{"id":2151,"date":"2021-03-15T19:13:11","date_gmt":"2021-03-15T19:13:11","guid":{"rendered":"https:\/\/agendasette.com.br\/?p=2151"},"modified":"2021-03-25T20:21:56","modified_gmt":"2021-03-25T20:21:56","slug":"pessoal-ficou-apavorado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agendasette.com.br\/?p=2151","title":{"rendered":"&#8220;Pessoal apavorado&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><em>Auxiliar de enfermagem de Franca conta como a pandemia de Covid-19 afetou o psicol\u00f3gico dos profissionais de sa\u00fade<\/em><!--more--><\/p>\n<p><strong>Salom\u00e3o Rodrigues<\/strong><\/p>\n<p><strong>Foto acima: K\u00e1tia viu profissionais de sa\u00fade que, por causa da press\u00e3o no dia a dia do trabalho, deixaram o servi\u00e7o (Banco de imagens)<\/strong><\/p>\n<p>A auxiliar de enfermagem K\u00e1tia Ester Aparecido de Oliveira est\u00e1 na linha de frente do combate \u00e0 Covid-19. Atendendo na Unidade B\u00e1sica de Sa\u00fade (UBS) do Jardim Paulista, em Franca, desde 2017, para a qual foi convocada por concurso p\u00fablico, diz que a \u00e1rea de sa\u00fade da cidade enfrentou dois momentos bastante distintos com a pandemia: primeiro, houve uma desconfian\u00e7a se a doen\u00e7a realmente existia ou se era politicagem. Depois, bateu o pavor. Alguns m\u00e9dicos n\u00e3o queriam nem atender, com medo da contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela se formou em 2001, mas, como estava gr\u00e1vida na \u00e9poca, s\u00f3 come\u00e7ou a trabalhar na \u00e1rea em 2005, quando entrou, tamb\u00e9m, no curso t\u00e9cnico de enfermagem no Senac. Em outubro daquele ano, passou a fazer parte do corpo de profissionais da Santa Casa. J\u00e1 em 2006, encararia uma dupla jornada, j\u00e1 que foi contratada, tamb\u00e9m, para atuar por um ano em um hospital particular.<\/p>\n<p>Em 2014, ficou sabendo da aprova\u00e7\u00e3o para o Hospital das Cl\u00ednicas (HC) de Ribeir\u00e3o Preto, mas preferiu permanecer em Franca. Dois anos depois, teria uma dupla conquista: o in\u00edcio da faculdade de Psicologia e a convoca\u00e7\u00e3o, por um ano, para o Pronto Socorro \u00c1lvaro Azzuz.<\/p>\n<p>Em 2017, pediu demiss\u00e3o da Santa Casa, por causa da dificuldade de conciliar emprego, vida pessoal e estudos. Mas, em dezembro, veio nova aprova\u00e7\u00e3o em concurso, dessa vez para a UBS do Jardim Paulista, onde est\u00e1 at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Nessa entrevista, ela revela um pouco de sua hist\u00f3ria de vida, as diferen\u00e7as entre institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas e como est\u00e1 o enfrentamento da Covid-19. Confira os principais trechos.<\/p>\n<p><strong>Durante sua vida profissional, j\u00e1 teve experi\u00eancias tanto em institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablicas quanto particulares. Quais as principais diferen\u00e7as entre uma e outra? <\/strong><\/p>\n<p>Olha, apesar de os funcion\u00e1rios serem praticamente os mesmos, na sa\u00fade privada voc\u00ea trabalha n\u00e3o somente pra seguir os protocolos da institui\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea trabalha tamb\u00e9m para aquele usu\u00e1rio. Ent\u00e3o, muitas vezes, tem ofensa, certo ass\u00e9dio moral e voc\u00ea tem que estar sorridente. E, muitas vezes, o funcion\u00e1rio n\u00e3o tem respaldo. A diferen\u00e7a do p\u00fablico para o privado \u00e9 que voc\u00ea tem respaldo. No p\u00fablico, quando tem alguma percep\u00e7\u00e3o do seu superior que h\u00e1 alguma coisa, que tem alguma insatisfa\u00e7\u00e3o do cliente e que ele est\u00e1 sendo ofensivo com algum funcion\u00e1rio, procura conversar com o cliente, com o paciente que est\u00e1 ali na institui\u00e7\u00e3o, procurando analisar qual que \u00e9 a queixa, orientar e conversar sobre o servi\u00e7o que \u00e9 prestado. No privado n\u00e3o. O cliente sempre tem raz\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>E \u00e9 muito grande a diferen\u00e7a? <\/strong><\/p>\n<p>Sim&#8230; Hoje em dia, j\u00e1 deu uma mudada, mas, no per\u00edodo em que trabalhei no privado, era muito presente esse tipo de ocorr\u00eancia. Hoje, as pessoas est\u00e3o mais esclarecidas e valorizando um pouco mais. Na sa\u00fade p\u00fablica, geralmente, o profissional tem uma estabilidade maior. Porque, se trabalhar bem, garante seu emprego. Na privada, nem sempre. Mesmo ele sendo bom profissional, se, em algum momento, desagradar de alguma forma ou fugir da conduta, mesmo que ele tenha uma justificativa plaus\u00edvel, muitas vezes ele vai ser retirado.<\/p>\n<p><strong>E a remunera\u00e7\u00e3o \u00e9 parecida?<\/strong><\/p>\n<p>Os sal\u00e1rios n\u00e3o eram diferentes n\u00e3o. O que mudava eram os benef\u00edcios. Na privada, havia benef\u00edcios. Na p\u00fablica, n\u00e3o. Atualmente, na Santa Casa, o pessoal recebe um vale alimenta\u00e7\u00e3o simb\u00f3lico, mas precisa seguir algumas regras. Pra ter um vale alimenta\u00e7\u00e3o de sessenta reais, n\u00e3o pode ter falta, n\u00e3o pode ter atestado e n\u00e3o pode chegar atrasado. Est\u00e1 vendo? \u00c9 um benef\u00edcio muito simb\u00f3lico mesmo. E mesmo isso est\u00e1 sendo de 2018 pra c\u00e1. Antes, n\u00e3o tinha. Trabalhei 12 anos l\u00e1 e n\u00e3o tinha benef\u00edcios assim.<\/p>\n<p><strong>Nesses doze anos trabalhando na Santa Casa de Franca, na sua percep\u00e7\u00e3o, ela \u00e9 bem estruturada, recebe o suporte das autoridades de maneira a suprir todas as necessidades ou falta muita coisa?<\/strong><\/p>\n<p>Era muito de \u00e9poca. Teve uma \u00e9poca que tinha material \u00e0 vontade. S\u00f3 que, mesmo assim, \u00e9 preciso garantir um bom uso. Ent\u00e3o, com o tempo, foram se estabelecendo regras para que os materiais fossem utilizados de maneira adequada, para que n\u00e3o viesse a faltar. Mas tinha uma limita\u00e7\u00e3o sim. Porque a popula\u00e7\u00e3o que \u00e9 atendida \u00e9 uma popula\u00e7\u00e3o mais carente. Tem pessoas com um pouquinho mais de condi\u00e7\u00e3o? Tem. Mas tem muita gente que n\u00e3o tem. Ent\u00e3o, antigamente, a gente n\u00e3o tinha fraldas e depois passou a ter. Eu falo que \u00e9 tudo uma quest\u00e3o de administra\u00e7\u00e3o. Tivemos momentos muito bons e tamb\u00e9m momentos de mais dificuldades. N\u00e3o \u00e9 uma constante. Vai muito de como \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica atual.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea sempre se viu na \u00e1rea da sa\u00fade?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. Trabalhei muitos anos como coladeira de pe\u00e7as [no setor cal\u00e7adista\/. A\u00ed, depois resolvi&#8230; A minha irm\u00e3 tamb\u00e9m \u00e9 da \u00e1rea da enfermagem. Quando ela come\u00e7ou, me interessei e fui fazer o curso. Quando terminei, estava gestante e optei por continuar no segmento em que estava mesmo. Em 2005, comecei a trabalhar na \u00e1rea de sa\u00fade e gosto bastante. Mesmo hoje estando terminando a faculdade, optando por fazer Psicologia, me vejo na \u00e1rea da sa\u00fade. \u00c9 uma \u00e1rea que gosto.<\/p>\n<p><strong>E Psicologia acaba sendo, tamb\u00e9m, da \u00e1rea da sa\u00fade&#8230; <\/strong><\/p>\n<p>Tem muito a ver. Eu falo assim: no dia a dia, em que voc\u00ea faz o atendimento de pacientes no sofrimento, come\u00e7a a perceber como as quest\u00f5es psicol\u00f3gicas est\u00e3o envolvidas. A maior parte do tempo em que trabalhei na Santa Casa, tratei de casos mais distintos, mas, a partir do momento em que fui trabalhar no Pronto Socorro, que era uma realidade que n\u00e3o conhecia, muito distante do que estava acostumada, comecei a ver como as somatiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o frequentes. Como \u00e9 gritante esse pedido de socorro, como o psicol\u00f3gico das pessoas est\u00e1 afetado e como isso se manifesta nas doen\u00e7as f\u00edsicas e nas doen\u00e7as mentais. \u00c9 muito interessante, pra quem gosta e tem mais esse olhar de ver al\u00e9m da doen\u00e7a, quando voc\u00ea come\u00e7a a ver isso. E mesmo hoje trabalhando na aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, tem muita gente que ainda apresenta, que somatiza algumas quest\u00f5es. Ent\u00e3o, vejo muito paciente com hipertens\u00e3o em que se v\u00ea que \u00e9 simplesmente por quest\u00f5es emocionais.<\/p>\n<p><strong>A \u00e1rea da Psicologia da Sa\u00fade \u00e9 uma das que mais carecem de profissionais na esfera p\u00fablica, n\u00e9? <\/strong><\/p>\n<p>Vem crescendo. As pessoas j\u00e1 veem a import\u00e2ncia desse profissional, mas, ao mesmo tempo, acho n\u00e3o sabem como \u00e9 amplo esse trabalho. Ainda acham que o psic\u00f3logo \u00e9 cl\u00ednico, que s\u00f3 tem que atender individualmente, enquanto \u00e9 muito mais amplo que isso, como os atendimentos em grupo, quando se trabalha com preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as e promo\u00e7\u00e3o de sa\u00fade. Desejo que cres\u00e7a, muito, porque \u00e9 ainda muto carente. Mas existem muitos projetos que t\u00eam se expandido. Tenho participado de algumas reuni\u00f5es sobre a sa\u00fade mental e vejo que falta, \u00e0s vezes, um pouco de investimento. Muitas vezes, eles [autoridades] querem que seja feito um trabalho, mas n\u00e3o querem capacitar nem os que j\u00e1 est\u00e3o na \u00e1rea. Querem que outros profissionais assumam uma fun\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 deles. H\u00e1 algum tempo, queriam que aumentasse o n\u00famero de grupos na rede para trabalhar essas quest\u00f5es emocionais, as quest\u00f5es de orienta\u00e7\u00e3o e tudo mais. Surgiu muito interesse dos profissionais da pr\u00f3pria Psicologia. Mas, quando foram fazer uma planilha para somar os gastos, desistiram. Falta um pouco de interesse.<\/p>\n<p><strong>Mesmo sendo uma \u00e1rea que exige tanta responsabilidade?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Por isso, costumamos dizer: enfermagem at\u00e9 que algo melhor nos separe. \u00c9 uma \u00e1rea que exige muito e remunera pouco. Vejo isso muito pelo perfil dos funcion\u00e1rios. S\u00e3o muitas pessoas sozinhas. Um grande n\u00famero de profissionais tem problemas de relacionamento. A grande maioria \u00e9 separada.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2153\" aria-describedby=\"caption-attachment-2153\" style=\"width: 591px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2153\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Foto-1.jpeg\" alt=\"\" width=\"591\" height=\"1195\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2153\" class=\"wp-caption-text\">K\u00e1tia trabalhou por 12 anos na Santa Casa de Franca (Foto: Acervo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>O que mudou na sua rotina profissional depois que come\u00e7ou a pandemia?<\/strong><\/p>\n<p>Pra enfermagem, mudou pouca coisa, porque os atendimentos continuam sendo prestados normalmente, como vacina, medica\u00e7\u00e3o, curativos, alguma orienta\u00e7\u00e3o&#8230; O que mudou \u00e9 que as consultas s\u00e3o feitas em n\u00famero reduzido. E os pacientes n\u00e3o est\u00e3o tendo o acompanhamento ambulatorial. Voc\u00ea colhe a queixa, analisa a necessidade e orienta. T\u00eam pacientes que precisam mesmo e os m\u00e9dicos fazem o atendimento. Mas, at\u00e9 pouco tempo, n\u00e3o se fazia atendimento de foram alguma. Fazia-se a orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Mas quando come\u00e7ou a pandemia voc\u00eas tiveram algum treinamento ou j\u00e1 eram medidas que faziam parte da rotina?<\/strong><\/p>\n<p>Os EPIs [Equipamentos de Prote\u00e7\u00e3o Individual] j\u00e1 fazem parte da rotina mesmo. O uso da luva, do avental em alguns procedimentos, isso \u00e9 de extrema necessidade. A m\u00e1scara era mais quando tinha algum risco com secre\u00e7\u00f5es. N\u00e3o fazia parte da nossa rotina. A gente tem material dispon\u00edvel, nunca teve falta de material n\u00e3o. Sinceramente, a gente nunca teve falta de EPI. Mas n\u00e3o era t\u00e3o frequente o uso porque era analisado conforme a necessidade. Ent\u00e3o, a luva, a gente sempre usou. O jaleco descart\u00e1vel, de acordo com a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, nunca faltou material pra voc\u00eas? Houve boatos sobre a falta de m\u00e1scaras e \u00e1lcool em gel. Isso voc\u00ea nunca presenciou?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. De verdade n\u00e3o. Tinha coisa que a gente n\u00e3o tinha muito porque n\u00e3o usava tanto. Ent\u00e3o, foi necess\u00e1rio fazer um ajuste conforme a necessidade. O \u00e1lcool em gel, por exemplo, era usado antes, mas numa menor escala. N\u00e3o t\u00ednhamos o h\u00e1bito de usar tanto. O \u00e1lcool 70% era o mais utilizado. A partir do momento em que foi feito esse protocolo de atendimento, foram realizados esses ajustes. Pra m\u00e1scara tamb\u00e9m. O gerenciamento das unidades faz um protocolo pra ser seguido por todos. Um manual de como vai ser prestado os atendimentos e o que \u00e9 necess\u00e1rio. A rede tenta fazer com que seja falada a mesma l\u00edngua. Qualquer mudan\u00e7a que tiver na sa\u00fade p\u00fablica \u00e9 passada para as unidades de acordo com o servi\u00e7o, se \u00e9 prim\u00e1rio ou secund\u00e1rio. Ent\u00e3o, as orienta\u00e7\u00f5es s\u00e3o as mesmas para todo mundo.<\/p>\n<p><strong>Chegam muitas pessoas desorientadas na UBS com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia? Voc\u00ea acredita que havia informa\u00e7\u00e3o suficiente ou as pessoas ainda est\u00e3o meio perdidas? <\/strong><\/p>\n<p>O pessoal ficou bastante apavorado, at\u00e9 na classe m\u00e9dica. A histeria que vi mesmo foi na classe m\u00e9dica. A popula\u00e7\u00e3o chega? Chega sim, porque s\u00e3o muitas informa\u00e7\u00f5es de uma doen\u00e7a nova e por muito tempo se questionava se aquilo era real ou se era pol\u00edtica. Na verdade, levou um per\u00edodo pra come\u00e7ar a ter morte. Ent\u00e3o, como come\u00e7ou pouco a pouco, muita gente n\u00e3o acreditava ainda que aquilo fosse real.<\/p>\n<p><strong>Tanto por parte de pacientes quanto de m\u00e9dicos?<\/strong><\/p>\n<p>Tanto de paciente e at\u00e9 da gente da enfermagem. Porque a aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica n\u00e3o est\u00e1 na linha de frente. Como tenho a minha irm\u00e3 e meu cunhado que trabalham no Pronto Socorro, as maiores informa\u00e7\u00f5es a gente tinha deles, que diziam que as pessoas n\u00e3o t\u00eam no\u00e7\u00e3o de como est\u00e3o as coisas. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais grave do que as pessoas imaginam. Os n\u00fameros s\u00e3o maiores. O n\u00famero de pacientes que t\u00eam testado positivo \u00e9 maior.<\/p>\n<p><strong>No come\u00e7o, n\u00e3o havia tantos testes. Houve muita subnotifica\u00e7\u00e3o no n\u00famero de casos?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9, \u00e9 tudo muito novo. N\u00e3o havia muitas informa\u00e7\u00f5es de como [a doen\u00e7a] agia, de como que era. Foi ficando tudo meio que no ar. Conforme iam chegando as informa\u00e7\u00f5es, a gente ia ajustando. Mas o que chamou mais aten\u00e7\u00e3o foi que a classe m\u00e9dica ficou muito assustada. Os m\u00e9dicos foram os primeiros a dizer que n\u00e3o iam mais atender. Iam atender s\u00f3 casos graves.<\/p>\n<p><strong>Houve um exagero?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que, na verdade, eles ficaram muito assustados. N\u00e3o sei se a compreens\u00e3o ou se as informa\u00e7\u00f5es chegavam com mais rapidez pra eles, porque a classe m\u00e9dica \u00e9 muito unida, n\u00e9? Dos m\u00e9dicos que trabalhavam com a gente, a maioria atendia nos hospitais particulares. Ent\u00e3o, ao mesmo tempo em que se dizia que os n\u00fameros estavam baixos, eles diziam que j\u00e1 tinha caso de interna\u00e7\u00e3o na Unimed. Eles passaram a ter mais informa\u00e7\u00f5es. A pediatra nossa disse \u201ceu n\u00e3o atendo\u201d. Ela ficou apavorada. E, conforme foram crescendo os n\u00fameros, a gente come\u00e7ou a ver pessoas pr\u00f3ximas. Porque, muitas vezes, a gente se questionava se era assim mesmo. A informa\u00e7\u00e3o, a gente passava conforme o pessoal que vinha: n\u00e3o podia entrar sem m\u00e1scara, com acompanhante, tinha que ter distanciamento de um metro e meio. At\u00e9 falarem que, por enquanto, n\u00e3o haveria atendimento.<\/p>\n<p><strong>Foi mais dif\u00edcil transmitir as informa\u00e7\u00f5es para os jovens ou para os idosos?<\/strong><\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 faixa et\u00e1ria, tem os idosos que s\u00e3o mais rebeldes sim, mas acho que a grande maioria foi pra pessoas mais jovens. Nem digo jovens abaixo de trinta, mas aqueles entre trinta e quarenta anos. Porque, como os idosos s\u00e3o do grupo de risco e j\u00e1 s\u00e3o pacientes que, na grande maioria das vezes, t\u00eam alguma comorbidade, eram poucos os que permaneciam descrentes.<\/p>\n<p><strong>Houve boatos de que os profissionais estavam sendo impedidos de divulgar dados sobre a pandemia. Em algum momento, voc\u00ea presenciou algum pedido pra n\u00e3o divulgar as informa\u00e7\u00f5es corretas, como o n\u00famero de casos ou algo do tipo?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. Nossa chefia fazia parte da comiss\u00e3o da Covid. Ent\u00e3o, teve um per\u00edodo, entre junho e agosto, em que passaram a fazer testes conforme solicita\u00e7\u00e3o por alguma institui\u00e7\u00e3o que fizesse parte da sa\u00fade p\u00fablica. Primeiro, come\u00e7ou a fazer em todos os profissionais de sa\u00fade. Depois, em todos os profissionais da rede. Depois, a rede come\u00e7ou a fazer como fizeram no Champagnat [col\u00e9gio] e na Casa de Acolhimento. E como nossa chefia participava dessa comiss\u00e3o, ela ia junto. Ent\u00e3o, em nenhum momento, foi solicitado que n\u00e3o divulg\u00e1ssemos alguma informa\u00e7\u00e3o. Ainda assim, na imprensa, \u00e0s vezes, era divulgado que tal lugar n\u00e3o havia registrado novos casos e a gente sabia que havia sim, porque nossa chefia fazia parte da comiss\u00e3o e tinha comentado. N\u00e3o falava quem era, mas falava quantos casos tinha.<\/p>\n<p><strong>A \u00e1rea da sa\u00fade exige algum sacrif\u00edcio pessoal?<\/strong><\/p>\n<p>Exige. Por mais que seja uma escolha, a gente vai se adaptando e passa a ser at\u00e9 de forma inconsciente, mas sacrifica demais a vida familiar. Hoje em dia, em que atuo na aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, n\u00e3o trabalho mais s\u00e1bado e domingo, e consigo ver o quanto a vida familiar fica prejudicada. Porque voc\u00ea trabalha com plant\u00e3o. Ent\u00e3o, passa a se adaptar conforme a necessidade do local. Perde momentos de lazer e, acho que, em longo prazo, isso ganha peso sim.<\/p>\n<p><strong>Exige algum tipo de acompanhamento ou suporte psicol\u00f3gico para os profissionais da sa\u00fade?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. N\u00e3o existe. Em tantos anos que trabalho nessa \u00e1rea, nunca vi e digo que \u00e9 mais um ponto de desvaloriza\u00e7\u00e3o do funcion\u00e1rio, porque ele, muitas vezes, \u00e9 algo das ang\u00fastias do outro. A partir do momento que a pessoa est\u00e1 ali com um parente e n\u00e3o consegue lidar com a m\u00e1 noticia, muitas vezes joga em cima do profissional sua frustra\u00e7\u00e3o. At\u00e9 hoje, n\u00e3o vi nenhum treinamento para que o profissional seja acolhido. E, muitas vezes, quando voc\u00ea mostra que n\u00e3o est\u00e1 bem, ou voc\u00ea \u00e9 ignorado ou sofre repres\u00e1lia. Acaba virando uma sobrecarga. Porque as pessoas acham que s\u00e3o quest\u00f5es fantasiosas, que \u00e9 falta de autocontrole, fraqueza, quando, na verdade, o pessoal da sa\u00fade tamb\u00e9m tem problemas em casa. Um grande n\u00famero toma algum tipo de medica\u00e7\u00e3o, passa por algum atendimento com psiquiatra. Tem muito caso de profissional que tem depress\u00e3o ou que teve alguma tentativa de autoexterm\u00ednio.<\/p>\n<p><strong>D\u00e1 a impress\u00e3o que as pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es fecham os olhos pra isso&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Ignoram. Ignoram sim. Todo tipo de reuni\u00e3o que \u00e9 feita \u00e9 em cima de prestar um bom atendimento. Mas a grande maioria [dos funcion\u00e1rios] \u00e9 de mulheres com filhos, sozinhas, arrimo de fam\u00edlia. S\u00e3o chefes de fam\u00edlia, na verdade. E isso tem um peso muito grande. Quantas vezes trabalhei com colega chorando porque est\u00e1 deixando o filho doente em casa, mas n\u00e3o tem como deixar o emprego porque depende daquilo ali. J\u00e1 presenciei colega de trabalho que estava com familiar com c\u00e2ncer chorar cada vez que via paciente com a mesma doen\u00e7a. J\u00e1 vi uma colega, senhora idosa, chegar \u00e0 coordena\u00e7\u00e3o e dizer: \u201cn\u00e3o estou dando conta, porque estou aqui cuidando dos outros, mas tinha que estar em casa cuidando da minha filha. Ent\u00e3o, a partir de hoje, n\u00e3o venho mais\u201d. Ent\u00e3o, vejo que \u00e9 muito ignorado. \u00c0s vezes, quando acontecia algum epis\u00f3dio de descontrole, algum caso em que o profissional ficava muito abalado, chamava o psic\u00f3logo da institui\u00e7\u00e3o para conversar com o funcion\u00e1rio. Mas moment\u00e2neo. N\u00e3o tinha nenhum tipo de acompanhamento. Era s\u00f3 pra atender aquela demanda. A\u00ed, era enxugar as l\u00e1grimas e voltar pro servi\u00e7o. Ou se acontecia de, mesmo assim, n\u00e3o estar bem, ent\u00e3o se passava pelo m\u00e9dico do trabalho e a pessoa era afastada alguns dias. Mas isso, te confesso, vi acontecer s\u00f3 umas duas vezes, porque, nesse caso, o funcion\u00e1rio passou a ser um risco para os pacientes. A pr\u00f3pria equipe come\u00e7ava a ficar alerta porque a pessoa come\u00e7ava a ficar muito diferente do que estava acostumada. Mas, tirando isso, levanta, sacode a poeira e d\u00e1 a volta por cima.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2155\" aria-describedby=\"caption-attachment-2155\" style=\"width: 820px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2155\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/foto-3.jpg\" alt=\"\" width=\"820\" height=\"492\" srcset=\"https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/foto-3.jpg 820w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/foto-3-300x180.jpg 300w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/foto-3-768x461.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 820px) 100vw, 820px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2155\" class=\"wp-caption-text\">Para a auxiliar, profissionais n\u00e3o t\u00eam apoio contra transtornos mentais (Foto: Banco de imagens)<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Auxiliar de enfermagem de Franca conta como a pandemia de Covid-19 afetou o psicol\u00f3gico dos profissionais de sa\u00fade<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2154,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-2151","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-espirito-do-tempo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2151","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2151"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2151\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2174,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2151\/revisions\/2174"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2154"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2151"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2151"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2151"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}