Ameaça às bananas

Mal-do-panamá, que dizimou a variedade Gros Michel, representa um risco a outras: Colômbia tem plantas contaminadas

Pedro Klein

Foto acima: Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), 36% das exportações de banana têm como origem o Equador (Agencia de Regulación y Control Fito y Zoosanitario/Equador)

A banana é a fruta mais consumida no Brasil. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), 6,9 milhões de toneladas da fruta são produzidos por ano em todos os estados e no Distrito Federal – 95% para consumo interno. Isso dá 25 quilos de banana per capita.

Quase todas essas bananas são da mesma espécie. Prata, maçã e nanica são gêneros da variedade Cavendish, cujo cultivo se iniciou na primeira metade do século XIX. Todavia, a banana que se come hoje é muito diferente da que era consumida 60 anos atrás, justamente porque era uma espécie completamente diferente.

A banana Gros Michel foi desenvolvida na ilha da Martinica, um território francês no Caribe, pelo botânico Nicolas Baudin também no século XIX, a partir de algumas mudas trazidas da Ásia. A planta se espalhou pelo Caribe e era consumida pelos habitantes locais, mas praticamente desconhecida no resto do mundo. Foi só a partir da década de 1910 que a banana passou a dominar os hortifrútis.

Era uma fruta barata, crescia muito bem na América Central e era muito conveniente: fácil de armazenar, dispensava embalagem e era rápida de descascar. Perfeita para os almoços dos trabalhadores das fábricas dos Estados Unidos. Por quarenta anos, até a década de 1950, a banana Gros Michel reinou no mercado de frutas das Américas, mas foi eliminada do cultivo comercial e está praticamente extinta. A razão disso? O mal-do-panamá.

No Equador, maior produtor mundial, a banana rende 3 bilhões de dólares por ano, empregando cerca de 17% da população (Foto: Agencia de Regulación y Control Fito y Zoosanitario/Equador)

A doença, causada pelo fungo Fusarium oxysporum, é transmitida por água contaminada ou por processos de manejo inadequados. As práticas de comércio predatórias da United Fruit, a empresa que tinha o virtual monopólio da banana à época, aceleraram a contaminação do fungo por toda a América Central. Como efeito, na década de 1960, o prejuízo pelo fungo, segundo computado pelas empresas exportadoras, foi de 2,3 bilhões de dólares.

O mal-do-panamá não tem cura nem fungicida preventivo. Quando é detectado, não é rara a necessidade da destruição de toda a cultivar. A isso se soma o fato de as bananas se reproduzirem assexuadamente. São todas geneticamente idênticas e, portanto, possuem as mesmas fragilidades a patogênicos. É importante pontuar que a doença não afeta humanos, apenas as cultivares. As bananas que estão no mercado, de qualquer origem, são seguras para o consumo sob a óptica do mal-do-panamá.

Resistência?

As bananas Cavendish são resistentes a essa variedade específica do Fusarium oxysporum e puderam substituir a Gros Michel. Não sem adaptações, já que a Cavendish é mais sensível, possui maiores perdas no transporte e apodrece mais rápido. Apesar do choque no fornecimento e as necessidades de alterações na cadeia produtiva, a Cavendish obteve sucesso em seu cultivo e a demanda por banana cresceu durante toda a metade seguinte do século XX.

Na década de 1990, todavia, uma nova variedade do mal-do-panamá, a qual a Cavendish não tem resistência, foi detectada em Taiwan, de onde se espalhou para a África Oriental e o Oriente Médio, devastando plantações por onde passava.

A doença não atingiu ainda a África Ocidental e foi contida com sucesso na Austrália em 2015 e 2017. As autoridades nas Américas, a principal região produtora do mundo, estiveram em alerta máximo, monitorando o avanço do fungo. Em 2013, países da América Central publicaram um plano de contenção conjunto, ainda em operação.

Imagem mostra como mal-do-panamá age na bananeira: ainda não há, na América, plano para o combate (Foto: Léa Cunha/Divulgação Embrapa)

Mas nenhum dos cuidados foi o bastante para evitar a contaminação, uma vez que, em agosto de 2019, foram detectadas plantas doentes na Colômbia.

O país vizinho, o Equador, é o maior produtor global de bananas. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), 36% das exportações têm como origem o país sul-americano. A cultivar representa o segundo maior lançamento nas contas do país, com 2% do PIB e 36% do setor agrícola nacional, perdendo só para a indústria do petróleo.

A banana rende 3 bilhões de dólares por ano à economia equatoriana free-on-board (descontados os custos com fretes e seguros) e 17% da população do país têm vínculo com o cultivo da fruta, que ocupa quase 300 mil hectares em terras agriculturáveis.

A autoridade fitossanitária do país possui plano de contenção da doença desde 2011 e, a partir da detecção do caso na Colômbia, as ações foram endurecidas, com estações de desinfecção em aeroportos, portos e aduanas, capacitação de técnicos e produtores e cumprimento de protocolos para a importação de plantas in vitro. Ainda não há casos identificados no Equador, tampouco em nenhuma outra nação das Américas.

Extinção?

No Equador, a instituição responsável por isso é o Instituto Nacional de Investigaciones Agropecuarias (INIAP), que estuda desenvolvimento e uso consciente de defensivos agrícolas, bem como também trabalha com o melhoramento genético da planta.

Para Fernando García-Bastidas, biólogo colombiano, em entrevista à redação National Geographic, os esforços de contenção estão sendo eficientes, mas, sem um fungicida, a erradicação é impossível. A eliminação completa da banana Cavendish é, hoje, um risco concreto e provável e, ao contrário do que ocorreu com a Gros Michel, não há nenhuma outra espécie disponível hoje que a substitua.

No Brasil, projetos de melhoramento genético e desenvolvimento de fungicidas são conduzidos pela Embrapa e por várias universidades públicas, estaduais e federais, ao longo de toda a década de 2010. Tanto a Embrapa como o Ministério da Agricultura (MAPA) foram procurados para dar esclarecimentos, mas a reportagem não recebeu respostas.

O Brasil possui um plano de contingência da doença, em vigor desde 2018, mas, desde a posse do novo ministério, em janeiro, nem com a detecção do caso colombiano, novas ações foram implantadas.

Na América Central, a Organização Internacional Regional de Saúde Agropecuária (OIRSA) articula as ações de combate ao fungo. No resto do continente, ainda não há um plano concreto de cooperação internacional. O que existe, atualmente, é a Declaração Regional de Autoridades Agropecuárias Sobre o Foc R4T, que pede aos países signatários um esforço mais concentrado na proteção dos plantéis.

Enquanto isso, o consumo e a demanda por banana continuam fortes. As vendas ao exterior das bananas equatorianas estão previstas para aumentar em 3% em valores free-on-board neste ano, em comparação com dados de 2018.

O cenário mundial é de preocupação. E o tempo de agir está diminuindo.

A partir do caso na Colômbia, Equador endureceu as ações, com estações de desinfecção em aeroportos, portos e aduanas, capacitação de técnicos e produtores e protocolos para garantir importação de plantas sadias (Foto: Agencia de Regulación y Control Fito y Zoosanitario/Equador)