O corpo é um detalhe?

Enquanto as discussões sobre gêneros extrapolam os limites do biológico, o corpo se afirma como expressão de identidades 

Sara Ávila

Foto acima: Para psicólogo, relação entre gênero e corpo está mais escancarada (Banco de imagens)

Dominic Rafael de Azevedo Oliveira, de 22 anos, é um homem trans que vive no interior de Minas Gerais. Nasceu num corpo feminino, mas afirma que seus pensamentos e comportamentos são tipicamente masculinos. Isso o leva a viver e se identificar como homem, independentemente do órgão genital.

Ele conta que percebeu ser diferente ainda na infância, mas que, apenas mais tarde, começou a entender os sinais. Uma das fases mais difíceis foi aos 15 anos, quando era difícil conseguir informações. Foi preciso buscar ajuda em outros trans, pessoas que, como ele, se identificam com características do sexo oposto ao que nasceram.

Hoje em dia, é mais fácil pesquisar. Mas muitos, mesmo com a internet, não sabem o que buscar, nem onde. Por isso, para Dominic, abordagens como a da novela “A Força do Querer”, de Glória Perez, que trouxe recentemente o personagem transgênero Ivan, são necessárias. “Ter visibilidade é importante. Para os trans que estão se descobrindo agora, acho que a novela foi muito significativa”.

Dominic enxerga mudanças na lei e exposição midiática como conquistas (Foto: Acervo pessoal)

Apesar da maior abertura, ele conta que o preconceito ainda é evidente. Dominic tem dificuldades para conseguir emprego. Ele e outros tantos transexuais, principalmente os que vivem em cidades pequenas, onde o assunto permanece como um grande tabu.

No entanto, Dominic comemora conquistas. Como a lei aprovada neste ano que permite aos transexuais o uso, no documento de identidade, de seus nomes sociais – aqueles que adotaram no dia a dia –, além da remoção, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), do termo “transexualismo” da lista de transtornos mentais.

Para ele, a luta é longa, mas o reconhecimento em lei e a visibilidade midiática já são uma vitória. “Aos poucos, estamos sendo inseridos na sociedade como pessoas dignas de vidas normais, pois somos pessoas como todas as outras”.

O outro lado

Lucas Lima, morador de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, não quer aparecer. Ele nasceu num corpo feminino. Gosta de ser tratado como homem e chamado pelo nome masculino, mas não quer mudar as características corporais. O motivo? Não acredita que isso possa ajudá-lo a fugir das tarefas sociais que precisa cumprir ao longo da vida. Por isso, evita definições dentro das discussões sobre identidade de gênero. “Sou uma fêmea humana”, afirma apenas, quando questionado sobre como se sente.

Para Lucas, essas tarefas, como se comportar, se vestir e expressar emoções são impostas pelos padrões de gênero. Segundo ele, a sociedade espera determinadas atitudes, independente da identidade assumida. “Acredito que ninguém é cem por cento livre dessas caixas”, diz. “Isso é muito triste. Só queria que não fosse assim”.

Enquanto, para a maioria das pessoas, é normal existir uma divisão entre masculino e feminino, para Lucas não se pode basear o comportamento nisso. “Não devo seguir padrões. Nem mesmo fugir dele. Porque o que acontece muito é que as pessoas, tentando fugir de um padrão, acabam caindo em outro. Você nasce em uma caixa e passa para outra. Ou então fica tentando se desligar de ambas”.

Com as discussões sobre identidade de gêneros, o corpo ganha destaque social e científico (Foto: Banco de imagens)

O todo

Em linhas gerais, os gêneros são vistos como uma questão de percepção que não se prende a fatores externos, como o sexo biológico. Enquanto o sexo seria um conjunto de características relacionadas ao corpo que o classifica como macho ou fêmea, gênero está ligado a como o ser humano se sente.

Em diversos campos do conhecimento, o termo estudado que tem correlação com gênero e sexo é “identidade de gênero” – que se refere a como o indivíduo se apresenta para si e para as pessoas a sua volta. Para as Ciências Sociais, o gênero é uma construção social.

O corpo, por sua vez, é o elemento que o indivíduo usa para expressar o que se passa na mente. “O corpo é um palco das nossas incertezas e sofrimento e, também, um palco de identidade”, afirma Ivan Savenhago, que atua como psicólogo clínico há 11 anos.

Para ele, esse é um dos motivos pelo qual a normalidade está tão na moda e, ao mesmo tempo, não. “É fato que muitas pessoas procuram chamar atenção para sua identidade através da expressão corporal. Em um tempo onde a desconstrução do masculino e do feminino se torna cada vez mais evidente, a relação do gênero com o corpo fica também cada vez mais intensa e escancarada.”

Se o corpo é expressão da identidade, é nesse ponto que Dominic e Lucas se encontram. Eles fazem de seus corpos palcos de desejos, de opiniões. Pelo corpo, posicionam seus lugares no mundo e dão voz para suas mentes.