Perdão!

Segundo pesquisa, série da Netflix estimula pedido de desculpas por parte dos agressores em casos de bullying 

Milena Fischer

Foto acima: Imagem de Divulgação da série pergunta “Por que uma garota morta mentiria?” (Divulgação)

“Tem que melhorar a maneira como tratamos uns aos outros e olhamos uns pelos outros. De alguma forma, tem que melhorar.”

A frase é de Clay Jensen, personagem de Dylan Minnette na popular série da Netflix “13 Reasons Why”, que conta a história de Hannah Baker após o suicídio dela.

A série foi motivo de discussão no mundo todo por abordar temas como depressão, bullying, estupro e o próprio suicídio, além de levantar questões como pedidos de ajuda e problemas emocionais.

Questões como estas já eram levantadas todos os dias antes da série. O que mudou então?

Da esquerda para a direita, Caio e Gabriel em encontro após agressões (Acervo pessoal)

A popularidade de “13 Reasons Why” abriu as portas para um núcleo diferente de público: o dos agressores. Falar sobre o assunto é muito importante, mas enxergar o ponto de vista de quem é machucado fez com que muitos jovens que praticavam bullying percebessem que seus atos poderiam ter consequências desastrosas.

De acordo com dados divulgados pelo Centro de Mídia e Desenvolvimento Humano da Universidade NorthWestern, em Illinois, nos Estados Unidos, 50% dos agressores que veem a série entram em contato com as vítimas para pedir desculpas.

‘Não fazia ideia de como era pra ele’

“Eu sou conhecido por gostar de brincar. No Ensino Médio, principalmente, as pessoas meio que esperavam isso de mim, e eu gostava quando me achavam engraçado. Quando entrou um menino gordinho na minha sala com a língua presa, vi a oportunidade perfeita pra zoar, e confesso que peguei pesado nas brincadeiras. Mas não fazia ideia de como era pra ele. Não tinha nenhuma noção, até o lançamento da série.”

Gabriel Andrade estudava num colégio adventista em Curitiba-PR quando estreou a série na Netflix, em 2017.

“Fiquei me sentindo horrível quando acabei o último episódio. Fiquei pensando que causei isso em alguém, essa dor. Me lembrei dos dias em que ele ia embora chorando e do dia em que a professora disse que ele tinha pedido transferência. E só aí tomei conhecimento do que todos nós, mas eu principalmente, tínhamos feito a ele. Não foi fácil convencer a mãe dele que eu queria pedir desculpas quando pedi o telefone. Mas deu tudo certo.”

Caio Fernandes foi a vitima de bullying de Gabriel. E diz ter se sentido muito grato pelo pedido de perdão.

Cena da série, que fala sobre depressão, bullying, estupro e suicídio (Divulgação)

“Quando ele me ligou, fiquei meio sem acreditar. Sofri muito por todos os lugares que passei, por causa do meu peso e da minha fala. Entrei em depressão e tive uma fase muito escura da minha vida. Passei a ter aulas em casa e até hoje não tenho um diploma do Ensino Médio. Não faço ideia se algum dia conseguirei voltar. Apesar disso, nunca ninguém teve coragem de me pedir desculpas, e fiquei emocionado quando percebi que o cara que mais me zoava no primeiro ano seria o primeiro.”

Abandono

Em outro caso, em Orlândia-SP, as coisas foram um pouco diferentes. Menos o desejo da vítima. Camila Lopes tinha 14 anos quando assumiu sua homossexualidade. E viu seus colegas de classe virarem as costas.

“Tudo que eu queria é que eles me ligassem para pedir desculpas. Quando assisti ’13 Reasons Why’, me enxerguei muito na personagem Hannah. Eu tive amigos, como ela, que me ofenderam, me abandonaram e não aceitaram minhas escolhas. A minha família me apoiou muito, foi isso que me salvou. Tenho certeza que, se tivessem visto o que a série mostrou, se arrependeriam. Mas eles são muito ‘machos’ para isso.”

Segundo Ellen Wartella, diretora do Centro de Mídia e Desenvolvimento Humano da Universidade NorthWestern, a série levou adolescentes a “demonstrarem mais empatia pelos colegas”, além de gerar conversas entre pais e adolescentes. Uma esperança para pessoas como Camila.

No dia 18 de maio, teve início a segunda temporada da série na Netflix.

Camila, de Orlândia, posa sorridente ao lado de menino que se tornou seu agressor (Acervo pessoal)