Cuidados na pandemia

Jornalistas da região contam como se previnem e as dificuldades para produzir informação durante a quarentena do novo coronavírus

Gabriela Sturaro

Foto acima: Pavini, do Farolete, acredita que linha entre informação e alarmismo é muito tênue em situações de pandemia (Divulgação)

O mundo todo está em alerta contra o novo coronavírus. Para enfrentá-lo, a recomendação da Organização Mundial da Saúde é que se faça isolamento social e que, quando não for possível, que se evitem aglomerações.

Diante disso, muitos se perguntam como os jornalistas enfrentam a pandemia e conciliam a própria prevenção com a missão de levar informação de qualidade ao público.

Na região de Franca, os profissionais ouvidos pela reportagem afirmam seguir as orientações das autoridades sanitárias quando há necessidade de fazer a cobertura na rua, como o uso de máscaras e álcool em gel, lavar as mãos frequentemente com água e sabão, manter distância de segurança para outras pessoas e higienizar equipamentos.

“Todos receberam máscaras e luvas. Os microfones são esterilizados antes das entrevistas e, em vez de um microfone, agora são dois, um com o repórter e outro com o entrevistado”, afirma João Carlos Borda, repórter a EPTV.

Outras entrevistas são feitas por telefone, videoconferências, WhatsApp e e-mails, como foi o caso dessa reportagem que você está lendo.

E quando as reportagens são sobre a própria doença? Cássio Freires, do Portal Hertz, afirma sempre consultar fontes oficiais, para evitar confusão na cabeça dos leitores e que eles caiam em fake news. “Quando passo informações e relação ao coronavírus, afirmo que são informações oficiais, como Vigilância Sanitária, Secretaria Estadual de Saúde e Ministério da Saúde. O jornalista não trabalha com fofocas ou boatos e, sim, fatos confirmados diretamente com os órgãos oficiais”.

Valdes Rodrigues, da Rádio Difusora, faz parte do grupo de maior risco, mas não parou de fazer seu programa. Realiza a higienização de todo o estúdio antes de começar a trabalhar, principalmente nos aparelhos que utiliza. No prédio da rádio, é impedida a entrada de pessoas não conhecidas.

Quando alguém, mesmo da equipe, acessa o estúdio, Rodrigues coloca, imediatamente, máscara. Recomenda aos ouvintes que não entrem em pânico e fortaleçam a alimentação, “porque a vida continua”. “Quem puder ficar em casa, melhor”, acrescenta.

Confira o relato de alguns jornalistas sobre como tem sido o trabalho neste período.

Valdes Rodrigues com o cantor Solimões antes da declaração da pandemia (Foto: Acervo pessoal)

 

João Carlos Borda, repórter da EPTV

“A empresa tomou várias medidas para garantir que os seus profissionais não corram riscos e estejam protegidos. Teve a orientação para que as equipes não se arrisquem entrando em locais que possam ser perigosos.

A abordagem com entrevistado ocorre em uma relação de distância física. Não existem mais aquelas aproximações de antes, e as medidas valem para as relações que são adotadas no nosso dia a dia, com outras pessoas, independente do trabalho que se realiza.

Nas redações, o efetivo foi reduzido. Tem poucas pessoas nas redações, e os funcionários não têm contato com quem trabalha na externa, para que não haja um risco de contaminação.

Tem pessoas nas ruas que sentem um certo medo, com receio de se aproximar do jornalista quando são perguntadas, que é o que se chama de “povo-fala”. Mas é natural isso. As pessoas estão inseguras em relação ao que possa acontecer. Ocorre uma precaução às vezes exagerada, o que é compreensível.

Existem duas reações das pessoas em relação às notícias que são divulgadas. Tem aquele grupo que compreende a extensão do problema, sabe que a doença é uma ameaça séria. Mas existem aquelas pessoas que insistem em desacreditar os números, em achar que tudo é uma grande conspiração e que nem mesmo as pessoas estão morrendo por causa do coronavírus.

Lamentavelmente, ainda tem pessoas que duvidam de uma realidade e que, por essa razão, botam a própria saúde a de outras pessoas em risco.

Como jornalista, tem-se o cuidado de ser cada vez mais equilibrado na transmissão de informações. Então, a conduta que já valia para os jornalistas, de ser imparcial, de apurar bem a notícia antes da divulgação, se torna necessária e cada vez mais aprimorada.

No ar, tem uma cobertura tranquila, sem qualquer situação de aflição e desespero como é nos bastidores.”

Equipe da EPTV fez link de bicicleta para mostrar se havia movimento em praça (Foto: Acervo pessoal)

 

Susana Berbert, repórter da EPTV

“Desde que os casos de coronavírus apareceram no estado de São Paulo, começaram a ter algumas mudanças nas equipes de externa da empresa. Já havia a higienização diária nos carros, álcool em gel disponível e máscaras. No entanto, quando os casos aumentaram, os cuidados aumentaram ainda mais. Teve uma divisão de equipes em dois turnos, que não se encontram, e vários profissionais foram orientados a trabalhar de home office, tanto os que são de grupos de risco quanto outros que não são.

Como estou grávida, meu trabalho na externa como repórter deu lugar ao trabalho de casa e, desde então, tenho feito reportagens por meio de plataformas como Skype. No início, foi um pouco desafiador, porque agora eu produzo, marco, entrevisto e filmo. Sigo minha carga horária e tenho contato direto com as fontes. As entrevistas são feitas online. O que vejo ser muito conveniente para os entrevistados. Eles gostam dessa opção e se sentem confortáveis.

O material é enviado via internet e, assim o conteúdo é colocado no ar. Normalmente, produzo uma matéria e um boletim por dia, mas isso varia de acordo com a necessidade do jornal. Tem sido um aprendizado, e é muito bom saber que produzimos um trabalho relevante, mesmo de casa. Jornalista tem que se adaptar e reinventar, sempre.

O trabalho de checagem das informações é dividido também com a equipe de produção. Então, sempre busco apoio dos colegas quando necessário. Tem um grupo com todos os profissionais em que passamos as informações e confirmamos os dados. Além disso, sempre busco contato com minhas fontes.

É necessário ter um equilíbrio para não causar pânico, mas também mostrar a seriedade do momento e a necessidade de medidas para poder contorná-lo. É preciso lembrar, também, que vivemos em um país desigual, em que realidades são muito diferentes. Por isso, não podemos generalizar e impor formas de viver e encarar esse período, mas sempre orientar de acordo com esses diferentes cenários.

É importante, por exemplo, pedir para que as pessoas fiquem em casa. No entanto, temos diversos trabalhadores que não têm esse privilégio e continuam em atividades que precisam da presença deles fora de casa. Temos que atingir essas pessoas também e mostrar como elas podem colaborar. Não disseminar informações alarmantes sem comprovação científica é muito importante. Conferir com mais de um entrevistado. Mostrar a fonte dos dados. 

A situação do coronavírus tem que ser enfrentada com calma e coragem. Repórter precisa ter coragem, sempre. Isso não significa não ter medo, mas saber enfrentá-lo de forma segura e entender que temos uma missão para além de um conforto pessoal. Desde o começo, trabalhei com muita tranquilidade, tomando todos os cuidados. Temos que saber que essa é a realidade. O que pudermos fazer para estarmos seguros, vamos fazer. Mas que nossa missão de informar em um momento como esse é ainda mais urgente e necessária. Hoje, mesmo grávida, gostaria muito de estar na rua nesse momento e poder enfrentar essa cobertura na linha de frente, mas, na impossibilidade, tenho dado meu melhor e colaborado como posso dentro de casa.

Acho que nesse momento, lidar com o coronavírus para todas as pessoas é fazer exatamente o que fazemos por profissão: ler e consumir notícias confiáveis, ouvir especialistas. A informação confiável faz com que tomemos decisões responsáveis e passemos bem por essa fase.”

 

Cássio Freires – Repórter do Portal  Hertz

“O trabalho é desenvolvido em casa e também na rua, por conta dos factuais. É feito o levantamento das ocorrências e são separadas as mais relevantes. As entrevistas feitas com policiais, funcionários do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) seguem com todo o cuidado devido, com uso de máscaras e distanciamento.

Quando o jornalista sai para a rua, ele está munido com máscara, álcool em gel e mantém a distância entre as pessoas. Em casa, ele coloca a roupa que usou na rua para lavar. Lava as mãos com água e sabão. A maioria do conteúdo é produzida em casa, para evitar aglomeração de pessoas. Assim, evita de contrair e transmitir o vírus.

Em relação ao trabalho, tem um grupo a que todos têm acesso para enviar as reportagens. O jornalista tem acesso ao Portal Hertz em casa para atualizar as informações no site.

Vale ressaltar que o jornalista consulta as fontes oficiais, com os fatos confirmados. Assim, adquire credibilidade.”

 

Gustavo Rodrigues – Repórter do Jornal Diário Verdade

“O Jornal Verdade, por conta do coronavírus, não está com versão impressa circulando. Mas a versão online continua. Os repórteres estão seguindo com os plantões e trabalhando de casa. A rotina de trabalho teve algumas alterações, como a limitação de lugares em que o jornalista pode estar presente e o cuidado na abordagem com o entrevistado, com cautela e distanciamento.

Com uma entrevista marcada, ocorreu uma situação diferente. O entrevistado estava com suspeita de coronavírus, apresentando os sintomas. Ele estava com medo de transmitir o vírus, caso estivesse mesmo com a Covid-19, para as pessoas próximas a ele. Por isso, a entrevista aconteceu por telefone.

Quando não havia casos confirmados de coronavírus em Franca, obteve-se uma reação negativa das pessoas em relação aos dados divulgados, de que isso amedrontava a população. Outras pessoas defendiam o trabalho do jornalista, de que precisa divulgar a informação clara e precisa, para que quem consome notícias pudesse ficar por dentro do que realmente acontece.

O jornalista tem que ter todo cuidado possível para passar a informação correta. Independente se é um caso de contaminação, se é uma morte ou simplesmente uma pessoa suspeita. Tem que buscar a melhor apuração. Não pode exagerar ao passar a notícia, porque é um assunto muito preocupante para todos. Com isso, valoriza ainda mais o trabalho do jornalista, nesse momento tão complicado pelo qual o país tem passado.”

 

Cristiano Pavini – Repórter e editor do Farolete

“Mantenho o site ‘Farolete’, de jornalismo alternativo, com atualização média quinzenal, com entrevistas feitas por telefone e em volume restrito. A matéria sobre o quantitativo de respiradores na região do DRS XIII (Departamento Regional de Saúde) teve um grande impacto, quantitativo e qualitativo, de acordo com os dados da ferramente CrowdTangle (que monitora o Facebook).

Houve uma conscientização maior, entre os leitores, ao verificarem que o número de equipamentos era muito pequeno se comparado à população, reforçando a necessidade de seguir as normas sanitárias de isolamento social.

Uma reportagem sem apelo sensacionalista, que busca contextualizar a situação e trazer dados inéditos e localizados, teve uma divulgação relativamente grande para um site independente. Foram mais de 8 mil acessos no site, até o dia 7 de abril, apenas nela. Mostra a força e necessidade de jornalismo independente.

O jornalista deve tomar os cuidados redobrados no tom da reportagem, pois a linha entre a informação e o alarmismo é muito tênue nessa pandemia. Procurar sempre trazer a contextualização dos dados, para que a sociedade possa interpretá-los da maneira correta. Se exagerar na dose, o jornalista pode causar histeria ou cair em descrédito.”

 

Guilherme Gonçalves, repórter da TV Record

“São vários os cuidados que estão sendo tomados para desenvolver o trabalho. Quem faz parte dos grupos de risco está afastado. A equipe de limpeza higieniza os ambientes dentro da emissora ao fim de cada turno. Tem álcool em gel em todos os setores. O trabalho acontece com as portas e janelas abertas.

A equipe segue com os trabalhos, sempre tomando os devidos cuidados. Com o uso de luvas e máscaras, e lavar as mãos com água e sabão. O cinegrafista limpa a câmera e os microfones com o álcool. O mesmo procedimento é feito com o carro, maçaneta, painel, volante… O microfone é higienizado antes e depois das entrevistas. As gravações seguem com mais frequência por telefone, Skype, videoconferência, e em alguns casos as pessoas gravam  e enviam os vídeos.

Muita gente já tinha receio ou vergonha em gravar uma entrevista antes da pandemia. Agora é compreensível que a negação aumente, pois a imprensa faz parte dos serviços essenciais e os profissionais seguem na rua trabalhando. A pessoa fica com receio de ficar perto dos jornalistas. O jornalista tenta deixar o entrevistado mais à vontade, apesar da situação, como manter a distância, higienizar o equipamento na frente do personagem e oferecer álcool em gel após a entrevista. E quando o contato é por vídeo, se não for comprometer a reportagem, enviar as perguntas antes ajuda a dar confiança ao entrevistado.

Ocorreram alguns casos em que a pessoa se recusou ser entrevistada. Como um munícipe que, por fazer parte dos grupos de risco, estava em casa. Teve outro que indicou outra pessoa da empresa para conceder entrevista. Nesses casos, aconteceram as gravações por telefone e um entrevistado enviou um vídeo.

O jornalista tem familiares que ficaram malucos com as medidas de prevenção. Lavam as mãos toda hora e praticamente viciaram no álcool em gel. Tem que se prevenir, só que é preciso ter calma também.

Em Franca, são poucos os casos de coronavírus confirmados em comparação as outras cidades. As opiniões de pessoas ficam divididas. Muitos querem acabar com a quarentena e não entendem que o isolamento é um dos maiores fatores que levam aos baixos números. Outros seguem em pânico, com medo de pegar o vírus.

O jornalista deve manter a calma ao transmitir as notícias. Por mais impactante que seja a informação, ela precisa ser dada de uma maneira que não cause pânico. O poder da comunicação é muito forte. Propagar o desespero pode gerar mais tragédias. Checar exaustivamente a informação para noticiar de maneira oficial e correta é indispensável.

Os jornalistas sabem lidar com casos graves, crimes horrendos, tragédias, acidentes, catástrofes, histórias tristes e também as muito alegres. Mas são humanos também. Existe, sim, uma preocupação, com os familiares, amigos e colegas. Eles comentam entre si, nos bastidores, sobre esse cenário, perspectivas boas e ruins. Só que o jornalismo, como várias outras profissões, é importante e essencial para a população. Além do vírus, é preciso combater as ‘fake news’. Informação correta salva vidas.”