Contra a fome

O Agenda Sette conheceu instituições que, na ausência do Estado, combatem a pobreza em Campinas-SP e Vitória da Conquista-BA

Andressa Barros

Ana Flávia Teixeira

Foto acima: Crianças em aula de percussão no ISBV: 300 são atendidas, de cinco bairros (Divulgação)

“Tenho um sentimento de gratidão. É bom saber que este trabalho continua e que, futuramente, outras pessoas podem dar seus depoimentos de como o instituto fez diferença e ainda faz na vida de muitas pessoas, de saber que é de grande valia para as crianças que passam por lá. Além de formar grandes cidadãos, a creche tem a finalidade de ajudar as famílias da comunidade”, afirma  Edileia Alves de Jesus, de 35 anos, ex-aluna.

O agradecimento emocionado de Edileia é direcionado ao Instituto Social Bela Vista (ISBV), uma instituição comunitária, beneficente e sem fins lucrativos que atua numa comunidade pobre de Vitória da Conquista-BA. A entidade, uma das que o Agenda Sette conheceu fora da região de Franca, surgiu como Creche Bela Vista, em fevereiro de 1985, a partir de lutas populares articuladas com as atividades comunitárias, associação de moradores e comunidades Eclesiais de Base, diante da necessidade de se refletir sobre a realidade local e encontrar alternativas para solucionar os problemas socioeconômicos.

Quando o ISBV não existia, muitas mulheres não conseguiam encontrar trabalho e as que colhiam café precisavam deixar os filhos pequenos em casa. Não eram raros os casos de morte causada pela fome. “Passamos de creche para institutos sociais por causa das demandas que atendemos, abrangendo os adolescentes, as famílias, a comunidade”, afirma a presidente, Conceição Barros.

Crianças recebem orientação sobre saúde bucal no ISBV (Foto: Divulgação)

A entidade atende cinco bairros e adjacências, acolhendo crianças na faixa etária entre dois e cinco anos, em turmas de creche e pré-escola. Além delas, recebe adolescentes em situação de vulnerabilidade social, oferecendo oficinas educativas, culturais, esportivas e recreativas, e ainda presta orientação com palestras, seminários, congressos e encontros de mulheres.

Pelo olhar da presidente

Segundo Conceição Barros, o instituto é um lugar onde as pessoas podem dialogar, duvidar, discutir, questionar e compartilhar sabedorias. Onde há espaço para transformações, contradições, colaboração e criatividade. “O ISBV vem buscando alternativas não só para as crianças de dois a cinco anos, mas também para os adolescentes e adultos, usando metodologias diferentes de outras instituições, acrescentando algo. Isso é um empenho na qualidade de educação, sendo muito importante para nós.”

Ela ainda afirma que o processo de aprendizagem desenvolvido ali é uma continuidade do que as crianças veem na escola regular. “Muitas têm dificuldades para tirar dúvidas das atividades em casa e os pais, na maioria das vezes, não sabem, por não terem estudos. Mas ainda oferecemos outras atividades, como oficinas de percussão, dança, capoeira, karatê, artes manuais, em que eles acabam se engajando e que ajudam a fugir da criminalidade”.

Para elas, as instituições infantis são fundamentais para o desenvolvimento. Além dos cuidados físicos, criam condições para o aprimoramento cognitivo, simbólico, social e emocional. Não podem ser consideradas substitutas das famílias, mas um ambiente diferente de socialização. Nelas, as crianças podem se construir como sujeitos, com visão de mundo e de si mesmas, ao conviverem, explorarem, conhecerem.

Instituto também oferece atividades culturais, como prática de capoeira (Foto: Divulgação)

Por causa da pandemia da Covid-19, o ISBV está fechado, seguindo o decreto 20.397, que estabelece medidas temporárias de prevenção à doença. Mas o trabalho não parou. O instituto recolheu doações de alimentos de parceiros e destinou à comunidade atendida e confeccionou máscaras com o auxílio de voluntários. “Tudo para amenizar as dificuldades que as pessoas estão passando”, conclui Conceição.

Parceria

O instituto, que atende 300 crianças, recebeu, em 2017, uma ampla reforma, pela qual ganhou salas de jogos, de leitura e um parque. Os trabalhos, que começaram em 2016, foram possíveis graças à Fundação Abrinq, por meio dos articuladores regionais Sandra Regina Barros e Nivaldo dos Santos, e da General Mill Foundation.

Os articuladores trabalham em contato com prefeitos para buscar a implementação de políticas públicas que aumentem as vagas nas creches, entre outras medidas para melhorar o atendimento a crianças e adolescentes. Na época da entrega, Sandra e Santos lembraram que a reforma no ISBV representa uma maneira de entregar aos jovens aquilo que foi negado pela realidade de desigualdade social em que estão inseridos.

O projeto “Creche para todas as crianças”, da Abrinq, visa levar educação integral e atenção à saúde de crianças de até três anos. Vários municípios do país já foram beneficiados.

Em Campinas

E para quem pensa que a fome é uma realidade apenas de estados mais afastados da região Sudeste, considerada a mais desenvolvida do país, o Agenda Sette conheceu uma instituição com intuitos semelhantes ao ISBV numa das maiores cidades do Estado de São Paulo.

Em Campinas, encontramos jovens que incluíram entre seus sonhos atos de amor ao próximo. O projeto, que se chama “Filhos”, foi fundado em 2015 pelo missionário Wiliam Pires, em Bragança Paulista. Com o tempo, foi transferido para a comunidade campineira Boca do Sapo.

Jovens voluntários inaugurando a base do “Filhos” (Foto: Divulgação)

Uma das responsáveis é Danielle Ferreira Theodoro, que cresceu no bairro. “O Projeto Filhos tem sido minha missão de vida e, quando encontramos nossa missão, o sentimento é de imensa gratidão”. Ela conta que enxerga muita injustiça social onde vive. Um cenário de muita pobreza, que todos os dias convive com isso e com crianças carentes que não precisam só de dinheiro, mas de atenção. A maior motivação é ajudar a transformar a vida delas. E das famílias.

“Um exemplo disso é a vida de uma senhora, Maria de Lourdes, que vivia em um barraco de madeira caindo as pedaços, sendo viúva e tendo apenas como renda o Bolsa Família.” Desde o início do programa, os voluntários olharam com carinho especial para esta mulher. Conseguiram, com apoio de outro projeto missionário, de Curitiba-PR, construir uma casa nova pra ela.

A educação social inclui várias atividades diárias, como balé, flauta, reforço escolar, informática, futebol, barbearia e taekwondo. Segundo Mariana Andreia, outra voluntária, que chegou a Campinas em 2017, foi difícil se adaptar à cidade e ao bairro no primeiros meses, mas valeu a pena. “Meu começo aqui foi bem complicado, mas hoje acredito que tenho um grande propósito nesse lugar e estou muito feliz. Minha maior motivação é trazer transformação.”

Com a pandemia, muitas ONGs não conseguiram manter suas atividades, por contarem com poucos recursos do governo e pouca ajuda da sociedade. Mas o “Filhos” se ajustou. “A pandemia foi uma surpresa para nós e atrapalhou todo o nosso cronograma anual. Suspendemos as atividades presenciais e começamos a ajudar a comunidade de acordo com a necessidade que surgiu e a principal foi a alimentação.”

A associação conseguiu parceria com um centro de saúde, escolas e outras ONGs locais para arrecadar alimentos, que compuseram mil cestas básicas entregues a 100 famílias da comunidade. Enquanto a volta às atividades não acontece, o projeto dá apoio escolar individual para colaborar com as mães, pois elas têm muita dificuldade para ajudar seus filhos.

Danielle tem muita esperança e projeta o futuro do projeto. “Queremos oferecer qualidade e transformação na comunidade, e sonhamos com nosso espaço próprio e padaria, para gerar trabalho e cursos profissionalizantes.”

Para saber mais sobre o “Filhos”, acesse o Instagram (clique aqui) ou o Facebook (clique aqui).

Voluntários do “Filhos” ensinam futebol, em foto feita antes da pandemia (Foto: Ana Flávia Teixeira)