{"id":884,"date":"2019-08-14T17:00:40","date_gmt":"2019-08-14T17:00:40","guid":{"rendered":"https:\/\/agendasette.com.br\/?p=884"},"modified":"2020-06-26T18:26:06","modified_gmt":"2020-06-26T18:26:06","slug":"atrocidades-de-barbacena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agendasette.com.br\/?p=884","title":{"rendered":"Horror em Barbacena"},"content":{"rendered":"<p><em>60 mil pessoas morreram no Hospital Col\u00f4nia: Holocausto brasileiro condenava de cinco a sete pessoas por dia<\/em><strong>\u00a0<\/strong><!--more--><\/p>\n<p><strong>Rodrigo Caramori (em mem\u00f3ria)<\/strong><\/p>\n<p><strong>Foto acima: A fachada do Hospital Col\u00f4nia, inaugurado em 1903 (Acervo Daniela Arbex \/ Livro Holocausto brasileiro)<\/strong><\/p>\n<p>O ano era 1903. Cria\u00e7\u00e3o do Hospital Col\u00f4nia de Barbacena, Minas Gerais, palco daquela que \u00e9 considerada a maior hist\u00f3ria de exterm\u00ednio do Brasil, entre 1930 e 1980.<\/p>\n<p>Pacientes eram encaminhados para o munic\u00edpio, a 500 quil\u00f4metros de Franca, por meio de uma locomotiva, que ficou conhecida como \u201cvag\u00e3o dos loucos\u201d. Um grande n\u00famero deles n\u00e3o tinha diagn\u00f3stico de doen\u00e7as mentais. Eram epil\u00e9ticos, negros, prostitutas, alco\u00f3latras, homossexuais, filhas que tinham perdido a virgindade antes do casamento, maridos que levavam as mulheres para assumir relacionamentos com amantes, bem como mulheres violentadas sexualmente. Pessoas indesejadas pela sociedade e para as quais Barbacena se tornou uma esp\u00e9cie de dep\u00f3sito.<\/p>\n<figure id=\"attachment_886\" aria-describedby=\"caption-attachment-886\" style=\"width: 197px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-886\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/a-chegada-em-barbacena-2-197x300.png\" alt=\"\" width=\"197\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/a-chegada-em-barbacena-2-197x300.png 197w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/a-chegada-em-barbacena-2.png 569w\" sizes=\"auto, (max-width: 197px) 100vw, 197px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-886\" class=\"wp-caption-text\">Pessoas tinham a cabe\u00e7a raspada e as roupas rasgadas (Foto: Acervo Daniela Arbex)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Esse cap\u00edtulo triste da hist\u00f3ria nacional est\u00e1 no livro &#8220;Holocausto Brasileiro \u2013 Genoc\u00eddio: 60 mil Mortos no Maior Hosp\u00edcio do Brasil\u201d, da jornalista Daniela Arbex, lan\u00e7ado pela Gera\u00e7\u00e3o Editorial em 2013. Segundo ela, quando o vag\u00e3o chegava \u00e0 cidade mineira e os pacientes desciam no hospital, que era formado por sete pr\u00e9dios e um total de 16 pavilh\u00f5es, lembrava o campo de concentra\u00e7\u00e3o de Auschwitz, na Pol\u00f4nia, durante a Segunda Guerra Mundial. Havia a promessa de alimenta\u00e7\u00e3o e cuidados especiais, mas, logo na entrada, as roupas eram rasgadas e as cabe\u00e7as raspadas. \u00a0Entrava-se totalmente nu.<\/p>\n<p><strong>Os meninos de Oliveira<\/strong><\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1970, Barbacena come\u00e7ou a receber, tamb\u00e9m, crian\u00e7as do hospital psiqui\u00e1trico de Oliveira, tamb\u00e9m em Minas, que tinham defici\u00eancias f\u00edsicas e mentais. Filhos dos quais os pais tinham vergonha.<\/p>\n<p><strong>As mortes de Barbacena <\/strong><\/p>\n<p>Foram mais de 60 mil mortes no hospital de Barbacena. Quando os pacientes resistiam, as condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia eram desumanas. As camas, por exemplo, n\u00e3o tinham colch\u00e3o. Eles precisavam buscar capim na col\u00f4nia, que vinha com v\u00e1rios tipos de insetos, para forr\u00e1-las. Com a falta de alimento, iam morrendo de desnutri\u00e7\u00e3o. Quando chegava o frio, eles se amontoavam para se aquecer. Os que ficam por baixo morriam por asfixia.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia profissionais suficientes para tantos. Era um m\u00e9dico para cada tr\u00eas ou quatro pavilh\u00f5es, superlotados. Na d\u00e9cada de 1950, por exemplo, cerca de 200 pessoas moravam ali. Como n\u00e3o havia medicamentos, a maioria era submetida a eletrochoques sem anestesia. As mortes, o mau cheiro, a pobreza e o sil\u00eancio dominavam as alas.<\/p>\n<p><strong>O com\u00e9rcio da morte<\/strong><\/p>\n<p>O n\u00famero de mortes variava de cinco a sete por dia, em m\u00e9dia. Por n\u00e3o ter contato com familiares, seus corpos eram encaminhados diretamente ao cemit\u00e9rio municipal, onde se cavava uma cova bem funda, que recebia v\u00e1rios cad\u00e1veres juntos. Mesmo cobertos, como eram muitos, deixavam ossos expostos e os procedimentos n\u00e3o eram suficientes para afastar o mau cheiro.<\/p>\n<figure id=\"attachment_888\" aria-describedby=\"caption-attachment-888\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-888\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/carrocinha-de-descarte-de-corpos-e1588864904705-300x181.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"181\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-888\" class=\"wp-caption-text\">Carrinhos que levavam corpos ao cemit\u00e9rio: superlota\u00e7\u00e3o resultou em com\u00e9rcio da morte (Foto: Acervo Daniela Arbex)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Entre 1969 e 1980, 1.800 cad\u00e1veres foram negociados com 17 universidades de Medicina, no epis\u00f3dio que ficou conhecido como \u201ccom\u00e9rcio da morte\u201d. O cemit\u00e9rio j\u00e1 n\u00e3o tinha espa\u00e7o para comportar tantos corpos. Visando encontrar uma alternativa, funcion\u00e1rios corruptos encontraram no tr\u00e1fico uma maneira de amenizar a situa\u00e7\u00e3o e lucrar com isso. S\u00f3 a Universidade Federal de Minas Gerais, conforme mostram documentos obtidos para o livro, adquiriu 543 corpos. Outros 45 foram para a Universidade de Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>Com a descoberta e o t\u00e9rmino do com\u00e9rcio de mortes, os corpos eram colocados em barris com \u00e1cido no meio do p\u00e1tio para se desmanchar. Isso em meio aos pacientes que sobreviviam ali.<\/p>\n<p><strong>Atualmente<\/strong><\/p>\n<p>Trabalha-se para desinstitucionaliza\u00e7\u00e3o de hosp\u00edcios e manic\u00f4mios no Brasil e para que pacientes n\u00e3o sejam mais abandonados e esquecidos. Eles s\u00e3o recolhidos apenas em fases de surtos. Do contr\u00e1rio, a conviv\u00eancia com as fam\u00edlias \u00e9 estimulada.<\/p>\n<p>Das sete institui\u00e7\u00f5es que formavam o Hospital Col\u00f4nia, tr\u00eas permanecem em funcionamento, com uma abordagem humanizada. O nome foi alterado para Centro Hospitalar Psiqui\u00e1trico de Barbacena, sob cuidados da Funda\u00e7\u00e3o Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s oito d\u00e9cadas de sofrimento, os sobreviventes de Barbacena foram transferidos para abrigos, aprenderam a se higienizar, se alimentar com talheres, viver em condi\u00e7\u00f5es mais dignas, frequentar lugares onde pudessem se ressocializar e come\u00e7aram a receber indeniza\u00e7\u00f5es do Estado.<\/p>\n<figure id=\"attachment_890\" aria-describedby=\"caption-attachment-890\" style=\"width: 760px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-890\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/meninos-de-oliveira.png\" alt=\"\" width=\"760\" height=\"881\" srcset=\"https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/meninos-de-oliveira.png 760w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/meninos-de-oliveira-259x300.png 259w\" sizes=\"auto, (max-width: 760px) 100vw, 760px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-890\" class=\"wp-caption-text\">At\u00e9 crian\u00e7as viviam ali: foram transferidas de hospital de Oliveira-MG (Foto: Acervo Daniela Arbex)<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>60 mil pessoas morreram no Hospital Col\u00f4nia: Holocausto brasileiro condenava de cinco a sete pessoas por dia\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1367,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-884","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-espirito-do-tempo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/884","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=884"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/884\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1317,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/884\/revisions\/1317"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1367"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=884"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=884"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=884"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}