Calçados sustentáveis

Visando à preservação do planeta e agregar qualidade, algumas fábricas aderem ao uso de produtos veganos

Karollyna Basques

Foto acima: Pantala foi inspirada em libélula presente na água limpa (Divulgação)

Sustentabilidade é definida, por muitos especialistas, como a capacidade humana de interagir com a natureza sem comprometer as futuras gerações. O conceito tem ganhado adeptos de formas muito criativas, seja na criação e customização de roupas, confecção de bolsas, estofamento para automóveis e, principalmente, calçados, que usam produtos semelhantes ao couro, mas sem origem animal.

A marca Pantala surgiu com esse intuito. Suas criadoras, Angélica Prado e Monyque Artese, mãe e filha, buscam propagar um estilo de vida a partir do veganismo. Alguns meses antes do processo de criação dos modelos, elas se depararam com um acidente de trânsito que envolvia bovinos transportados por um caminhão. Toda a retirada dos animais foi acompanhada pelas empresárias. Elas ficaram angustiadas e contam que seria inconcebível fabricar calçados em couro.

A produção dos materiais da marca é feita em oficinas localizadas em Campinas e Itatiba, ambas no interior de São Paulo. O processo é totalmente artesanal, desde o corte até a montagem. A única máquina utilizada é uma prensa, para que os calçados tenham durabilidade e não descolem.

“Quando estava na faculdade, decidi fazer um curso para aprender a fabricar alpargatas para uso próprio. Ensinei uma amiga e, com o tempo, começamos a receber encomendas e também vender por meio de grupos do Facebook. Então, decidi ir atrás de mais informações para formalizar o negócio”, afirma Monyque. A mãe, que sempre trabalhou na área comercial, aderiu à ideia e uma complementa o trabalho da outra.

A Pantala carrega a visão de “um mundo melhor”, pela qual segue a proposta de que o ser humano seja mais consciente de suas ações. “Tudo o que fazemos gera impacto. Com a Pantala, praticamos a não exploração animal e humana, nos preocupando com a qualidade de vida dos colaboradores e também em gerar o menor impacto possível para a natureza”, explica Monyque.

Os produtos possuem cabedal em algodão reciclado e tecido mix de algodão. Antes, as empresárias fizeram uso de materiais sintéticos, mas observaram que não houve boa aceitação pelo público. Já no solado, são usados derivados químicos, pois, no Brasil, é difícil encontrar produtos sustentáveis para esse insumo.

O nome da empresa foi escolhido em referência à libélula Pantala flavescens, que realiza a maior rota migratória entre todos os insetos, percorrendo de 14 a 18 mil quilômetros em cada travessia. “Ela é um inseto urbano e também um bio-indicador. Se tem libélula no rio, a água é limpa”, pontua Monyque.

A marca faz sua divulgação e vendas por meio de um site e das redes sociais Facebook e Instagram. Também participa de feiras e eventos regionais, sendo possível encontrar seus produtos em 14 pontos de revenda, nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás. As entregas são feitas para todo o Brasil e também já foram para países como Austrália, Portugal e Argentina.

A criação não tem necessariamente uma preocupação com tendências. É livre, com peças atemporais e que podem ser usadas por qualquer faixa etária. Além dos sapatos, são produzidas bolsas e malas. As tiragens são limitadas. Um modelo encontrado no site será, provavelmente, trabalhado por pouco tempo e, esgotado, dificilmente aparecerá em nova coleção.

E qual o perfil de público? “Pessoas que se preocupam, além do conforto, com a procedência do que consomem”, conclui Monyque. Quando aparecem dificuldades no projeto, elas sempre se lembram de uma frase: “Não há plano B. Então, vamos resolver e seguir trabalhando”.

Vegano Shoes utiliza materiais reciclados, como tecidos, garrafas pet, lonas e câmaras de ar (Foto: Divulgação)

Reciclados

Na mesma linha de pensamento, em julho de 2013 nasceu a Vegano Shoes, em Franca-SP, um dos maiores polos calçadistas do país. A empresa prioriza a utilização de matérias-primas recicladas, como tecidos, garrafas pet, lonas de caminhão e câmaras de ar recolhidas em borracharias.

Rosemir Folhas, químico e diretor da marca, fundou a empresa acumulando mais de dez anos de experiência no ramo calçadista. O interesse pela preservação do meio ambiente, unido ao desejo de propagar o veganismo, fez com que iniciasse pesquisas para fabricar modelos alternativos, a partir de materiais que não fossem de origem animal. “Cada dia mais, o consumidor está preocupado com o que compra. O veganismo é transparente e mostra os verdadeiros impactos do produto final”.

O começo foi com a produção de modelos simples, como sapatilhas e sapatos sociais. Atualmente, pela demanda, em crescimento, é possível encontrar um leque de opções, que vão desde botas para trilhas até sapatos de salto.

Trabalhando com um canal de vendas no e-commerce e, mesmo com um elevado preço das matérias-primas, a empresa consegue manter o valor dos sapatos bem próximo dos convencionais. “Esperamos que, no futuro, possamos continuar sendo referência em sustentabilidade e respeito pelo planeta”.

Na Riva Sandálias, todos os modelos são pensados, desenhados e executados a mão (Foto: Divulgação)

No Rio de Janeiro, o casal Riva e Valmir apostou na produção local, design autoral e artesanal, desde a criação até a montagem do sapato, focando principalmente em levar conforto e praticidade ao dia a dia feminino. Depois de mais de 20 anos de experiência, eles também decidiram criar sapatos veganos, ecológicos e com solados de borracha reciclada.

Na Riva Sandálias, todos os modelos são pensados, desenhados e executados a mão. Alguns não têm costura e as cores são selecionadas para alegrar e fugir do óbvio. Os calçados vêm se espalhando por todo o país, por venda online e presença ativa em feiras e eventos locais de marcas autorais e criativas.

Cerveja e abacaxi

Na metade de 2018, chegou ao mercado mais uma novidade em calçados sustentáveis. A Öus Brasil, uma das principais referências nacionais em produção independente de calçados, fez surgir, em parceria com a Whatafuck Hambugueria, de Curitiba-PR, um tênis com solado derivado de cerveja.

Isso mesmo! O bagaço extraído do malte processado é misturado com látex. O resultado, de acordo com o gerente de design de produto da Öus Brasil, Anthon Nathan, é um solado natural, em cor e forma. O tênis, que recebeu o nome de “Ueno Whatafuck Imperial”, é direcionado a quem busca estar “descolado” com algo exclusivo, segundo Daniel Mocellin, sócio da rede Whatafuck.

Calçado feito de derivado de cerveja, em Curitiba-PR: meia tonelada de malte na produção (Foto: Divulgação)

Ainda conforme Mocellin, é necessária cerca de meia tonelada de malte para a produção do tênis e, desde o início do projeto, foram buscadas alternativas para que fosse rentável. Para ele, a marca tem sido bastante valorizada pelos curitibanos e, mais que uma hamburgeria, se transformou num “estilo de vida”.

Enquanto isso, a multinacional Ananas Anam, empresa inaugurada pela espanhola Carmen Hijosa, especialista em couro, que, anteriormente, prestava consultoria na indústria de exportação de couro das Filipinas, na década de 1990, investe numa fibra de abacaxi, batizada de Piñatex.

Acreditando que a produção de couro provoca impactos ambientais, por causa do curtimento químico, Carmen decidiu pesquisar uma alternativa sustentável, incluindo o uso de plantas, na tecelagem tradicional. Inspirou-se, então, para criar um novo tecido não tecido, que possa ser produzido de forma comercial a partir das folhas do abacaxi, que, geralmente, são descartadas, oferecendo a oportunidade de construir escala para o desenvolvimento de comunidades agrícolas.

Folha do abacaxi, anteriormente descartada, é usada para produzir fibra que serve de matéria-prima para calçados (Foto: Divulgação)