{"id":351,"date":"2018-06-19T12:09:15","date_gmt":"2018-06-19T12:09:15","guid":{"rendered":"https:\/\/agendasette.com.br\/?p=351"},"modified":"2020-06-15T22:56:06","modified_gmt":"2020-06-15T22:56:06","slug":"nao-e-frescura-e-misofonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agendasette.com.br\/?p=351","title":{"rendered":"N\u00e3o \u00e9 frescura!"},"content":{"rendered":"<p><em>Doen\u00e7a pouco conhecida e discutida, a misofonia compromete o conv\u00edvio social e confunde at\u00e9 os m\u00e9dicos na hora do diagn\u00f3stico<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>Gabriela Buranelli <\/strong><\/p>\n<p><strong>Foto acima: Doen\u00e7a torna a pessoa intolerante a sons do cotidiano (Banco de imagens)<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cMinha filha sofria disso. Mas ach\u00e1vamos que era capricho, frescura da parte dela. Come\u00e7ou com ela n\u00e3o aguentando ouvir a irm\u00e3 chorar, depois passou a ser com o ronco do pai e depois com o barulho que a outra irm\u00e3 fazia ao comer. Minha filha come\u00e7ou a entrar em depress\u00e3o. Saiu do trabalho, trancou a faculdade. Foi em um psic\u00f3logo, por\u00e9m ele disse que era uma maneira dela conseguir aten\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e amigos. Mas n\u00e3o era isso. A situa\u00e7\u00e3o ficou insustent\u00e1vel. Ela s\u00f3 chorava e pedia perd\u00e3o por ser daquele jeito. Mas diz\u00edamos que era drama. At\u00e9 que minha filha tirou a pr\u00f3pria vida. Ela escreveu uma carta de despedida, onde dizia que tinha uma doen\u00e7a, que nunca quis chamar aten\u00e7\u00e3o, que jamais escolheria sofrer o que sofria. Que chorava por n\u00e3o conseguir fazer as refei\u00e7\u00f5es com a fam\u00edlia, por n\u00e3o conseguir cuidar da irm\u00e3 quando ela chorava, por n\u00e3o conseguir ter um momento em paz com a gente, porque faz\u00edamos diversos barulhos que faziam ela ter rea\u00e7\u00f5es indesejadas. Ela pediu perd\u00e3o. Perd\u00e3o por ser daquele jeito e por n\u00e3o conseguir controlar o que sentia ao ouvir determinado barulho. E disse que, daquele momento em diante, a vida de todos seria melhor.<\/em> <em>Eu tive culpa da morte da minha filha. Eu n\u00e3o a entendi. N\u00e3o quis entender, n\u00e3o quis me informar. Deixei ela sofrer sozinha, enquanto essa doen\u00e7a a tomava por dentro.\u00a0A misofonia acabou com a minha filha\u201d.<\/em><\/p>\n<p>O relato \u00e9 de uma m\u00e3e que n\u00e3o quer ter a identidade revelada. Exp\u00f5e o drama vivido com a filha que tinha misofonia, uma doen\u00e7a que altera a sensibilidade para sons e afeta a vida em sociedade.<\/p>\n<p>Mascar chiclete, talher batendo no prato, embalagem sendo amassada, torneira pingando, limpar os dentes com a l\u00edngua, estalar dedos, sons nasais, abrir e fechar a caneta, sapato batendo no ch\u00e3o, mastigar. Provavelmente, o misof\u00f4nico que come\u00e7ou a ler esse texto pulou as primeiras tr\u00eas linhas ou, ent\u00e3o, \u00e0 medida que leu, sentiu raiva ou ang\u00fastia e lembrou o que isso significa. A lista de barulhos \u00e9 extensa e as rea\u00e7\u00f5es s\u00e3o as mais diversas.<\/p>\n<p>A palavra misofonia deriva do grego e significa avers\u00e3o ao som (Miso: avers\u00e3o extrema\/\u00f3dio; Fonia: som). \u00c9 conhecida tamb\u00e9m por S\u00edndrome de Sensibilidade Seletiva do Som ou 4S. As pessoas que t\u00eam a doen\u00e7a apresentam sintomas espec\u00edficos quando submetidos a barulhos do cotidiano, como ansiedade, nervosismo, irritabilidade, raiva, \u00f3dio, isolamento, entre outros.<\/p>\n<p>Essas rea\u00e7\u00f5es, geralmente, s\u00e3o incontrol\u00e1veis e irracionais. No c\u00e9rebro de um misof\u00f4nico, \u00e9 como se houvesse um amplificador. Os barulhos s\u00e3o interpretados muito mais altos do que realmente s\u00e3o. No entanto, aten\u00e7\u00e3o: n\u00e3o gostar de determinado som n\u00e3o significa que \u00e9 misofonia. O que caracteriza a doen\u00e7a s\u00e3o as rea\u00e7\u00f5es que aparecem.<\/p>\n<p>Os primeiros estudos come\u00e7aram na d\u00e9cada de 1990, nos Estados Unidos, com os cientistas Margareth e Pawel. Hoje, tanto no Brasil como no exterior, existem poucas informa\u00e7\u00f5es e muitos nem mesmo sabem que existe a misofonia. Por esse motivo, um dos entraves com que os misof\u00f4nicos lidam \u00e9 o fato de que as pessoas que n\u00e3o sofrem disso e n\u00e3o conhecem a respeito acreditam que n\u00e3o se trata de uma doen\u00e7a, mas de uma frescura ou implic\u00e2ncia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_352\" aria-describedby=\"caption-attachment-352\" style=\"width: 754px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-352\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/MISOFONIA-2.jpg\" alt=\"\" width=\"754\" height=\"396\" srcset=\"https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/MISOFONIA-2.jpg 754w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/MISOFONIA-2-300x158.jpg 300w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/MISOFONIA-2-390x205.jpg 390w\" sizes=\"auto, (max-width: 754px) 100vw, 754px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-352\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o mostra drama de misof\u00f4nicos com sons do cotidiano (Banco de imagens)<\/figcaption><\/figure>\n<p>No Brasil, uma das precursoras no estudo \u00e9 a Tanit Ganz Shanche, pesquisadora e professora da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Ela iniciou uma pesquisa com um caso peculiar: uma fam\u00edlia que tem 12 membros com misofonia. De acordo Tanit, que \u00e9 otorrinolaringologista, a misofonia \u00e9 considerada uma doen\u00e7a psiqui\u00e1trica e as pessoas que sofrem do transtorno podem reagir com muita raiva quando submetidas a esses sons, podendo at\u00e9 mesmo agredir. Segundo ela, os misof\u00f4nicos t\u00eam a audi\u00e7\u00e3o em \u00f3timo estado. O problema \u00e9 a forma com o som \u00e9 captado pelo c\u00e9rebro. Em m\u00e9dia, 10% das pessoas sofrem de misofonia.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a n\u00e3o tem cura. Apenas tratamentos podem ameniz\u00e1-la. Para isso, existem terapias especificas, como a Cognitiva-Condicional ou a de Retreinamento de Tinnitus. Outra alternativa muito utilizada pelos misof\u00f4nicos \u00e9 o uso de tamp\u00f5es nos ouvidos. Mas o uso constante e por muito tempo pode desencadear uma otite.<\/p>\n<p>A misofonia \u00e9 classificada em 11 n\u00edveis. Quanto maior o n\u00edvel, menor a toler\u00e2ncia a barulhos. Por ser pouco conhecida, a doen\u00e7a acaba confundindo at\u00e9 mesmo os m\u00e9dicos. Muitos d\u00e3o o diagn\u00f3stico de bipolaridade, depress\u00e3o e ansiedade, transtornos com caracter\u00edsticas diferentes da misofonia, mas que podem ser decorrentes dela.<\/p>\n<p><strong>Outros relatos <\/strong><\/p>\n<p>Os misof\u00f4nicos costumam ter seu conv\u00edvio social afetado, j\u00e1 que n\u00e3o conseguem ficar perto de quem produz certos barulhos, como mastigar e beber. Refei\u00e7\u00f5es em fam\u00edlia e confraterniza\u00e7\u00f5es podem se tornar pesadelos.<\/p>\n<p>Segundo Mariana Doretto, de 27 anos, que convive com a doen\u00e7a desde muito nova, a \u00fanica que a apoia \u00e9 a m\u00e3e. \u201cOutros acabam vendo como frescura, s\u00edndrome do p\u00e2nico, depress\u00e3o e doen\u00e7as relacionadas\u201d. Ela conta que descobriu a misofonia por meio de pesquisas na internet. E que \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil lidar com ela.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o consigo mais ter uma vida normal. Cada vez mais, v\u00e3o surgindo barulhos, que chamamos de gatilhos, que me atormentam e me impedem de viver uma vida normal. Quase n\u00e3o saio mais com os amigos, evito estar reunida com meus familiares, principalmente quando o programa envolve refei\u00e7\u00f5es. Isso me afeta totalmente no trabalho, nos estudos e em tudo. Minha \u00fanica sa\u00edda, geralmente, s\u00e3o protetores auriculares e fones no ouvido. A misofonia, juntamente com o estresse, tem me roubado completamente as energias e estou sempre esgotada, f\u00edsica e emocionalmente. E agora percebi que tenho me tornado uma p\u00e9ssima companhia. As pessoas n\u00e3o gostam mais de estar tanto ao meu lado. Tenho tentado lutar contra isso, mas, a cada dia que passa, vejo o quanto mudei e o quanto me tornei uma pessoa de dif\u00edcil conviv\u00eancia. A gente acaba se sentindo um peso para os outros.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 o caso tamb\u00e9m de Sophia Bazzo, de dez anos. A m\u00e3e, Graziella, diz que descobriu que sua filha tinha misofonia quando viu uma reportagem na televis\u00e3o. \u201cN\u00e3o me lembro bem, mas acho que foi no Fant\u00e1stico [programa da TV Globo]. Passei a pesquisar e percebi que ainda era algo recente com poucos estudos no exterior, nada que tivesse alcance poss\u00edvel para n\u00f3s.&#8221;<\/p>\n<figure id=\"attachment_353\" aria-describedby=\"caption-attachment-353\" style=\"width: 960px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-353\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/MISOFONIA-3.jpg\" alt=\"\" width=\"960\" height=\"640\" srcset=\"https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/MISOFONIA-3.jpg 960w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/MISOFONIA-3-300x200.jpg 300w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/MISOFONIA-3-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-353\" class=\"wp-caption-text\">Barulhos como mastigar podem provocar rea\u00e7\u00f5es diversas no misof\u00f4nico (Foto: Banco de imagens)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Graziella conta que a lista de gatilhos \u00e9 enorme e que tenta ajudar como consegue. \u201cTalheres, gente comendo, clique do controle remoto, teclado de computador, clique do mouse, pacote de salgadinhos, o irm\u00e3ozinho brincando de carrinho&#8230; A \u00fanica sa\u00edda para amenizar at\u00e9 hoje \u00e9 tamp\u00e3o associado a fone de ouvido com som. S\u00f3 no \u00faltimo ano, foram 20 fones.\u201d<\/p>\n<p>Denise Carneiro, que tamb\u00e9m sofre com a misofonia, percebeu que existiam poucas informa\u00e7\u00f5es a respeito e a maioria que encontrava era em ingl\u00eas. Por isso, ela resolveu criar o \u201cDi\u00e1rio de um Misof\u00f4nico\u201d. \u201cO intuito do blog \u00e9 informar e tamb\u00e9m desabafar sobre as coisas que acontecem com a gente\u201d. No blog, \u00e9 poss\u00edvel encontrar, al\u00e9m dos desabafos de Denise, relatos de pessoas que t\u00eam o transtorno, como o que abre esta reportagem.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Denise conta que o blog a ajudou muito, principalmente quando come\u00e7ou a receber as hist\u00f3rias de quem tamb\u00e9m sofre com o problema. \u201cMuitas vezes, choro enquanto escrevo meus pr\u00f3prios relatos, mas alguns tamb\u00e9m me tocam bastante, como esse da m\u00e3e que perdeu a filha por causa da doen\u00e7a. Recebo v\u00e1rios relatos de pessoas que tentam suic\u00eddio, que cortam rela\u00e7\u00f5es com os familiares e se isolam do mundo. \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o chorar com esses.\u201d<\/p>\n<p>O blog pode ser acessado pelo endere\u00e7o: https:\/\/diariodeummisofonico.wordpress.com\/.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Doen\u00e7a pouco conhecida e discutida, a misofonia compromete o conv\u00edvio social e confunde at\u00e9 os m\u00e9dicos na hora do diagn\u00f3stico<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":356,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-351","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-espirito-do-tempo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/351","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=351"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/351\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1325,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/351\/revisions\/1325"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/356"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=351"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=351"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=351"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}