{"id":2318,"date":"2021-06-08T14:07:18","date_gmt":"2021-06-08T14:07:18","guid":{"rendered":"https:\/\/agendasette.com.br\/?p=2318"},"modified":"2021-06-08T14:07:18","modified_gmt":"2021-06-08T14:07:18","slug":"ter-compaixao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agendasette.com.br\/?p=2318","title":{"rendered":"\u201cTer compaix\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em>A m\u00e9dica Daniela Arbache Paulino atua no combate \u00e0 Covid-19 e reflete sobre as experi\u00eancias que a pandemia trouxe<\/em><!--more--><\/p>\n<p><strong>Aline Arbache Paulino<\/strong><\/p>\n<p><strong>Foto acima:\u00a0Daniela na Santa Casa de Miseric\u00f3rdia de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Para\u00edso \u2013 MG, durante plant\u00e3o de Covid-19 (Acervo pessoal)<\/strong><\/p>\n<p>A Covid-19, o distanciamento f\u00edsico e as aglomera\u00e7\u00f5es trazem diferentes problemas complexos que se interligam, quando uma simples e r\u00e1pida contamina\u00e7\u00e3o que ocorreu hoje resulta no sufoco de um paciente a esperar por vagas no hospital amanh\u00e3. Pela vis\u00e3o da medicina, essa luta di\u00e1ria deveria ocorrer por todos os lados: afinal, at\u00e9 que a vacina ven\u00e7a a doen\u00e7a, infectados ainda contaminar\u00e3o familiares e amigos; pacientes internados ainda enfrentar\u00e3o, al\u00e9m da Covid, a ang\u00fastia da solid\u00e3o; profissionais da sa\u00fade ter\u00e3o longas jornadas de trabalho com perseveran\u00e7a e se preocupar\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 com os pacientes, mas com a pr\u00f3pria fam\u00edlia, j\u00e1 que o medo, al\u00e9m dos hospitais, percorre dentro de suas casas.<\/p>\n<p>Nascida e criada em Franca, a m\u00e9dica Daniela Arbache Paulino, de 27 anos, trabalha na linha de frente de combate \u00e0 Covid-19 desde que a doen\u00e7a se alastrou no Brasil, h\u00e1 15 meses. Formada em 2019 pelo Centro Universit\u00e1rio de Patos de Minas \u2013 UNIPAM, ela est\u00e1 se especializando em Cl\u00ednica M\u00e9dica e, por isso, cumpre o segundo ano de resid\u00eancia na Santa Casa de Franca, al\u00e9m de ser plantonista no Hospital S\u00e3o Joaquim \u2013 Unimed Franca e na Santa Casa de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Para\u00edso \u2013 MG. A entrevista foi concedida por chamada de v\u00eddeo, quando Daniela j\u00e1 cumpria plant\u00f5es na Unimed Franca, mas ainda morava em S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Para\u00edso, onde cursava o primeiro ano como residente.<\/p>\n<p>E voc\u00ea deve estar se perguntando se, pelo sobrenome, Daniela \u00e9 minha irm\u00e3. Sim. A ideia de entrevistar minha irm\u00e3 mais velha surgiu assim que decidi abordar, numa entrevista, a pandemia sob olhares profissionais, j\u00e1 que nunca deixei de notar a rotina cada vez mais longa de Daniela. O Jornalismo sempre pregou que n\u00e3o \u00e9 recomend\u00e1vel inserir, como fonte, numa reportagem, algu\u00e9m que esteja t\u00e3o pr\u00f3ximo dos rep\u00f3rteres. Mas e quando uma pandemia for\u00e7a um distanciamento? Com ela morando em S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Para\u00edso e eu em Franca, passamos a nos ver pouco, pois os familiares do grupo de risco fazem o cuidado entre n\u00f3s ser ainda mais intenso.<\/p>\n<p>Apesar dos frequentes assuntos sobre o novo coronav\u00edrus na fam\u00edlia, as respostas da Dani foram surpreendentes para mim. Mesmo achando que a conhecia bem, tendo, por anos, dividido o mesmo quarto com ela, s\u00f3 agora pude perceber a habilidade dela de se reinventar e, especialmente na pandemia, n\u00e3o permanecer parada por um segundo sequer. Portanto, tinha um lado dela que n\u00e3o, eu n\u00e3o conhecia, o que aumentou a vontade de entrevist\u00e1-la.<\/p>\n<p>Sobre atuar na linha de frente, \u00e9 desesperador pensar nos desafios que Daniela se disp\u00f5e a enfrentar. O medo \u00e9 por mim, por ela e pela nossa fam\u00edlia inteira. Mas sei que o receio nada se compara \u00e0 confian\u00e7a no potencial da minha irm\u00e3. Sei o quanto ela sonhou, estudou e conquistou para cuidar das pessoas. Conhe\u00e7o o brilho no olhar dela toda vez que h\u00e1 uma brecha para falar de medicina, e admiro que, mesmo com tanto risco, ela saiba exatamente o que precisa fazer para se prevenir e prevenir os outros. Uma mistura de emo\u00e7\u00f5es que tamb\u00e9m influenciou na escolha da fonte: receio, admira\u00e7\u00e3o, irmandade.<\/p>\n<p>No desenrolar das perguntas, continuei com a sensa\u00e7\u00e3o de estar conversando com outra pessoa, como se n\u00e3o fosse algu\u00e9m que conhe\u00e7o tanto. E, na verdade, \u00e9 isso que temos em mente quando nos referimos \u00e0 Covid-19: um v\u00edrus desconhecido e incerto, disperso em um futuro completamente novo, causando, ainda, tantos sintomas comuns em um mundo imensamente velho.<\/p>\n<p>Daniela representa profissionais que enxergam esperan\u00e7as de um futuro p\u00f3s-pandemia, mesmo que vivam \u201cna pele\u201d todos os problemas e consequ\u00eancias trazidos pelo coronav\u00edrus. Plantonista em hospitais de cidades diferentes, a m\u00e9dica conta os cuidados que toma, sobretudo quando est\u00e1 pr\u00f3xima \u00e0 fam\u00edlia, em sua cidade natal, e compartilha, com muita sensibilidade, a conquista do diploma, ap\u00f3s li\u00e7\u00f5es aprendidas nos diversos cen\u00e1rios que presenciou: vidas que carregam, cada uma, uma hist\u00f3ria surpreendente.<\/p>\n<p><strong>Sobre a sua trajet\u00f3ria de vida. Como voc\u00ea escolheu a medicina como profiss\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>[Sorriso] Na verdade, eu n\u00e3o escolhi, acho que fui escolhida [risos]. Desde nova, desde os meus cinco anos, que eu me lembro, sempre quis fazer. Eu n\u00e3o entendia direito o que era fazer medicina ou o que era ser m\u00e9dica. Eu queria cuidar de algu\u00e9m, queria ver algu\u00e9m em sofrimento e alivi\u00e1-lo. Via o meu pai fazendo isso e queria fazer tamb\u00e9m [risadas]. Ent\u00e3o, sempre me interessei: gostava de pegar os livros dele, achava interessante. Eu acho que fui escolhida, e n\u00e3o escolhi a profiss\u00e3o. Nunca me imaginei fazendo outra coisa que n\u00e3o fosse o que fa\u00e7o. E a\u00ed, \u00e0 medida em que foi passando o tempo, fui entendendo melhor a separa\u00e7\u00e3o entre as \u00e1reas da sa\u00fade, mas a medicina sempre foi com o que me encantei mais. Na medicina, o nosso cuidado \u00e9 diferente. N\u00e3o envolve s\u00f3 cuidar da pessoa, mas raciocinar em cima daquilo, pensar em doen\u00e7a, tentar estabilizar e pensar o poss\u00edvel para deixar aquela pessoa bem. Por isso, falo que fui escolhida. Pelo menos estou muito realizada, muito feliz e n\u00e3o me imagino fazendo outra coisa. Nunca me imaginei [risos].<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea teve motiva\u00e7\u00f5es ou inspira\u00e7\u00f5es que considera valiosas durante essa jornada?<\/strong><\/p>\n<p>Tive. Nossa, muita! Eu falo que a gente se inspira. Eu, pelo menos, tive meu pai como inspira\u00e7\u00e3o para o in\u00edcio. Agora, ao longo da trajet\u00f3ria, o principal espelho que a gente tem s\u00e3o os nossos professores [\u00eanfase] e os nossos pacientes, porque, se n\u00e3o tem paciente, n\u00e3o tem medicina. Se n\u00e3o existe a doen\u00e7a, n\u00e3o existe como cur\u00e1-la. Se n\u00e3o existe sofrimento, voc\u00ea n\u00e3o alivia o sofrimento. Ent\u00e3o, todos os professores, mas principalmente todos os pacientes, cada um que passa sempre te ensina alguma coisa. Sempre te leva a estudar mais e a querer saber mais para, no pr\u00f3ximo, voc\u00ea estar melhor, para ser um cuidado melhor. E, muitas vezes, n\u00e3o tem um desfecho bom. \u00c0s vezes, a pessoa morre, \u00e0s vezes tem uma complica\u00e7\u00e3o que a gente n\u00e3o espera, mas, al\u00e9m de aprender a lidar com o sofrimento, a gente aprende mais e mais para melhorar para o pr\u00f3ximo, porque sempre tem um pr\u00f3ximo. A \u00fanica certeza que a gente tem na medicina \u00e9 que vai ter um pr\u00f3ximo paciente. Aquele que passa \u00e9 \u00fanico, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o \u00faltimo.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea falou dos pacientes que se v\u00e3o e, com certeza, isso \u00e9 um dos desafios. Ent\u00e3o, quanto a essas frustra\u00e7\u00f5es ou desafios, como conseguiu lidar?<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, durante a faculdade, a gente tinha uma mat\u00e9ria nos dois primeiros anos que se chama Habilidade de Comunica\u00e7\u00e3o, e tem tamb\u00e9m a parte de Psicologia, que s\u00e3o muito importantes, porque muita gente sabe lidar com a morte, por exemplo, s\u00f3 que muitas vezes voc\u00ea n\u00e3o sabe lidar com esse processo da morte, n\u00e9? N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o final, mas tem todo o meio. Tem o paciente, tem a fam\u00edlia, tem a equipe. Ent\u00e3o, desde o in\u00edcio da faculdade, a gente \u00e9 preparada para saber lidar tanto com o sofrimento do paciente quanto tamb\u00e9m com a fam\u00edlia. Mas, sinceramente, isso a\u00ed na vida real, a gente, ou eu, pelo menos, comecei a aprender mesmo quando me formei. Quando a gente forma, se torna respons\u00e1vel por aquele paciente. Querendo ou n\u00e3o, a nossa frustra\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma frustra\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Se para a fam\u00edlia est\u00e1 ruim, para n\u00f3s tamb\u00e9m est\u00e1, porque a fam\u00edlia perde um familiar e a gente perde um paciente, que \u00e9 uma pessoa que tem toda uma hist\u00f3ria. \u00c9 aquela frase: \u201co paciente n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um paciente; ele \u00e9 o amor da vida de algu\u00e9m\u201d. Ent\u00e3o, independentemente da pessoa, pode ser moradora de rua, pode n\u00e3o ter familiar, mas em algum momento ela teve uma m\u00e3e, teve um pai, teve amigos, teve filhos, algu\u00e9m ou algum animal que tivesse sentimento por ele. A pessoa nunca \u00e9 sozinha. E eu acho que isso, para mim, \u00e9 o mais complexo, porque vejo que n\u00e3o \u00e9 todo mundo que tem esse tipo de sensibilidade. \u00c9 a compaix\u00e3o, voc\u00ea se colocar no lugar do outro. N\u00e3o \u00e9 ter d\u00f3 da pessoa, porque d\u00f3, na minha opini\u00e3o, \u00e9 um sentimento triste. N\u00e3o \u00e9 d\u00f3, \u00e9 compaix\u00e3o. \u00c9 voc\u00ea se colocar no lugar do outro e entender o sofrimento dele e de todas as pessoas que est\u00e3o em volta dele. Mas \u00e9 muito frustrante. Tem v\u00e1rios tipos de perdas que s\u00e3o frustrantes, e n\u00e3o s\u00f3 no sentido de frustra\u00e7\u00e3o profissional, mas frustra\u00e7\u00e3o pessoal, porque, quando voc\u00ea se coloca no lugar do outro, voc\u00ea se imagina naquela situa\u00e7\u00e3o, imagina se fosse algum parente seu, imagina se fosse voc\u00ea. Ent\u00e3o, \u00e9 um tipo de frustra\u00e7\u00e3o pessoal, al\u00e9m da frustra\u00e7\u00e3o profissional de voc\u00ea n\u00e3o ter conseguido atingir o objetivo que \u00e9 salvar. Depois que a gente forma, muda muito essa concep\u00e7\u00e3o de que a medicina \u00e9 para salvar vidas. Nem sempre voc\u00ea salva. Muitas vezes, tamb\u00e9m \u00e9 aquela frase famosa: \u201cvoc\u00ea tenta curar, mas, quando n\u00e3o consegue, tenta dar um conforto, aliviar o sofrimento, que tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de salvar a pessoa\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2328\" aria-describedby=\"caption-attachment-2328\" style=\"width: 452px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2328\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Dani-3.jpeg\" alt=\"\" width=\"452\" height=\"803\" srcset=\"https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Dani-3.jpeg 452w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Dani-3-169x300.jpeg 169w\" sizes=\"auto, (max-width: 452px) 100vw, 452px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2328\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Todo mundo que \u00e9 internado, a gente nunca sabe se aquela pessoa vai sair&#8221;, afirma Daniela Arbache<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Antes de entrar na faculdade, voc\u00ea sentia um medo de n\u00e3o conseguir lidar com as preocupa\u00e7\u00f5es ou tinha alguma certeza de que conseguiria lidar com essas coisas?<\/strong><\/p>\n<p>Antes de entrar, com esse tipo de frustra\u00e7\u00e3o&#8230; N\u00e3o \u00e9 medo, n\u00e9? A gente sabe que vai chegar essa hora, s\u00f3 que a gente n\u00e3o sabe como vai reagir. S\u00f3 que a faculdade prepara muito. Na verdade, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 faculdade. Eu acho que \u00e9 cria\u00e7\u00e3o. Desde quando voc\u00ea \u00e9 pequeno, saber lidar com v\u00e1rios tipos de frustra\u00e7\u00f5es. O que eu acho muito legal da medicina e de toda a \u00e1rea da sa\u00fade \u00e9 que n\u00e3o existe julgamento. O seu julgamento pessoal, voc\u00ea n\u00e3o pode coloc\u00e1-lo em quest\u00e3o de forma alguma. Muitas vezes, a frustra\u00e7\u00e3o que a gente tem em outras \u00e1reas da nossa vida \u00e9 porque a gente coloca nosso julgamento pessoal naquilo. Na \u00e1rea da sa\u00fade, \u00e9 como se voc\u00ea tivesse que bloque\u00e1-lo. Voc\u00ea tem que ser muito profissional. Ent\u00e3o, isso ajuda um pouco a lidar com frustra\u00e7\u00f5es. Eu nunca tive nenhuma situa\u00e7\u00e3o em que fiquei com medo. N\u00e3o que eu tive medo. Eu j\u00e1 tive algum receio de parar e pensar: \u201ccomo que vou dar uma not\u00edcia para algu\u00e9m?\u201d, \u201ccomo que eu vou falar para um paciente grave que ele est\u00e1 grave e que tem risco de morrer?\u201d, \u201ccomo vou falar para um familiar que aquela pessoa nova, que tem 30 ou 20 e poucos anos, dali a algumas horas pode morrer?\u201d. O meu receio \u00e9 mais em pensar como que eu vou falar para a pessoa n\u00e3o sentir tanto do que com o fato em si, porque \u00e9 igual eu falei: muitas vezes, a morte \u00e9 um al\u00edvio, e n\u00e3o algo tr\u00e1gico.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Quais os seus principais objetivos ao exercer a medicina?<\/strong><\/p>\n<p>Objetivo&#8230; A cada dia a gente cria um objetivo novo. Eu n\u00e3o penso mais que essa profiss\u00e3o \u00e9 para salvar vidas, n\u00e3o \u00e9 isso. Mas \u00e9 voc\u00ea estar ali, pronto para fazer o que voc\u00ea pode fazer de melhor, da melhor maneira poss\u00edvel para aquela pessoa. A pessoa, quando est\u00e1 doente, quando tem qualquer tipo de sofrimento, de dor, de&#8230; enfim, quando tem algo que a leve a procurar um atendimento, ela \u00e9 muito vulner\u00e1vel. O meu objetivo maior \u00e9 sempre me superar no sentido de \u201ccomo eu vou cuidar daquela pessoa?\u201d, independentemente do que ela tenha. Seja algo s\u00f3 emocional, seja algo realmente f\u00edsico, algo org\u00e2nico, o meu objetivo sempre \u00e9 me superar. Eu aprender com o paciente para melhorar para o pr\u00f3ximo, melhorar para o pr\u00f3ximo&#8230; Quando eu errar, para aprender com o meu erro e melhorar, porque a gente erra, n\u00e9? Todo mundo \u00e9 sujeito a erro. Claro que algum erro m\u00e9dico \u00e9 grave e todo m\u00e9dico tem que pagar por ele mesmo, mas o importante \u00e9 voc\u00ea aprender com os seus erros. Ent\u00e3o, o meu objetivo \u00e9 esse: eu me superar cada dia mais para ser melhor cada vez mais.<\/p>\n<p><strong>Em um dia, quantas horas voc\u00ea cumpre no plant\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>O plant\u00e3o \u00e9 dividido, em padr\u00e3o, entre 6, 10, 12, 24, 36 ou 48 horas. Aqui na resid\u00eancia (S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Para\u00edso &#8211; MG), em que atuo tamb\u00e9m na linha de frente com o caso da Covid, geralmente a gente cumpre, durante uma semana, mais ou menos de 70 a 80 horas; a m\u00e9dia \u00e9 de 12 horas por dia, podendo chegar a 15. Em alguns per\u00edodos, dependendo da necessidade, um final de semana inteiro, por exemplo, \u00e9 de 24, 32, 36 horas, mas n\u00e3o menos do que 12.<\/p>\n<p><strong>Sobre a Covid-19, em m\u00e9dia, quantas pessoas com suspeita dessa doen\u00e7a s\u00e3o atendidas?<\/strong><\/p>\n<p>Depende muito de onde voc\u00ea est\u00e1 atuando. Quando voc\u00ea atua no pronto-atendimento, em Franca, por exemplo, a m\u00e9dia do que a gente atende nessa \u00e9poca de pandemia, contando em plant\u00e3o de 6 horas, eu e mais um colega ou dois, seria de mais ou menos 50 pacientes. Jogando isso para um plant\u00e3o de 12 horas, j\u00e1 d\u00e1 quase 80-100 pacientes. \u00c9 muita gente, n\u00e9? Agora, pensando aqui (S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Para\u00edso), em que atuo mais na enfermaria, os pacientes est\u00e3o internados, pacientes em CTI. A gente tem, atualmente, uma m\u00e9dia de 28 a 30 pacientes internados, suspeitos e confirmados; e o CTI com interna\u00e7\u00e3o sempre mantendo em torno de 12 a 15 pacientes internados. Ent\u00e3o, s\u00e3o contextos diferentes: um como o pronto-atendimento, outro como os pacientes internados.<\/p>\n<p><strong>Como s\u00e3o realizados o preparo e o cuidado para atender aos pacientes com coronav\u00edrus?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um protocolo de atendimento. Todo profissional de sa\u00fade tem que usar o equipamento de prote\u00e7\u00e3o individual. Inclusive, todo profissional de sa\u00fade que est\u00e1 atuando contra a Covid tem um tempo estabelecido para se preparar, ou seja, em uma situa\u00e7\u00e3o normal \u2013 vamos colocar o exemplo de uma emerg\u00eancia, em que o paciente se encontra em uma emerg\u00eancia \u2013, a gente iria na hora j\u00e1 para fazer o atendimento; no m\u00e1ximo, colocar uma m\u00e1scara, uma luva. Na Covid, a gente leva em torno de quase 5 minutos para se paramentar. E o que seria a paramenta\u00e7\u00e3o? A gente coloca aquele pijama cir\u00fargico, a equipe inteira tem que colocar; colocar um sapato fechado, prender o cabelo, colocar um gorro, colocar a m\u00e1scara N95, a m\u00e1scara cir\u00fargica em cima, colocar um capote \u2013 aquela roupa que a gente veste, de manga comprida \u2013, outro capote em cima, de duas a tr\u00eas luvas, prop\u00e9 \u2013 que a gente coloca no p\u00e9 \u2013, os \u00f3culos e a <em>face shield<\/em> \u2013 aquela m\u00e1scara facial. Leva em torno de uns 5 a 10 minutos para fazer tudo isso. Esse \u00e9 o preparo, o ritual. Tem que se preparar para entrar da mesma forma que tem que tomar muito cuidado na hora de retirar esses equipamentos, porque o m\u00ednimo descuido, principalmente na ordem de como vai retirar, voc\u00ea pode se contaminar. Ent\u00e3o, tem todo o passo a passo, tanto para colocar quanto para retirar. E, para cada paciente que atende, a gente tem que trocar toda a paramenta\u00e7\u00e3o. Eu falo que \u00e9 um ritual mesmo [risos]. O protocolo \u00e9 um ritual.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>E voc\u00eas tiveram treinamentos ou reuni\u00f5es, por exemplo, especificamente sobre a Covid-19 para tratar desses assuntos?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Todo hospital tem a Comiss\u00e3o (de Controle) de Infec\u00e7\u00e3o Hospitalar, que \u00e9 a CCIH, e toda equipe da CCIH treina, tanto aqui (S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Para\u00edso) quanto em Franca, no hospital. Eles fazem treinamento para ensinar a paramentar e para desparamentar, explicar todos os cuidados em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 higiene das m\u00e3os, os banhos, porque, toda vez que a gente tira toda essa paramenta\u00e7\u00e3o, a gente tem que tomar um banho. Isso tamb\u00e9m \u00e9 protocolo. Ent\u00e3o, tem treinamento para isso, da mesma forma que, falando de atendimento mesmo, como uma parada card\u00edaca, uma intuba\u00e7\u00e3o. Tudo isso tamb\u00e9m tem protocolo, tamb\u00e9m teve treinamento. Tem treinamentos praticamente semanais que a gente faz, que \u00e9 para todo mundo aprender e n\u00e3o perder nenhum passo, n\u00e3o errar para n\u00e3o ter risco de se contaminar.<\/p>\n<p><strong>Al\u00e9m do preparo profissional, houve mudan\u00e7as na estrutura f\u00edsica dos hospitais?<\/strong><\/p>\n<p>Tiveram. Vou falar daqui, principalmente. Aqui (Santa Casa de Miseric\u00f3rdia) \u00e9 um hospital que recebe uma regi\u00e3o de mais ou menos 100 hospitais. Da mesma forma que Franca. Geralmente, todo hospital p\u00fablico de uma cidade maior recebe os pacientes das cidades vizinhas. Ent\u00e3o aqui, quando come\u00e7ou a pandemia, o hospital foi todo reestruturado. Tiveram algumas mudan\u00e7as do funcionamento normal. Por exemplo: os ambulat\u00f3rios de todas as \u00e1reas foram suspensos, justamente para evitar aglomera\u00e7\u00e3o, evitar que pessoas saud\u00e1veis fossem at\u00e9 o hospital e tivessem risco de se contaminar. A gente teve que criar toda a estrutura de um novo CTI: al\u00e9m do CTI adulto, al\u00e9m do cardiol\u00f3gico, a gente criou o CTI de Covid. Tiveram que ser remanejadas as alas de interna\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, atualmente, a gente tem duas alas de interna\u00e7\u00e3o, que \u00e9 para Covid: uma \u00e1rea fica mais para conv\u00eanio, outra \u00e1rea que \u00e9 SUS. Tudo isso \u00e9 avaliado e reavaliado semanalmente. O hospital, desde o in\u00edcio, j\u00e1 passou por v\u00e1rias mudan\u00e7as. Quando lota, tem que abrir outra ala, tem que fazer todo esse remanejamento dos pacientes.<\/p>\n<p><strong>Nos hospitais, como os pacientes internados se sentem no combate ao coronav\u00edrus?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil. Todo paciente que interna n\u00e3o pode ficar com acompanhante. Numa ala de enfermaria, o paciente mais novo, que est\u00e1 est\u00e1vel, l\u00facido e orientado, geralmente fica com o celular. Consegue ter contato com a fam\u00edlia, fazer chamada de v\u00eddeo \u2013 ele por ele mesmo \u2013, ligar, mandar mensagem. Agora, quando o paciente \u00e9 mais idoso, \u00e0s vezes \u00e9 um pouco mais debilitado, ou, ent\u00e3o, um paciente novo que est\u00e1 mais debilitado n\u00e3o consegue ter esse acesso. Eu, que acompanho paciente de ala comum tamb\u00e9m, com outras doen\u00e7as, que ficam com acompanhante, e os pacientes que ficam internados na enfermaria de Covid, sem acompanhante, consigo ver que \u00e9 um sofrimento muito grande, tanto por parte deles quanto por parte das fam\u00edlias. Ficam muito angustiadas, querendo saber not\u00edcia, praticamente ligam todos os dias. Mesmo a gente fazendo, todos os dias, um boletim sobre o estado de sa\u00fade da pessoa, que \u00e9 passado para elas, \u00e9 uma ang\u00fastia muito grande. O que a gente faz para tentar amenizar um pouquinho \u00e9 fazer v\u00eddeo-chamada com o paciente. S\u00f3 que muitas vezes o paciente mais idoso, por exemplo, est\u00e1 muito debilitado. Est\u00e1 com m\u00e1scara de oxig\u00eanio, com sonda no nariz para alimenta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de conversar ou, ent\u00e3o, muitas vezes, ele j\u00e1 n\u00e3o conversava, j\u00e1 era um paciente mais grave. \u00c9 um sofrimento muito grande. Tanto que a gente v\u00ea que quando um paciente com suspeita \u00e0s vezes recebe um resultado negativo, que a gente retira ele do isolamento e vai pra ala comum, e a\u00ed sim o familiar come\u00e7a a acompanhar, a gente percebe uma melhora gigantesca, \u00e9 uma melhora muito significativa, pensando sobre o lado emocional. At\u00e9 porque, tamb\u00e9m, outra coisa que dificulta muito \u00e9 que o cuidado com a psic\u00f3loga, que \u00e9 praticamente uma rotina aqui no hospital. Dentro da enfermaria Covid, n\u00e3o tem essa possibilidade, porque a gente evita ao m\u00e1ximo a contamina\u00e7\u00e3o dos outros profissionais tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil, \u00e9 muito angustiante. A gente sabe que \u00e9 angustiante para o paciente, porque ele n\u00e3o sabe quanto tempo vai ficar l\u00e1, n\u00e3o conhece a doen\u00e7a. E \u00e9 angustiante para n\u00f3s, porque a gente tamb\u00e9m n\u00e3o sabe quanto tempo ele vai ficar l\u00e1 e tamb\u00e9m n\u00e3o conhece a doen\u00e7a, porque \u00e9 uma doen\u00e7a nova.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_2330\" aria-describedby=\"caption-attachment-2330\" style=\"width: 828px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2330\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Dani-5.jpeg\" alt=\"\" width=\"828\" height=\"839\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2330\" class=\"wp-caption-text\">Em plant\u00e3o na Unimed, em Franca: diariamente, ela v\u00ea fam\u00edlias angustiadas (Foto: Acervo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>J\u00e1 houve momentos nos quais voc\u00ea se surpreendeu ou se emocionou com as hist\u00f3rias de vida que os pacientes trazem consigo nos hospitais?<\/strong><\/p>\n<p>Muito, muito mesmo. \u00c9 praticamente di\u00e1rio. Quando a gente ouve a pessoa que est\u00e1 do outro lado \u00e9 que surpreende muito. \u00c9 aquilo que eu falei: muitas vezes, a gente tem um pr\u00e9-julgamento sobre aquela pessoa. Mesmo n\u00e3o podendo, muitas vezes tem. E quando come\u00e7a a conversar, a gente se surpreende mesmo com a hist\u00f3ria de vida. Eu tive um caso recente, que inclusive fiquei muito emocionada. O paciente at\u00e9 faleceu, mas era um paciente novo, 32 anos, chegou no plant\u00e3o muito grave, com insufici\u00eancia respirat\u00f3ria. E ele, com 32 anos, come\u00e7ou a me contar da vida dele. Falou que era pedreiro, que tinha esposa, tinha tr\u00eas filhos. Era muito forte, fazia fisiculturismo. S\u00f3 que ele descobriu um problema no cora\u00e7\u00e3o e teve que parar de fazer isso que ele gosta, teve que parar de trabalhar, aposentar. S\u00f3 que estava muito grave, e eu acho que ele n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o da gravidade em que se encontrava na hora que o recebi. E foi um paciente que, infelizmente, tive que mandar para o CTI. Infelizmente, ele n\u00e3o evoluiu bem, teve que ser intubado, teve parada card\u00edaca e faleceu, na mesma noite que o recebi. E, com ele, eu fiquei muito emocionada. Eu sabia que estava grave, mas \u00e9 aquele tipo de paciente que a gente reza, reza e reza para n\u00e3o acontecer o pior, e, infelizmente, aconteceu. Tem algumas coisas que deixam a gente muito chateada. E tamb\u00e9m foram outros, n\u00e3o s\u00f3 falando de Covid. Todo paciente tem uma hist\u00f3ria. Se a gente parar para ouvir essa hist\u00f3ria, se surpreende muito. E uma coisa que \u00e9 muito bacana \u00e9 que eu atendo paciente muito pobre, que n\u00e3o tem dinheiro mesmo, morador de rua. E atendo paciente que tem muito dinheiro. E da\u00ed a gente percebe que, quando a pessoa est\u00e1 doente, o dinheiro n\u00e3o faz diferen\u00e7a nenhuma. A gravidade de um quadro \u00e9 a mesma, a evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma. A equipe que cuida quer o bem da pessoa da mesma forma, seja ela rica, seja ela pobre. A gente percebe que os valores n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 dinheiro. Isso fica muito claro. Ent\u00e3o, se parar para ouvir, a gente descobre muita hist\u00f3ria bacana, muita hist\u00f3ria de vida boa, aprende muito tamb\u00e9m, n\u00e9? O paciente \u00e9 o melhor livro que existe. O melhor livro que existe \u00e9 ele. Nenhum livro substitui o contato do m\u00e9dico ou qualquer outro profissional da sa\u00fade com o paciente.<\/p>\n<p><strong>Ao chegar em casa, qual \u00e9 a sua rotina para evitar poss\u00edveis contamina\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 o ritual do protocolo Covid. Na verdade, tomo um banho no hospital, chego, entro no carro, passo \u00e1lcool em tudo \u2013 dentro do carro, chave, o que tenho contato \u2013, entro em casa, tiro o sapato, tiro toda a roupa contaminada na porta, jogo \u00e1lcool em tudo \u2013 chave, celular, o que eu tive contato nesse meio-tempo entre o hospital e a casa \u2013, vou direto para outro banho e, a\u00ed sim, coloco uma roupa para ficar \u00e0 vontade em casa. Em \u00e9poca de pandemia, a gente tem que considerar que tudo est\u00e1 contaminado. Por isso que eu acho muito bacana essa medida de seguran\u00e7a que os hospitais t\u00eam adotado, que \u00e9 n\u00e3o ficar com a sua roupa dentro do hospital. Voc\u00ea chega e troca de roupa para fazer os atendimentos, porque, com isso, preserva sua roupa limpa para chegar em casa at\u00e9 mais tranquilo. Mas, em \u00e9poca de pandemia, a gente tem que ter todo o cuidado. Todo cuidado \u00e9 pouco.<\/p>\n<p><strong>Quando vem para Franca, quais procedimentos voc\u00ea toma quando est\u00e1 perto da fam\u00edlia?<\/strong><\/p>\n<p>O que a gente est\u00e1 fazendo \u00e9 tentando manter um distanciamento, mas, como n\u00e3o tem jeito de eu ficar em outro lugar, n\u00e3o ficar em casa, que seria o ideal, \u00e9 evitar contato, seguir como se fosse uma rotina de um paciente em isolamento. Em alguns momentos, tive que usar m\u00e1scara, quando houve contato mais pr\u00f3ximo. Mas \u00e9 basicamente ficar isolado, chegar do hospital e tamb\u00e9m tomar esses mesmos cuidados, evitar contato f\u00edsico.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acredita que a Covid-19 trar\u00e1 mudan\u00e7as de comportamento das pessoas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade?<\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio, pensava que sim. Eu falava \u201cnossa, agora esse ano vai mostrar, vai ensinar muita gente a ter cuidado, tanto o cuidado pessoal quanto respeito ao pr\u00f3ximo. Eu chamo de responsabilidade social. Foi o que eu pensei logo no in\u00edcio, quando come\u00e7ou, porque vi que muitas pessoas, praticamente a maioria, estavam se adaptando mesmo, n\u00e9? Seguindo todas as orienta\u00e7\u00f5es do governo de ficar em casa, usar m\u00e1scara, passar \u00e1lcool, lavar as m\u00e3os. Mas, ao longo de todo esse tempo de isolamento social, vi que&#8230; Eu entendo o lado das pessoas. \u00c9 imposs\u00edvel voc\u00ea ficar isolado por tanto tempo, n\u00e9? J\u00e1 s\u00e3o meses de pandemia. Eu falo assim: o ser humano n\u00e3o nasceu para ficar sozinho. \u00c9 praticamente imposs\u00edvel. A gente precisa se relacionar. Mas fui percebendo e acredito que ter\u00e3o [mudan\u00e7as] sim, vai melhorar um pouco sim essa quest\u00e3o de responsabilidade social. Por\u00e9m, acho que \u00e9 uma coisa que tem que ser muito trabalhada ainda \u00e9 essa quest\u00e3o de comportamento. N\u00e3o acho que vai ser uma mudan\u00e7a de uma hora para outra. N\u00e3o acho que a pandemia vai revolucionar toda essa quest\u00e3o de respeito com o pr\u00f3ximo. A gente v\u00ea que muitas pessoas, infelizmente, ainda desrespeitam, porque o cuidado de usar uma m\u00e1scara, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 voc\u00ea pensar em voc\u00ea, \u00e9 voc\u00ea pensar no outro, principalmente porque existem muitas pessoas que est\u00e3o contaminadas e que n\u00e3o t\u00eam sintomas. A partir do momento em que voc\u00ea come\u00e7a a n\u00e3o pensar s\u00f3 em si, mas no outro, isso \u00e9 uma responsabilidade social. Voc\u00ea est\u00e1 sendo altru\u00edsta ao inv\u00e9s de ser ego\u00edsta. Ent\u00e3o, acho que n\u00e3o vai ser uma mudan\u00e7a radical. Acho que a gente ainda tem muito o que aprender, mas espero que, realmente, muitas pessoas tirem uma li\u00e7\u00e3o de tudo isso. Pelo menos de ter esse cuidado, de pensar no pr\u00f3ximo. Literalmente pensar no pr\u00f3ximo, porque, muitas vezes, a gente quer muito fazer uma coisa e deixa de fazer n\u00e3o pensando na gente. Para uma pessoa nova, uma pessoa jovem, o risco dela se contaminar e de ser um quadro grave \u00e9 baixo. Mas e se ela tem contato com uma pessoa idosa? Pode passar para aquela pessoa idosa que, infelizmente, n\u00e3o vai ter o mesmo desfecho. Ent\u00e3o, n\u00e3o acho que teve uma mudan\u00e7a t\u00e3o importante. Acho que \u00e9 uma coisa que ainda vai ser muito trabalhada ao longo do tempo.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Na sua opini\u00e3o, quais orienta\u00e7\u00f5es devem ser repensadas para conscientizar as pessoas durante esse per\u00edodo?<\/strong><\/p>\n<p>Em \u00e9poca de pandemia, quais s\u00e3o as orienta\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas? Primeira coisa: usar a m\u00e1scara. Porque n\u00e3o \u00e9 uma prote\u00e7\u00e3o [\u00eanfase] sua, \u00e9 uma prote\u00e7\u00e3o sua e do pr\u00f3ximo. Ent\u00e3o, m\u00e1scara \u00e9 o principal. Em rela\u00e7\u00e3o a isolamento social, o que que seria esse isolamento? Claro que, em algumas cidades, o n\u00famero de casos vem diminuindo e os lugares come\u00e7am a abrir, n\u00e9? N\u00e3o \u00e9 que est\u00e1 proibido frequentar esses lugares, mas \u00e9 voc\u00ea ter a consci\u00eancia de que, se for sair, evitar ficar encontrando pessoas que n\u00e3o s\u00e3o do seu c\u00edrculo de amizades. Se a cidade permitir, estiverem liberados alguns bares, alguns lugares, frequente, mas tomando todo o cuidado. V\u00e1 de m\u00e1scara, s\u00f3 tire quando for comer. Se voc\u00ea est\u00e1 com sintomas, espirrando, tossindo, n\u00e3o saia de casa. A gente v\u00ea muitas pessoas que s\u00e3o sintom\u00e1ticas, que s\u00e3o [\u00eanfase] positivas, saindo de casa. V\u00e3o no mercado, v\u00e3o na padaria, v\u00e3o na farm\u00e1cia. Tudo isso \u00e9 responsabilidade social mesmo. Ent\u00e3o, principalmente, \u00e9 voc\u00ea pensar no pr\u00f3ximo. Pensar \u201co que eu gostaria que fizessem por mim? \u00c9 isso o que eu vou fazer pelo outro tamb\u00e9m\u201d.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Como profissional e como uma poss\u00edvel paciente, porque voc\u00ea tamb\u00e9m corre muito risco, quando v\u00ea algu\u00e9m sem m\u00e1scara, tem alguma diferen\u00e7a nessas duas vis\u00f5es, voc\u00ea como m\u00e9dica e como poss\u00edvel paciente?<\/strong><\/p>\n<p>Na verdade, a vis\u00e3o \u00e9 a mesma. [Pensativa] Como que eu falo? Quando a gente olha uma pessoa \u2013 n\u00e3o \u00e9 nem um paciente, uma pessoa \u2013 na rua, sem a m\u00e1scara, a sensa\u00e7\u00e3o que d\u00e1 \u00e9 &#8220;bom, em primeiro lugar, ela n\u00e3o pensa nela mesma&#8221;. Em segundo lugar, &#8220;ela n\u00e3o est\u00e1 pensando no pr\u00f3ximo&#8221;, seja eu o pr\u00f3ximo, seja qualquer outra pessoa. \u00c9 um sentimento de descuido, de ego\u00edsmo. E como profissional, gra\u00e7as a Deus, dentro do hospital, por ter protocolo, \u00e9 diferente na rua, se voc\u00ea est\u00e1 numa padaria, numa farm\u00e1cia. Dentro do hospital, \u00e9 um protocolo. A gente tem autonomia de chegar para aquela pessoa e exigir que ela use aquela m\u00e1scara. Inclusive, como \u00e9 \u00e9poca de pandemia, a gente pode recusar o atendimento. \u00c9 direito do m\u00e9dico, do enfermeiro, de toda a equipe. Recusar a fazer um atendimento se a pessoa n\u00e3o estiver seguindo as normas do hospital. Ent\u00e3o, como profissional dentro de um hospital, tenho autonomia para pedir para que aquela pessoa coloque a m\u00e1scara, respeite as regras, ou que ela se retire do hospital. Agora, na rua, n\u00e3o tenho essa autonomia de chegar numa pessoa e exigir que ela use uma m\u00e1scara. Por\u00e9m, como profissional, eu tenho a responsabilidade social de fazer esse tipo orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>No hospital, voc\u00ea j\u00e1 viu algo assim acontecer? J\u00e1 presenciou algu\u00e9m que estava sem a m\u00e1scara e recebeu alguma orienta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, j\u00e1 vi muito. Inclusive, quando eu estava no posto de sa\u00fade, j\u00e1 aconteceu de uma paciente chegar para ser atendida e estar sem m\u00e1scara, e, quando a gente solicitou que colocasse, ela se recusou. Ent\u00e3o, por seguran\u00e7a minha e de toda a equipe, n\u00f3s nos recusamos a atend\u00ea-la e ela foi embora. \u00c9 regra: regra \u00e9 regra e n\u00e3o tem exce\u00e7\u00e3o, principalmente em \u00e9poca de pandemia. As regras s\u00e3o muito r\u00edgidas. Todas as pessoas que transitam no hospital t\u00eam que ter m\u00e1scara. Dentro de hospital, tem muitas regras, at\u00e9 mesmo, por exemplo, em um refeit\u00f3rio, que tem o distanciamento. N\u00e3o pode sentar pr\u00f3ximo a outras pessoas como acontece em uma \u00e9poca normal. Voc\u00ea evita aglomera\u00e7\u00e3o. Em quest\u00e3o de acompanhante, mesmo nas alas comuns, de outras doen\u00e7as, agora n\u00e3o existe mais aquela troca de acompanhante que poderia acontecer. \u00c9 muito r\u00edgido. Idoso n\u00e3o pode mais acompanhar outra pessoa, porque o risco \u00e9 muito grande. Gestantes tiveram que ser afastadas. Pessoas idosas foram afastadas do trabalho para evitar contamina\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, \u00e9 regra. Dentro do hospital, existe regra e existe protocolo. Fora do hospital, \u00e9 aquela orienta\u00e7\u00e3o que a gente, como profissional de sa\u00fade, tem que fazer com outras pessoas.<\/p>\n<p><strong>Com qual olhar voc\u00ea gostaria de enxergar o futuro p\u00f3s-pandemia?<\/strong><\/p>\n<p>Bom, [risada] o futuro p\u00f3s-pandemia, n\u00e9? Estou esperando ansiosamente por essa vacina, mas acredito que ainda vai demorar um tempo. Depende muito da cidade, da regi\u00e3o do pa\u00eds. Em alguns lugares, os casos est\u00e3o mais est\u00e1veis, j\u00e1 diminuiu muito a quantidade de casos. Ent\u00e3o, conseguiram abrir um pouco mais a cidade, abrir o com\u00e9rcio, restaurantes, enfim. Mas o futuro p\u00f3s-pandemia&#8230; Eu acho que a gente vai aprender muito com ela. Acho que mostrou para o Brasil que falta muita coisa, pensando no sistema de sa\u00fade, principalmente no sistema p\u00fablico de sa\u00fade. Tem muita coisa para melhorar ainda. O Brasil n\u00e3o \u00e9 estruturado para atender pacientes graves. Isso, para mim, foi o principal: de faltar equipamento, de faltar medica\u00e7\u00e3o, de faltar instrumentos para alguns procedimentos que s\u00e3o necess\u00e1rios. A gente sabe que, infelizmente, muitas pessoas morrem, porque \u00e9 uma doen\u00e7a s\u00e9ria, por\u00e9m muitas pessoas morreram porque falta equipamento. Isso \u00e9 uma verdade, \u00e9 um fato. Para mim, o que mostrou foi isso. Espero que no futuro p\u00f3s-pandemia, as autoridades do governo possam repensar melhor essa situa\u00e7\u00e3o. E outra coisa que acho que \u00e9 muito importante e a gente, desde agora, recebe muito <em>feedback<\/em>, \u00e9 que as pessoas valorizarem mais os profissionais de sa\u00fade. N\u00e3o s\u00f3 m\u00e9dico, porque m\u00e9dico, culturalmente, j\u00e1 tem um valor, mas, principalmente, a equipe da enfermagem, a equipe de fisioterapeutas, os seguran\u00e7as, profissionais de limpeza&#8230; S\u00e3o pessoas que est\u00e3o ali todos os dias. Muitas vezes, n\u00e3o est\u00e3o nos holofotes, mas, sem elas, o hospital n\u00e3o funciona. Da mesma forma que um m\u00e9dico tem que se paramentar inteiro para atender um paciente, um profissional de limpeza tem que se paramentar inteiro e limpar todo aquele quarto ou ambiente para receber outro paciente. \u00c9 puxado quanto. O cargo de um \u00e9 puxado quanto o cargo de outro. Gra\u00e7as a Deus, a gente tem recebido [\u00eanfase] muito <em>feedback <\/em>bom, de muitas fam\u00edlias, mesmo as de pacientes que faleceram, infelizmente, de falar \u201cvoc\u00eas est\u00e3o de parab\u00e9ns, \u00e9 um tipo de servi\u00e7o que eu n\u00e3o me imagino fazendo; \u00e9 muito dif\u00edcil, agora estou enxergando o lado de voc\u00eas\u201d. E assim, todo profissional que atua na linha de frente pensa em si mesmo \u2013 claro, toma cuidado por ele mesmo \u2013, mas tamb\u00e9m pela fam\u00edlia. Todo mundo tem uma fam\u00edlia. Todo mundo tem medo de chegar em casa, contaminar o familiar e ser o respons\u00e1vel por um quadro grave de uma pessoa da fam\u00edlia. Uma coisa que eu achei interessante, n\u00e3o s\u00f3 aqui, mas em algumas cidades do pa\u00eds, \u00e9 que muitos hot\u00e9is e pousadas est\u00e3o oferecendo, de gra\u00e7a, hospedagem para pessoas que atuam na linha de frente, justamente para evitar que elas voltem para casa e que possam contaminar os familiares. \u00c9 uma forma muito bacana de ajudar, de valorizar quem est\u00e1 ali. Acho que tem muita coisa no futuro para a gente aprender, mas tamb\u00e9m entendo que \u00e9 uma pandemia como muitas outras que j\u00e1 tiveram no Brasil e no mundo, e que vai passar. A vida vai voltar ao normal. [Sorriso] O que a gente n\u00e3o sabe ainda \u00e9 o que \u00e9 esse novo normal que vai ser a vida, mas acredito que, com isso, a gente vai aprender muito. Outra coisa, no futuro, que eu espero, \u00e9 que tenha uma valoriza\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m, [\u00eanfase] da ci\u00eancia, [\u00eanfase] da pesquisa. Tudo isso s\u00f3 serviu para mostrar o tanto que \u00e9 importante voc\u00ea investir em pesquisa, em ci\u00eancia, nas universidades p\u00fablicas, porque, em uma crise dessas, s\u00e3o eles que est\u00e3o trabalhando para descobrir, de fato, uma cura. Todos os outros profissionais est\u00e3o trabalhando, fazendo o que podem, diante de uma doen\u00e7a que a gente ainda n\u00e3o conhece, que n\u00e3o tem tratamento. Mas os pesquisadores est\u00e3o l\u00e1 para achar a cura mesmo. Para definir o que \u00e9 aquela doen\u00e7a e como vai ser curada. Ent\u00e3o, eu acho que em muitas partes, em muitos \u00e2mbitos, ter\u00e1 uma valoriza\u00e7\u00e3o muito grande.<\/p>\n<p><strong>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas experi\u00eancias profissionais e o seu conhecimento de mundo, quais s\u00e3o as li\u00e7\u00f5es de vida que voc\u00ea aprendeu e levar\u00e1 consigo, daqui em diante, no ramo da medicina?<\/strong><\/p>\n<p>Olha, o que eu mais passo aqui, com os pacientes, \u00e9 realmente compaix\u00e3o, de voc\u00ea se colocar no lugar do outro. \u00c9 muito dif\u00edcil voc\u00ea entrar em um hospital, entrar em um quarto que tem um paciente grave e est\u00e1 sozinho, porque n\u00e3o pode ficar algu\u00e9m e n\u00e3o tem a disponibilidade de ficar algum profissional da sa\u00fade o tempo todo com ele. \u00c9 muito dif\u00edcil. \u00c9 angustiante. Ent\u00e3o, o que a gente pensa \u00e9 compaix\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 com o paciente, mas com a fam\u00edlia. \u00c9 muito dif\u00edcil voc\u00ea lidar com o sofrimento dela, porque voc\u00ea tem que, o tempo todo, se colocar no lugar. Pensar \u201cse fosse algu\u00e9m da sua fam\u00edlia, como voc\u00ea gostaria de receber uma not\u00edcia?\u201d, \u201cse fosse algu\u00e9m da sua fam\u00edlia, voc\u00ea iria querer saber o que que est\u00e1 acontecendo com aquele familiar seu?\u201d. Por\u00e9m, muitas vezes, aquela fam\u00edlia que est\u00e1 ali querendo uma informa\u00e7\u00e3o \u00e9 leiga. A gente n\u00e3o pode simplesmente jogar uma informa\u00e7\u00e3o. Esse contato \u00e9 muito dif\u00edcil, mas, da mesma forma que \u00e9 muito gratificante, \u00e9 maravilhoso voc\u00ea conseguir dar alta para um paciente. Voc\u00ea liberar o paciente para casa, com ele bem, [sorriso] ver os familiares todos ali, esperando-o chegar. \u00c9 muito lindo. Voc\u00ea consegue ver aquele amor puro [sorriso]. \u00c9 muito bonito. E tamb\u00e9m, em rela\u00e7\u00e3o a quando uma pessoa morre. Seguindo o protocolo, que isso eu acho muito triste, quando uma pessoa morre como caso suspeito, infelizmente a fam\u00edlia n\u00e3o pode fazer um vel\u00f3rio. E somente uma pessoa pode entrar no quarto. Ela se paramenta inteira e tem direito a ver o seu familiar pela \u00faltima vez. E \u00e9 muito dif\u00edcil. Nossa, isso eu acho muito dif\u00edcil, n\u00e9? A pessoa entrar, olhar e n\u00e3o pode tocar, n\u00e3o pode abra\u00e7ar. E, dali, ela ser\u00e1 colocada em um saco preto e levada direto para o enterro, sem vel\u00f3rio, sem a chance da fam\u00edlia se despedir. Ent\u00e3o, todo mundo que entra, todo mundo que \u00e9 internado, a gente nunca sabe se aquela pessoa vai sair. No momento da interna\u00e7\u00e3o \u2013 quando a gente recebe o paciente em um plant\u00e3o e ele est\u00e1 sendo levado para a interna\u00e7\u00e3o \u2013, \u00e9 muito dif\u00edcil voc\u00ea ver aquilo que pode ser um adeus da fam\u00edlia com a pessoa. Isso \u00e9 muito triste. Muitas vezes \u00e9 uma pessoa nova, que chega bem, mas infelizmente morre. Eu falo assim: a gente nunca sabe quando vai ser o adeus. A gente tenta ao m\u00e1ximo preparar essa situa\u00e7\u00e3o, mas infelizmente \u00e9 muito incerto.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2329\" aria-describedby=\"caption-attachment-2329\" style=\"width: 816px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2329\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Dani-4.jpeg\" alt=\"\" width=\"816\" height=\"617\" srcset=\"https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Dani-4.jpeg 816w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Dani-4-300x227.jpeg 300w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Dani-4-768x581.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 816px) 100vw, 816px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2329\" class=\"wp-caption-text\">Foto de formatura: &#8220;Medicina n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 salvar vidas. Nem sempre voc\u00ea salva&#8221; (Foto: Acervo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A m\u00e9dica Daniela Arbache Paulino atua no combate \u00e0 Covid-19 e reflete sobre as experi\u00eancias que a pandemia trouxe<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2324,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-2318","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-genios-anonimos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2318","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2318"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2318\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2338,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2318\/revisions\/2338"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2324"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2318"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2318"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2318"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}