Saúde em risco

Em sondagem do Coren-SP com 4.107 profissionais de Enfermagem, 76,7% declararam ter sofrido algum tipo de violência

Marília Neves

Foto acima: Posto de atendimento do Hospital Regional de Franca-SP: número de profissionais de Enfermagem agredidos no Estado chega a ser alarmante (Marília Neves)

“Já presenciei agressões físicas e vivi agressões verbais”, afirma Maria (nome fictício), enfermeira em Franca-SP há seis anos. “As duas físicas, uma era um paciente psiquiátrico em surto e a outra de um acompanhante na espera insatisfeito com a demora. As agressões verbais são provenientes de profissionais médicos. Alguns têm a cultura de humilhar e gritar com técnicos e enfermeiros. E, em nenhuma agressão, houve responsabilizados ou as instituições tomaram medidas.”

A realidade de Maria não é exclusividade dela. Segundo sondagem do Coren-SP em 2018, mais da metade dos profissionais de Enfermagem sofreu agressões, físicas e emocionais, de pacientes: 66,5%. E um número significativo – 35,2% – alega ter sido agredido também pela própria equipe médica. No total, o número de profissionais que relataram algum tipo de violência, por pacientes e/ou outros profissionais, bate na casa dos 76,7%

Os motivos são variados. Entre eles, demora na fila para atendimento, consultas ou exames, insatisfação com a assistência prestada, entre outros. Alguns, entretanto, não souberam informar o motivo pelo qual foram agredidos.

Mais grave ainda é o fato de que 77,1% dos profissionais agredidos admitiram não ter feito qualquer tipo de denúncia. Quando perguntados por qual motivo, 55,8% afirmaram que foi falta de apoio da instituição e 55%, sensação de impunidade.

Pensando nas agressões dos próprios colegas de trabalho, Maria afirma: “Acredito que as agressões que vêm de médicos para com enfermeiros é uma cultura. E não são denunciados pois eles usam da demissão para intimidar os funcionários, principalmente quando estamos falando de hospitais particulares”

CRM afirma que promoveu campanha de conscientização recentemente (Foto: Banco de imagens)

Sobre esse tipo de agressão, o Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo, por meio de sua assessoria de imprensa, informou: “O Coren-SP atua sobre o exercício profissional da enfermagem. Então, eventuais aberturas de processos éticos contra os médicos são devidamente encaminhadas aos Conselhos Regionais de Medicina (CRM). Nos casos em que as denúncias são recebidas pelo Coren-SP, há o encaminhamento ao CRM.”

O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) respondeu também por meio de nota. “O Cremesp informa que, recentemente, promoveu uma campanha de conscientização, em parceria com o Conselho Regional de Enfermagem do Estado de São Paulo (Coren-SP), focada no enfrentamento à de violência no âmbito da assistência à saúde. O Cremesp reforça que este é um problema compartilhado por médicos e outros profissionais da área. Por isso, deve ser abordado com seriedade e diligência por todas as instituições envolvidas. Além disso, a deterioração das condições de trabalho e de infraestrutura contribui para o problema, devendo as autoridades competentes serem acionadas para reverter tal situação.”

A saúde dos enfermeiros
Mais da metade dos profissionais agredidos afirma sofrer de adoecimento mental decorrente do trabalho, e outros que já pensaram até em se ferir devido a isso. Ansiedade, depressão, Burnout, estresse e síndrome do pânico são os sofrimentos psíquicos mais recorrentes. Já os principais fatores para o adoecimento são sobrecarga, condições e jornada de trabalho, além do clima organizacional e a falta de local para descanso.

A psicóloga Luciene Carrijo, de Franca, explica que, às vezes, o próprio profissional percebe que está precisando de ajuda, por causa do humor, irritabilidade e um cansaço que diminui o desempenho profissional”. E deixa clara a importância da preocupação dos superior e parentes, que podem sugerir a busca de ajuda.

Dos respondentes da pesquisa, 60% dos que afirmaram sofrer de adoecimento mental procuraram algum tipo de acompanhamento, geralmente tratamento especializado ou apoio de familiares e amigos. Os outros 40% não o fizeram por medo, vergonha ou não saber o que fazer, o que denota falta de informação e diálogo sobre o tema.

O Coren-SP, quando questionado sobre isso, se limitou a enviar dados sobre os problemas relatados e destacar os canais disponíveis para denúncias: https://portal.coren-sp.gov.br/violencia/ ou https://portal.coren-sp.gov.br/etica/desagravo-publico/.

Mais de 50% dos enfermeiros agredidos dizem que não fazem denúncias porque não recebem apoio das instituições onde trabalham ou por causa da sensação de impunidade (Foto: Banco de imagens)