Profissionais do sexo

Duas mulheres de Franca, uma trans e outra hétero, relatam o dia a dia e as humilhações enfrentadas no trabalho

Marcela Chiarelo, Marcos Gonçalves e Pedro Garcia

Foto acima: A prostituição é reconhecida como profissão no Brasil desde 2002 (Foto: Banco de imagens)

Juliana Meirelles, de 23 anos, é profissional do sexo e transgênero. Já morou no sul do Brasil e ficou um tempo na Itália, por causa do trabalho. Nascida em São Joaquim da Barra-SP, está, atualmente, em Franca-SP. Diz que muitas mulheres trans da cidade estão na profissão e que a condição de gênero torna as coisas mais difíceis. São poucas as que têm carteira assinada.

Já Gabriela, que é hétero e prefere não aparecer, trabalhou como corretora de imóveis. Sofria assédio do chefe. Pediu demissão e, no dia seguinte, viu um anúncio numa rede social sobre uma vaga em clínica de massagem. Chegando ao local e conversando com a dona, percebeu que o emprego não era bem aquele. “No momento, estou pelo dinheiro mesmo, porque é um ciclo. Muito difícil a pessoa entrar e conseguir sair de uma forma tão fácil.”

Gabriela explica que, “quando você entra, tem aquele baque: ‘Nossa, é muito dinheiro, estou ganhando muito dinheiro’. E depois acaba se tornando algo vicioso, você fica viciado no dinheiro. E vem aquele pensamento: ‘Se eu sair daqui e trabalhar registrada, vou ganhar em um mês inteiro o que tiro em uma semana, dois dias’”.

Para ela, na comparação com as trans, as mulheres cis sofrem menos preconceito por parte dos homens. “Por mais que sejam mulheres, as trans têm um pênis e não uma vagina, eles pensam”.

Segundo Juliana, família não aceitou no início, mas relação melhorou (Foto: Marcos Gonçalves)

Não há estimativas confiáveis do número de prostitutas em Franca, mas a reportagem confirmou que existem pelo menos dois bordéis clandestinos, um no Distrito Industrial e outro no City Petrópolis, além de ruas de meretrício na Estação e no centro.

Também não há políticas públicas voltadas a essa população do município, mas o governo do estado faz campanhas eventuais para vacinação e acolhimento das profissionais, bem como de atenção especial às que são mães ou transgêneros.

Relação com a família

Gabriela garante que a relação com a família é boa, mas porque ninguém sabe sobre a profissão. Foram alguns fatores na vida doméstica que a fizeram chegar onde está hoje. No entanto, acredita que desconfiam. O irmão viu fotos dela em anúncios. Questionada, desviou a conversa, falando que não trabalhava mais com prostituição e que era recepcionista. Que ganhava mil reais por mês, apesar de levar dinheiro para casa todo dia.

No caso de Juliana, a família não aceitou no início. Teve apenas o apoio da mãe e, aos poucos, foi melhorando com os outros. “Eu já sabia da minha opção sexual desde pequena, mas, para preservar minha família, segurei até certo ponto, até completar 18 anos. Quando completei, me assumi.”

Clientes

Segundo Juliana, não tem o melhor e o pior cliente. “A gente sai com tanta gente que acaba sendo igual. Tem uns que marcam e uns em que a gente é obrigada.”

Para Gabriela, “o pior foi um que disse que queria só massagem”. Ela estava de saia e, de repente, foi empurrada e estuprada. “Uma coisa muito marcante para mim, difícil de digerir até hoje”.

Já o melhor foi um que parou para ouvir seu desabafo: “No geral, diria que todo dia é uma humilhação diferente. Por mais que pegue clientes legais, é como estivesse me humilhando, me sujeitando a muita coisa, que eu não passaria se não estivesse nessa vida. Sinto que é uma repulsa diária, por pessoas de várias idades e por várias limitações que tenho que enfrentar.”

História

A prostituição é a mais antiga das profissões, segundo a sabedoria popular. Desde que existe propriedade privada, há pessoas que trocam o sexo pelo sustento. No Brasil, é uma ocupação profissional reconhecida pelo Ministério do Trabalho desde 2002. Não possui restrições legais enquanto praticada por adultos, mas é proibido agenciar ou contratar profissionais. Chama-se lenocínio, com pena de um a três anos de prisão, multa e qualificadores de agravante.

No nosso país, a prostituição está presente desde os tempos da colônia, quando era exercida por índias e escravas de ganho. Depois da independência, era ocupação, particularmente, de imigrantes da Europa.

Historicamente, o sexo é a profissão das camadas excluídas da sociedade. Existiam, em 2010, um milhão e meio de profissionais do sexo no Brasil, a maioria parda ou negra, sendo 78% mulheres e 70% sem outra qualificação. No mundo, são 40 milhões de profissionais, o equivalente a toda a população do estado de São Paulo.

O Brasil também é o principal destino de turismo sexual nas Américas e um grande fornecedor de mulheres para o tráfico internacional de pessoas. A revisão da situação jurídica da atividade aqui no país é controversa. Na avaliação de militantes, é impossível, atualmente, diferenciar o exercício da atividade da exploração sexual, que ocorre em parte dos milhares de locais onde sexo é comercializado no país.

O ex-deputado Jean Wyllys (PSOL) resgatou, em 2012, um projeto de lei que regulamenta a prostituição. Batizado de Lei Gabriela Leite, em homenagem à ativista que morreu em 2013, ele propõe alterações no Código Penal. O projeto distingue a prostituição da exploração sexual, que é ilegal, e também permite casas de prostituição.

O deputado afirma que lida, de forma pragmática, com o fato de que há prostituição, apesar de ressalvas que possam existir à prática. Manter a profissão sem um marco legal não ajuda as mulheres que trabalham na área. “Se há um serviço, há demanda. A sociedade que estigmatiza e marginaliza a prostituta é a mesma sociedade que recorre a ela”, afirmou em entrevista concedida em março de 2016, à Agência Brasil.

A postura recebe críticas tanto de conservadores, que desejam ver a prostituição como crime, quanto de movimentos feministas, que alegam que não há diferença entre a atividade e a exploração sexual, e a lei normaliza a prática. Segundo o sociólogo dinamarquês Mogens Holm Sørensen, países que liberalizam ou legalizam a prostituição são destinos favoráveis a fluxos de tráfico de pessoas.

Pedro Garcia conversa com Juliana, antes da declaração de pandemia (Foto: Marcos Gonçalves)