o que ajuda a reverter um pouco um cenário de baixa. De acordo com a Cocapec, o mercado está em oscilação desde 2019 por conta da desvalorização do real, já que o preço do dólar saiu do patamar de R$ 4 para, em média, R$ 5,30. “Pelo fato do café ser cotado em dólar, isso gerou um aumento no preço das sacas em reais. Semanas atrás, a Bolsa de Nova Iorque favoreceu o aumento do preço do café, trazendo um impacto positivo para o setor e para os produtores, pois estão vendendo café com um valor melhor. Isso significa mais rentabilidade, melhoria na lucratividade e uma maior capacidade de continuar seus investimentos e manutenção das atividades”, afirma Faleiros.

Cafés especiais

Não só na Alta Mogiana, mas em todo o país, o consumo de cafés especiais cresce, em média, 18% ao ano. Caio Villar é diretor comercial e sócio-proprietário da Kawa, marca de cafés especiais da área rural de Ibiraci, no Sul de Minas Gerais. Ele conta que o grão verde está se destacando entre as cafeterias e essas empresas aproximam o público. “Nós, como produtores desse tipo de café, acompanhamos de perto o crescimento. No entanto, ainda é pouco. O consumidor da nossa região ainda não consegue enxergar o valor de um café especial. Em outros locais, o consumidor tende a valorizar e pagar o preço cobrado pelo nosso produto.”

Região da Alta Mogiana é conhecida como território do café (Foto: Divulgação/Cocapec)

Esse crescimento teve uma interrupção durante a pandemia, por conta do impacto financeiro na renda das famílias. “É compreensível a queda no consumo neste momento. As pessoas estão deixando de fazer grandes investimentos em produtos gourmet e passando a consumir produtos de menor qualidade, não apenas no ramo do café, mas em outros segmentos alimentícios também”, explica o diretor comercial da Cocapec, Saulo Faleiros.

De junho de 2019 a junho de 2020, o Brasil exportou um total de 40 milhões de sacas de café, considerando a soma das exportações de café verde, solúvel, torrado e moído, segundo balanço do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). O volume representa o segundo lugar entre os recordes históricos de exportações brasileiras de café.

Mulheres no café

Em Franca, cerca de 270 mulheres cafeicultoras se juntaram para formar o “Cerejas do Café”, um grupo feminino que propõe discussões sobre o setor, realiza palestras, treinamentos, feiras e dias de campo, com apoio de empresas parceiras.

Devido à pandemia, os encontros foram adiados. Segundo a diretora Laís Peixoto, as integrantes participariam de um congresso com aproximadamente 300 mulheres, mas este ano o evento não poderá acontecer. No entanto, com data ainda a definir, o grupo promoverá a segunda edição do Concurso de Qualidade dos Cafés, que tem por objetivo premiar os melhores cafés das produtoras do grupo.

Após a realização, será feito um leilão dos cinco primeiros lotes de cafés classificados. “Com isso, conseguimos uma valorização no valor vendido de cada saca”, diz Laís. O concurso poderá acontecer entre o final de outubro e o início de novembro.

Cerejas, em treinamento antes da Covid: novos encontros adiados (Foto: Divulgação/Cocapec)