Durante a tempestade

Fiéis da região de Franca adotam práticas alternativas para manter a fé viva durante a pandemia do novo coronavírus

Paloma Soares

Foto acima: Com igrejas vazias, como a Matriz de Pedregulho, adeptos passaram a promover missas e reuniões nas redes sociais (Paloma Soares)

Com a inquietação causada pela chegada da Covid-19, muitas reuniões de grupos e celebrações em templos religiosos foram suspensas a partir de março deste ano para evitar aglomerações. Em agosto, as atividades foram liberadas, desde que houvesse restrições no número de frequentadores e que fossem cumpridas as recomendações da Organização Mundial da Saúde: uso de máscaras, álcool em gel, manter distância segura para outras pessoas e impedir a presença daquelas que fazem parte de grupos de risco.

Para enfrentar esse novo cenário, fiéis buscaram a solução nas novas tecnologias. Usam redes sociais, aplicativos, entre outras ferramentas. “Minha vida está sendo ainda melhor que antes na questão da fé, pois estou rezando sempre e refletindo sobre como isso pode me ajudar, nesse momento difícil, a ver sempre o lado positivo”, afirma Estefani Aparecida dos Santos, católica e participante do grupo de jovens “Christus Lux”, fundado em 2019 e que tem cerca de 25 participantes, em Pedregulho-SP.

Em contrapartida, diz sentir muita falta das atividades em grupo. “Sem dúvidas, fazem falta os abraços, apertos de mão, poder se reunir com irmãos em missas e encontros religiosos, como retiro, pregações, shows. Está sendo muito difícil, porém sempre com todo entusiasmo e dedicação para levar aos cristãos um pouco do amor de Deus, da palavra de Jesus e tentar mudar um pouco a formar de agir.”

Para tentarem suprir a ausência, os membros do grupo não deixaram de se encontrar de forma virtual. “Temos usados recursos online e, mesmo de longe, têm sido momentos importantes para nós”.

Estefani busca dar dicas para quem também sente falta das atividades presenciais. Afirma que estão sendo transmitidas missas e reuniões em várias plataformas. “Estamos fazendo, também, momentos de orações por chamada de vídeo e nos encontrando uma vez por semana, com poucas pessoas na capela onde fazemos as celebrações, uso de máscaras, álcool em gel e com a distância que for necessária para evitar o risco.”

Grupo de Jovens em Pedregulho-SP: pandemia tem provocado reflexões (Foto: Estefani dos Santos)

Assembleia

A pastora Simone Imaculada Militão dos Santos, da Assembleia de Deus em Jeriquara-SP, classifica o momento com uma “tortura”. “Uma mistura de tristeza e angústia”, desabafa.

Sobre as alternativas para suprir os cultos presenciais, a igreja tem recorrido às redes sociais, que ela não vê como uma boa saída. “Em partes, pode até ser bom, pois mantemos o contato com os fiéis, mas, por outro lado, não é legal, porque alguns fiéis podem se acomodar com esses recursos e abandonar a igreja quando tudo se normalizar, achando que não é necessário ir. Então, não estou me apegando muito a esses recursos”.

Ela diz estar frequentando cultos presenciais dois dias na semana, apenas com sua família dentro do espaço.

Também evangélica, da igreja Assembleia de Deus Missão, Jaqueline Antoniete de Oliveira, de Pedregulho, vê o período de distanciamento como desesperador. “Às vezes, penso que pode ser um sinal do fim dos tempos, pelos estudos bíblicos que faço, já que muitas coisas se relacionam com o momento em que estamos vivendo. Por isso, não deixei de buscar. Recorro às redes sociais ouvindo hinos e pregações.”

Jaqueline conta que, antes da pandemia, a igreja que frequenta costumava receber cerca de 250 pessoas. A exemplo de Simone, ela não se adaptou aos recursos tecnológicos que permitem encontros remotos.  “Está difícil. Quando eram os cultos físicos, tínhamos uma rotina com dias e horários. Agora, como é por redes sociais, a qualquer momento você pode ver. E pode ser que nem veja mais. Então, está sendo bem complicada a adaptação a essas mudanças sem preparo.”

Segundo ela, a pandemia deixou alguns fiéis mais fortes e outros desanimados. E que, para estes, pode servir como um tempo de reflexões, que permita reorganizar a vida. “Minha casa, por exemplo, não está pronta por causa da pandemia. Não posso chamar as pessoas que gosto e nem viajar para a minha lua de mel. Tive que mudar muitas coisas por conta da Covid-19. O vírus não permitiu que eu conseguisse realizar meus desejos este ano, mas tenho certeza de que, em breve, irá acontecer tudo que planejei. Como meu casamento, que sonho realizar o mais rápido possível.”

Xamanismo

Outras crenças, como o xamanismo, também buscam adaptações. Segundo Júlia Nascimento da Silva, moradora em Pedregulho-SP, as reuniões são realizadas a distância, cada um na sua casa, mas não deixando de manter a conexão.

Quando os encontros são presenciais, em vez de duas vezes por semana, como era antes, acontecem uma vez por mês. Outrora, eram, em média, 30 participantes. Agora, as vivências têm o limite de dez pessoas, contando apenas com ela e sua família, cada um bem distante do outro, já que o espaço é aberto e bem grande. E tomando os cuidados necessários, garante Júlia.

“No xamanismo, usamos diversas medicinas de forma coletiva e, neste momento, estamos adotando novos procedimentos e, até mesmo, eliminando alguns para o cuidado e proteção de todos. Usamos mascaras, distanciamento de um metro e meio de cada um e fazemos o uso do álcool em lugares específicos do local. Além das reuniões presenciais, temos momentos a distância em horário combinado, cada um na sua casa e com cada pessoa tendo sua forma de conectar, como medicinas, meditações, músicas ou a mesmo em silêncio. Vemos que o trabalho físico parou, mas, no astral, estamos sempre juntos.”

Além de deixar claro que os cuidados são essenciais, alguns líderes religiosos têm ajudado comunidades carentes, com arrecadação de alimentos, equipamentos médicos e mensagens de conforto.

Casa de Júlia Nascimento: reuniões do xamanismo caíram para uma por mês (Foto: Acervo pessoal)

Novos membros

Rita Izabel dos Santos, moradora em Franca e Testemunha de Jeová, conta como era a vida religiosa antes da pandemia e como está sendo agora. “Antes, era bem corrida. Além das reuniões fora de casa, havia também dentro. Agora, com isolamento, a minha rotina continua a mesma. Tive apenas que fazer alguns ajustes, como participar das reuniões todas as terças e sábados por videoconferência”.

Ela não encontra mais os irmãos de fé, mas conversa com eles também por vídeo. Não deixou de fazer pregações e estudos. “Está sendo assim: faço ligações por vídeo para não deixar as atividades totalmente paradas, sem contar que faço minhas orações pessoais. É interessante dizer que, desde o início da pandemia, não tive nenhuma reunião cancelada e também não fiquei nem um dia sem fazer o meu trabalho de pregação.”

Rita afirma, ainda, que o isolamento não atrapalhou a chegada de novos membros. “Antes, eram 110 membros na congregação. Agora, com aplicativos que nos permitem comunicar, percebo que sempre há pessoas novas querendo aprender e conhecer mais”.

Nada substitui o presencial

Letícia Ferreira, Adventista do Sétimo Dia, em Pedregulho, lembra que, antes da pandemia, havia em torno de 40 frequentadores na igreja que frequenta. Entre eles, muitos de grupos de risco, que não deixaram de se comunicar com o surgimento do vírus. Mas, segundo ela, os encontros remotos não se comparam às práticas presenciais.

“Sinto falta de ir aos cultos pessoalmente, da presença e do abraço de todos. Apesar de continuar sentido a presença de Deus mesmo online, sinto falta do calor, da família. Além disso, a parte prática das minhas aulas da faculdade está toda acumulada. Era algo de que eu queria muito participar, mas, diante da situação, não é possível.”

Letícia conta o que mudou na rotina. “Estamos fazendo reuniões pelas redes sociais, toda quarta e domingo às 20h. Aos sábados, às 9h, é presencial, com o objetivo de agradecer, lembrar-se de Deus e do dia que ele nos mandou guardar, que é o sábado. Os adventistas guardam o sábado, a partir do pôr do sol da sexta, suspendendo atividades.

Ela tem uma mensagem de esperança para aqueles que estão ansiosos durante a pandemia. “Fiquem calmos que tudo vai passar. Se mantenham firmes em Deus, mantenham sua própria comunhão diária e logo estaremos juntos de novo. Procurem, cada vez mais, se aproximar da sua fé, para que essa situação não destrua nosso psicológico. Sejamos fortes.”

Jaqueline Antoniete: ela conta que não se adaptou aos encontros remotos (Foto: Acervo pessoal)