{"id":2648,"date":"2022-01-13T15:18:56","date_gmt":"2022-01-13T15:18:56","guid":{"rendered":"https:\/\/agendasette.com.br\/?p=2648"},"modified":"2022-01-13T15:18:56","modified_gmt":"2022-01-13T15:18:56","slug":"violencia-exposta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agendasette.com.br\/?p=2648","title":{"rendered":"Viol\u00eancia exposta"},"content":{"rendered":"<p><em>Pesquisa de mestra em Lingu\u00edstica pela Unifran analisa ascens\u00e3o do Me Too, que tomou grandes propor\u00e7\u00f5es na internet<br \/>\n<\/em><!--more--><\/p>\n<p><strong>Lais Lazarini<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lucas Faleiros<\/strong><\/p>\n<p><strong>Foto acima: Movimento surgiu em 2006, mas passou a ser mais conhecido em 2017, quando atriz fez um post no Twitter encorajando den\u00fancias contra a viol\u00eancia (Banco de imagens)<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 segredo para ningu\u00e9m que, ainda que estejamos em pleno s\u00e9culo XXI, atos abusivos contra mulheres continuam assolando o mundo todo. Somente no Brasil, foram registradas, ao longo de 2020, mais de 105 mil den\u00fancias do tipo, segundo dados do Minist\u00e9rio da Mulher, da Fam\u00edlia e dos Direitos Humanos.<\/p>\n<p>Entretanto, uma forma espec\u00edfica de viola\u00e7\u00e3o contra o sexo feminino chama muita aten\u00e7\u00e3o: o de cunho sexual. O t\u00f3pico, inclusive, tornou-se tema central de uma pesquisa realizada pela mestra em Lingu\u00edstica pela Unifran Giovana Oliveira de Russi, que aborda a banaliza\u00e7\u00e3o dessa viol\u00eancia, o luto vivido por suas v\u00edtimas e o desenvolvimento e impactos causados pelo movimento Me Too.<\/p>\n<p>Um dos pontos defendidos pela pesquisadora \u00e9 que os estupros, ass\u00e9dios e v\u00e1rios abusos cometidos contra as mulheres s\u00e3o normalizados por parte da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um exemplo recente dessa banaliza\u00e7\u00e3o repercutiu bastante ao longo dos \u00faltimos tr\u00eas anos no pa\u00eds: o caso de Mariana Ferrer, promotora de eventos que foi estuprada pelo empres\u00e1rio Andr\u00e9 Aranha durante uma festa na noite de 15 de dezembro de 2018, em Jurer\u00ea Internacional.<\/p>\n<p>Mesmo com o inqu\u00e9rito policial concluindo, em 2019, que o empres\u00e1rio havia violentado Mariana, a Justi\u00e7a o inocentou por falta de \u201cprovas contundentes\u201d. Em meio ao processo, o promotor que assumiu o caso afirmou que, no entendimento dele, o acusado n\u00e3o saberia se a v\u00edtima estava em condi\u00e7\u00f5es de consentir a rela\u00e7\u00e3o sexual, ou seja, que ele n\u00e3o teria tido a inten\u00e7\u00e3o de estupr\u00e1-la, o que foi amplamente repercutido nas redes como uma tentativa de dizer que Aranha teria cometido um \u201cestupro culposo\u201d.<\/p>\n<p>A pesquisa de Giovana aponta que eventos como esse fazem as mulheres perderem a coragem de denunciar crimes. Baseado nisso, o movimento Me Too tomou for\u00e7a nas redes sociais como uma forma de expor casos de viol\u00eancia sexual e, assim, estimulou milhares de mulheres a contarem seus relatos.<\/p>\n<p><strong>O in\u00edcio do Me Too<\/strong><br \/>\nA iniciativa surgiu quando a ativista negra Tarana Burke ouviu relatos de uma jovem de apenas 13 anos que havia sido abusada sexualmente pelo padrasto. V\u00e1rios anos depois, Burke ainda se arrependia por n\u00e3o ter dito &#8220;eu tamb\u00e9m&#8221; (me too) \u00e0 v\u00edtima naquele momento, visto que ela igualmente havia sofrido viol\u00eancia sexual.<\/p>\n<p>Em 2006, a pr\u00f3pria Tarana criou a Just Be Inc., uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos que ajuda meninas de 12 a 18 anos em situa\u00e7\u00e3o de risco. A partir disso, o Me Too passou a ser uma forma de enfrentar traumas e acolher pessoas que tiveram a mesma experi\u00eancia que ela.<\/p>\n<p>A causa, por\u00e9m, era pouco conhecida at\u00e9 2017, quando ocorreram in\u00fameras den\u00fancias contra o famoso produtor de Hollywood Harvey Weinstein. O esc\u00e2ndalo contava com relatos de aproximadamente 70 mulheres assediadas por ele e, mesmo com as diversas den\u00fancias \u2013 algumas oficializadas, outras n\u00e3o -, nada aconteceu com o acusado.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que a atriz Alyssa Milano fez um post no Twitter encorajando as v\u00edtimas de abuso ou agress\u00e3o sexual a tuitarem: &#8220;#metoo&#8221;. Resultado: a hashtag explodiu no mundo todo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2653\" aria-describedby=\"caption-attachment-2653\" style=\"width: 458px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2653\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Giovana-2.jpeg\" alt=\"\" width=\"458\" height=\"548\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2653\" class=\"wp-caption-text\">Giovana decidiu investigar ao Me Too ao ouvir pergunta de orientadora: &#8220;O que te incomoda?&#8221; (Foto: Acervo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Quebrando barreiras<br \/>\n<\/strong>Na pesquisa, Giovana de Russi mostra que o movimento transcendeu o mundo virtual, utilizando como exemplo o que aconteceu com Kate Donnelly. Em 2017, ela gravou um v\u00eddeo contando sua experi\u00eancia com a viol\u00eancia sexual e mostrou onde tudo aconteceu: em um colch\u00e3o, que ainda estava em sua sala. Kate j\u00e1 n\u00e3o sabia mais o que fazer com ele.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o da grava\u00e7\u00e3o, ela o colocou em seu quintal e, nele, escreveu \u201ceu tamb\u00e9m. Neste colch\u00e3o. Na minha casa. No segundo encontro\u201d, convidando outras mulheres para contarem hist\u00f3rias relacionadas ao tema. Horas depois, ao fim do dia, ela se emocionou ao voltar para casa e encontrar o objeto coberto de palavras de desabafo. Diversas pessoas foram at\u00e9 o local e registraram suas viv\u00eancias naquele mesmo colch\u00e3o.<\/p>\n<p>Todos os acontecimentos citados mostram o qu\u00e3o constante \u00e9 a viol\u00eancia sexual contra a mulher. Contudo, movimentos como o Me Too representam mais do que isso. Eles contribuem para que aconte\u00e7a uma ressignifica\u00e7\u00e3o do trauma e combate \u00e0s pr\u00e1ticas como o estupro, o ass\u00e9dio e o abuso sexual. Segundo Giovana, al\u00e9m de exibirem a magnitude do problema, essas a\u00e7\u00f5es convocam as pessoas oprimidas a transformarem o luto, que naturalmente ocorre quando algu\u00e9m tem seu corpo e intimidades violados, em luta.<\/p>\n<p>De acordo com Giovana, um discurso empodera o outro. Ou seja, quanto mais mulheres se unem em prol da causa, mais forte ela se torna. Por isso, a #metoo, promovida pela atriz Alyssa Milano, cresceu tanto e foi mencionada mais de 100 mil vezes somente no Twitter. Quanto mais pessoas mostram suas experi\u00eancias, mais encorajadas as outras se sentem para \u201ccolocar para fora\u201d os seus traumas e trazer \u00e0 tona a verdade.<\/p>\n<p>O movimento foi t\u00e3o importante que recebeu sequ\u00eancia em outras plataformas. Enquanto o Google criou o site <a href=\"https:\/\/metoorising.withgoogle.com\/\">Me Too Rising<\/a>, voltado para noticiar casos relacionados com ass\u00e9dio e abuso sexual no mundo todo, no Brasil foi formada a iniciativa <a href=\"https:\/\/metoobrasil.org.br\/\">Me Too Brasil<\/a>, que d\u00e1 apoio \u00e0s v\u00edtimas da viol\u00eancia contra a mulher no pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Desenvolvimento da pesquisa<br \/>\n<\/strong>Perguntada sobre a motiva\u00e7\u00e3o para escolher como tema do seu trabalho a viol\u00eancia sexual contra a mulher, Giovana diz que sempre achou o assunto algo importante de se debater. &#8220;Minha primeira orientadora me perguntou, logo na primeira vez que conversamos: &#8216;o que te incomoda?&#8217; De imediato, pensei nesse assunto. Acho que foi meu pontap\u00e9.\u201d<\/p>\n<p>Inicialmente, a mestra em Lingu\u00edstica relata ter pensado em abordar um universo maior, mas, at\u00e9 pela quest\u00e3o do tempo, preferiu dar \u00eanfase ao movimento Me Too, que surgiu como uma grata surpresa em meio ao processo.<\/p>\n<p>\u201cEu queria entender as formas discursivas na m\u00eddia, quando se tratavam de viol\u00eancia contra mulher. Entretanto, isso se mostrou muito amplo. Conforme fui construindo o arquivo e fazendo as an\u00e1lises, o meu material de pesquisa me levou a esse estreitamento do tema. Como inicialmente estava examinando notas de desculpas feitas por homens acusados de ass\u00e9dio e, dentre elas, estava a feita por Harvey Weinstein, que, de certa forma, provocou o tweet de Alyssa Milano, foi algo natural. Al\u00e9m disso, a #metoo foi respons\u00e1vel por libertar mulheres ao meu redor e tamb\u00e9m a mim mesma, tornando-se um interesse pessoal\u201d, conta.<\/p>\n<p>A respeito da organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, a professora que orientou Giovana, Aline Fernandes de Azevedo Bocchi, docente do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Lingu\u00edstica, diz que surgiram algumas dificuldades no caminho.<\/p>\n<p>\u201cA primeira delas foi organizar o material e selecionar o que exatamente seria analisado. Na An\u00e1lise de Discurso, mobilizamos os conceitos para compreender como os sentidos s\u00e3o produzidos. No caso da pesquisa, nossa quest\u00e3o era entender como os sentidos para a viol\u00eancia se constitu\u00edam naquele material, que era marcadamente digital, ou seja, tratava-se de uma hashtag, a #metoo, e de como ela gerou discursos no mundo todo para denunciar a viol\u00eancia sexual e o ass\u00e9dio contra mulheres.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Resultados<br \/>\n<\/strong>Apesar da complexidade de se abordar o tema e o arquivo da pesquisa, Aline v\u00ea com \u00f3timos olhos o resultado do trabalho. \u201cMesmo tendo sido um grande desafio, orientar a Giovana foi muito recompensador. Esse \u00e9 um assunto de extrema import\u00e2ncia e impacta diretamente na sociedade. Para se ter uma dimens\u00e3o do problema, o Brasil registra mais de 180 estupros por dia, segundo o 13\u00b0 Anu\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica, publicado em 2019. S\u00f3 que esses n\u00fameros podem, na verdade, ser bem maiores, por conta da quest\u00e3o da baixa notifica\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 um tema que precisa ser mais explorado, sobretudo em pesquisas qualitativas.\u201d<\/p>\n<p>Integrante da banca examinadora, a professora doutora Luciana Carmona Garcia aprovou a tese de Giovana de Russi. \u201cA pesquisa cumpre totalmente com o que se prop\u00f5e a fazer. As an\u00e1lises realizadas me tocaram muito como mulher, ainda mais em um momento em que se faz mais do que necess\u00e1rio denunciar a viol\u00eancia e formar uma prote\u00e7\u00e3o conjunta. O trabalho traz essa den\u00fancia e, ao mesmo tempo, mostra a import\u00e2ncia de se formar uma rede de apoio na viv\u00eancia violenta da mulher.\u201d<\/p>\n<p>Assim como Aline Bocchi, Luciana v\u00ea a necessidade de que o tema da viol\u00eancia sexual contra a mulher seja mais veiculado. \u201cIsso precisa circular na sociedade. \u00c9 um modo de conscientiza\u00e7\u00e3o sobre um problema que \u00e9 visto como natural e, n\u00e3o raramente, associado a uma reclama\u00e7\u00e3o sem consist\u00eancia, como um \u2018mimimi\u2019, diminuindo a dor da mulher quando tem seu corpo e alma violado.\u201d<\/p>\n<p>Giovana torce para que seu trabalho escancare as v\u00e1rias faces da viol\u00eancia. \u201cEla causa mais coisas do que s\u00f3 marcadores f\u00edsicos. Traz, junto consigo, o luto e o trauma. Por\u00e9m, depois disso, vem tamb\u00e9m a luta. Ainda espero que, de alguma forma, possa contribuir para o campo te\u00f3rico da An\u00e1lise de Discurso com o termo \u2018acontecimento midi\u00e1tico\u2019 ou at\u00e9 mesmo com a discuss\u00e3o do jur\u00eddico no discurso e no corpo.&#8221;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2654\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/me-too-jpg-1-e1642086289963.jpg\" alt=\"\" width=\"1386\" height=\"3509\" srcset=\"https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/me-too-jpg-1-e1642086289963.jpg 1386w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/me-too-jpg-1-e1642086289963-118x300.jpg 118w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/me-too-jpg-1-e1642086289963-768x1944.jpg 768w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/me-too-jpg-1-e1642086289963-404x1024.jpg 404w\" sizes=\"auto, (max-width: 1386px) 100vw, 1386px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisa de mestra em Lingu\u00edstica pela Unifran analisa ascens\u00e3o do Me Too, que tomou grandes propor\u00e7\u00f5es na internet<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2650,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[],"class_list":["post-2648","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-agenda-cientifica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2648","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2648"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2648\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2657,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2648\/revisions\/2657"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2650"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2648"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2648"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2648"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}