“Vi uma oportunidade”

Desde os oito anos vivendo com doença degenerativa que afeta a visão, Guilherme Batista se tornou campeão parapan-americano 

Higor Goulart

Foto acima: Guilherme tem no currículo oito medalhas dos Jogos Parapan-americanos (Dirceu Garcia)

Com apenas oito anos, Guilherme Batista Silva teria a vida transformada após a descoberta de uma doença degenerativa, a Stargardt, que afeta a visão. Encontraria na natação um abrigo.

Com 24 anos, o francano representa o Praia Clube, de Uberlândia, e tem diversas medalhas no currículo. Entre elas, oito nos Jogos Parapan-americanos. A primeira participação foi em 2015, em Toronto, no Canadá, de onde trouxe quatro (uma de ouro e três de bronze). Neste ano, em Lima, no Peru, faturou outras quatro (uma de prata e três de bronze).

Para atingir um alto padrão no esporte, contou com a ajuda de diversas pessoas, principalmente dos técnicos Inaldo Wirz e Paulo Nazar. “No meu primeiro ano competindo, já fui para os Jogos Abertos e ganhei medalha em âmbito estadual. Foi por acaso, mas, como gostei, vi uma oportunidade. De lá para cá, fui só profissionalizando, pensando em investir”. Confira outros trechos da entrevista.

Durante a infância, como você encarou a deficiência?

A infância foi a pior época. Eu mesmo não entendia minha deficiência, não sabia porque estava perdendo, nem quanto perderia. Sempre fui muito tímido. Então, na escola, quando via a oportunidade, eu até me manipulava. Como sentava só na frente, a lousa era dividida em quatro e eu enxergava só a primeira parte. Então, se fosse um texto ou uma matéria mais extensa, copiava a primeira parte e as outras eu inventava, escrevia coisas da minha cabeça. Ficava com medo de falar, tinha receio das outras crianças. Preferia criar alguma coisa e me passar como uma criança normal. Até que um dia pedi ajuda e a professora disse que detestava quem era dependente. Nesse dia, chorei muito. Falei para minha mãe que ela tinha que ir na escola, conversar. Depois que minha mãe explicou o que era essa deficiência, que eu não sabia explicar, a professora falou com os outros professores. Ela era muito respeitada, então facilitou muito. Os outros alunos até estranhavam um pouco. As crianças têm uma malícia, mas, ao mesmo tempo, quando você explica, elas aceitam com muito mais facilidade.

A natação foi como um divisor de águas para você?

Cada metro na água eram quilômetros de aprendizado, de mudanças, porque ali comecei a me ver vencedor. Antes, me sentia sempre menor que qualquer outro da minha idade, sentia mais dificuldade, que meu futuro seria mais difícil. O esporte mostrou que não iria ser assim, que eu teria minha chance. Então, quando competia e voltava com o resultado, com aquilo eu era reconhecido na escola… Nossa, eu ficava amarrado! Por conviver com o esporte, conheci muitos lugares e muitas pessoas. A timidez foi ficando cada vez menor. Consegui lidar com isso, passei a conversar melhor, me expor… Tanto que, lá em Uberlândia, dou palestras. Aqui em Franca também. Já fiz programa de rádio por uma hora, conversando sobre natação. Então, o esporte me mudou muito, nesse aspecto de dependência, de mudança na minha característica.

Em Uberlândia, ele encontrou no Praia Clube a estrutura de que precisava (Foto: Banco de imagens)

Como foi ter que ir para Uberlândia pelo esporte? Como ficaram seus pais?

Fiquei muito feliz com o convite, porque, em 2012, terminei o ensino médio. Aqui em Franca, ainda é muito difícil para mim. A piscina é curta, é de 25 metros, e a gente compete em uma piscina longa, de 50. Então, muda muito a estratégia e o tipo de treinamento. Vi e sentia a necessidade de mais estrutura. Infelizmente, aqui eu não consegui. No começo de 2013, entrei na seleção de jovens. Quem coordenava era meu técnico de hoje, o Alexandre Silva, que é lá do Praia [Clube, poliesportivo em Uberlândia-MG]. Ele viu esse potencial em mim, muito cru ainda, mas ele viu que eu tinha técnica apurada, que tinha muito a melhorar. Tive várias convocações durante o ano e ele viu uma evolução. Aí, no fim de 2013, ele me mostrou o projeto de lá. Cheguei e mostrei para os meus pais, que ficaram com muito receio. Mostrei para o meu técnico, ele falou que era minha oportunidade e que realmente eu não iria ter aqui [em Franca]. Disse que sentia muito por me perder. Então, por um lado, fiquei muito feliz de alguém reconhecer meu trabalho, meu potencial, que foi da parte do Alexandre em me convidar para o Praia Clube. Por outro, fiquei muito triste de não ter isso aqui em Franca para mim, porque é o básico que eu precisava, uma piscina longa, um preparador físico e um treinador.

Sobre essa falta de infraestrutura na natação francana, existe pretensão de um dia brigar pela natação em Franca ou desenvolver algum projeto?

Nessas últimas viagens em que fui, conversei com atletas que tiveram que sair das suas cidades e procurar centros de treinamento. Entendo o posicionamento da cidade, que é de padrão médio para pequeno, para oferecer a infraestrutura que a natação exige. Por um lado, o município sempre me reconheceu, mas, como disse, não tem como só dar tapinhas nas costas e falar “meus parabéns”. O reconhecimento é muito importante, sem dúvidas, mas não foi fácil ter que sair daqui para procurar. Seria muito melhor se tivesse aqui. Então, tenho vontade de ter um incentivo daqui, de poder falar mais de Franca, mostrar o quanto o município me incentivou no começo. Fui o único do projeto que chegou nesse nível. Não vejo outros que conseguiram chegar a esse patamar. É isso que me preocupa. O esporte muda vidas e eu fico triste [por outros atletas não terem a mesma oportunidade]. Agradeço ao Praia, que me abriu as portas, mas tenho, sim, vontade de conseguir mais. Não só para mim, mas para deixar um legado, para a criançada ter a mesma oportunidade que tive. Dadas todas as dificuldades que um atleta enfrenta e todas que uma pessoa com deficiência enfrenta, ter que ir para longe da sua família é mais uma. O ideal é que não fosse assim, mas, quem sabe no futuro, eu converse com alguém que tenha uma boa ideia e pense num projeto.

Em 2015, foram seus primeiros Jogos Parapan, onde você conquistou uma medalha de ouro e três de bronze, recorde continental no nado peito e recorde brasileiro no medley. O quanto isso foi importante na sua carreira?

A gente não espera conquistar relativamente rápido. Já nadava aqui em Franca desde 2008, mas eu profissionalizei lá [Uberlândia]… O método de treinamento, essas coisas de alto rendimento, como a quantidade de treinos… Dentro de um ano e meio, já era recordista das Américas e campeão Parapan-americano. Fiquei surpreso. Mas só mudei para lá porque acreditava no meu potencial. Esperava que isso aconteceria, só não sabia quando seria. Foi gratificante. Isso me calçou, me deu fôlego, para falar “pronto, cheguei até aqui, agora vamos para o Rio”, porque sabia que seria um desafio muito maior, já que as Américas, querendo ou não, na natação, estão muito atrás de países que já tem isso como cultural, como a Grã-Bretanha, a Itália, Austrália, Ucrânia, Holanda. Lá, quem tem deficiência já conhece o esporte mais cedo. Tanto que fui conhecer o esporte com 14 anos. Lá, com essa idade, eles já estavam competindo há cinco ou seis, mesmo tendo deficiência. Aqui, isso acontece no convencional, igual no clube que treino. Tem desde mirim, que são as crianças com cinco, seis, até o pessoal do sênior máster. Mas no paralímpico é muito difícil, já que, na idade que deveria começar a nadar, estava pensando em como estudaria, não era tão simples assim. Mas foi dando muito certo, com a comissão técnica que temos lá, que não é só ele [Alexandre]. Tenho mais três técnicos na piscina. É fantástico. Olhando para trás, sinto muito de ter saído daqui, por falta de incentivo, mas acho que fiz a escolha certa. Tenho um pé aqui. Mesmo lá em Lima, ou em Londres, estava sempre conversando com o Inaldo, com o Paulo, que é meu técnico, que me treinou na época da Unifran, e estou sempre em contato com eles.

Nas Paralímpiadas no Rio 2016, dos representantes do Praia Clube, você foi o que obteve o melhor resultado, sendo o quinto colocado no 100 nado peito. Como foi a experiência de estar no seu país, nos Jogos Paralímpicos?

Foi um pouco indescritível essa competição, porque minha família foi me ver, meu pai foi uma das primeiras vezes que me viu nadar numa competição tão grande e de arquibancada. Foi uma competição muito forte, conquistei o quinto lugar. E do Praia fui o único a fazer o índice pelo primeiro critério de convocação, que são vários. Os outros atletas que foram, não foram pelo critério principal, que é uma marca. Fui o único atleta a fazer o índice, que foi o sexto tempo do mundo e lá a quinta marca. Foi muito bom, queria ter nadado melhor. Pelo que tinha nadado em Berlim no começo do ano, tinha uma expectativa maior. Mas não tenho coragem de desmerecer o que fiz, porque sei que fiz o meu melhor. Isso foi o que me acalmou um pouco. Fiquei triste por não ter melhorado a marca, porque atleta é muito cruel. Você tem sempre que dar o seu melhor, tem que dar seu 100% para fazer o seu melhor. Mas mesmo com todas as dificuldades particulares do esporte, da natação, voltei de lá com sensação de dever cumprido. Foi muito bom.

O nadador espera, a depender do que viu nas últimas competições, um nível forte nas Paralimpíadas de 2020, em Tóquio (Foto: Jonne Roriz/MPIX/CPB)

Agora em Lima, nesse último Parapan, como você classifica seu desempenho, mesmo não conquistando novamente o ouro?

O esporte paralímpico, pela notoriedade que está tomando, está ficando muito mais forte. Senti isso em Lima, onde já tínhamos um estudo maior de como ia ser, já que é muito mais fácil estudar as Américas. Senti muito isso no mundial. Para se ter uma ideia, fiquei dois segundos abaixo da média que fiz no Rio, em que fiquei na quinta colocação. Em Londres, fiquei em sétimo. No Canadá, nadei com a marca de 1:14 e agora, em Lima, como estava fazendo a preparação para o mundial, não estava na minha melhor forma, mas, mesmo assim, nadei dois segundos abaixo do que havia nadado no outro pan e peguei prata. Mesmo quebrando o recorde da competição, deixei de ser o campeão. Mas já tínhamos notado que seria muito mais forte e isso é bom. Ao mesmo tempo em que fica mais forte, você está melhorando suas marcas, que vão só agregar para o esporte. Fui como favorito da prova, como um dos atletas com experiência nesse tipo de competição, mas consegui conquistar pelo menos quatro medalhas, igual na outra edição, mesmo estando muito mais forte. Isso me deixou muito feliz e claro que fiz o meu melhor para defender sempre nossa bandeira.

2020 é ano de Jogos Paralímpicos. Qual sua expectativa para o Japão?

A expectativa é de medo. Como disse, lá em Londres estava muito forte. O índice ainda não saiu, mas estou fazendo o meu melhor e meu clube está oferecendo a estrutura que preciso para conquistar a vaga e uma medalha lá. Tudo vai acontecer naturalmente. Porque o esporte tem isso, antes de acontecer não tem vencedor. O vencedor se consagra depois. No mundial, vi que, pelo tempo, os caras seriam medalhistas, mas eles não conseguiram se classificar na eliminatória de manhã. Ou seja, os favoritos, em muitas provas, não conseguiram ficar entre os oito. Tem essas particularidades, mas agora é descansar e depois fazer todo planejamento, estudar meus oponentes, para ter uma noção de como vai ser o índice e, aí sim, trabalhar forte para as seletivas do ano que vem.

Você tem o Michael Phelps como ídolo; no paralímpico, o Daniel Dias, brasileiro e um dos maiores. Você se vê como exemplo? O que você pode passar para as crianças com deficiência, para elas chegarem no seu nível?

Isso é uma das coisas mais bonitas que vejo no paralímpico, porque isso difere do resultado. Muitas das pessoas que assistem não entendem muito de performance, não sabem nem se estou nadando pelo melhor ou se ganhei medalha de ouro mas piorei minha marca. Eles estão assistindo pelo espetáculo. O Dani é um amigo meu. Por conta das convocações, tive a oportunidade de viajar muito com ele, um paizão da seleção, que aconselha muito. Ele agregou muito para o nosso esporte e é um símbolo de vencedor, independente da posição em que fica. Mas espero deixar esse legado de superação, independente de resultado. Para as crianças que têm vontade de conhecer, não só natação, mas qualquer modalidade paralímpica, eu super indico. Se mudar metade do que mudou a minha vida, já vai ser muito positivo.