{"id":1979,"date":"2020-12-30T16:20:42","date_gmt":"2020-12-30T16:20:42","guid":{"rendered":"https:\/\/agendasette.com.br\/?p=1979"},"modified":"2021-03-10T16:45:41","modified_gmt":"2021-03-10T16:45:41","slug":"maes-solo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agendasette.com.br\/?p=1979","title":{"rendered":"M\u00e3es solo"},"content":{"rendered":"<p><em>Mulheres que cuidam sozinhas dos filhos relatam trabalho e apreens\u00e3o aumentados durante a pandemia de Covid-19 <\/em><!--more--><\/p>\n<p><strong>J\u00falia Paiva<\/strong><\/p>\n<p><strong>Foto acima: Poliana com os filhos, Pedro e Felipe: bolsa da universidade e aux\u00edlio emergencial ajudam no or\u00e7amento (Acervo pessoal)<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA pandemia do novo coronav\u00edrus certamente visibilizou e deixou \u00e0 mostra o quanto as mulheres est\u00e3o em uma situa\u00e7\u00e3o de fragilidade e, ao mesmo tempo, de sobrecarga de trabalho, que tem a ver com quest\u00f5es de g\u00eanero, ra\u00e7a, e tamb\u00e9m com seu direito de uso da cidade, sua posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, sua posi\u00e7\u00e3o no coletivo onde mora: se ocupa um espa\u00e7o de poder, mesmo que seja em um coletivo perif\u00e9rico, como uma comunidade rural, um grupo de mulheres, se est\u00e1 ou n\u00e3o em uma rede de intera\u00e7\u00e3o social. A pandemia explicitou o quanto \u00e9 importante o trabalho dos cuidados.\u201d<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o \u00e9 de Vivian Delfino, que mora em S\u00e3o Paulo, \u00e9 doutoranda em Ci\u00eancias Sociais pela Universidade Estadual de Campinas-SP (Unicamp) e docente no Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia de S\u00e3o Paulo (IFSP), em S\u00e3o Roque-SP. Segundo ela, o cuidar, que, no caso das m\u00e3es, n\u00e3o \u00e9 visto como um trabalho, mas como uma obriga\u00e7\u00e3o, \u00e9 economicamente fundamental para a manuten\u00e7\u00e3o da sociedade. E, quando a mulher que fica em casa por causa da Covid-19 \u00e9 uma m\u00e3e solo, passa a ter sobrecarga ainda maior: al\u00e9m de casa e emprego, os filhos demandam aten\u00e7\u00e3o intensa.<\/p>\n<p>O termo \u201cm\u00e3e solo\u201d \u00e9 usado para designar mulheres inteiramente respons\u00e1veis pela cria\u00e7\u00e3o dos filhos. Com ele, o conceito de \u201cm\u00e3e solteira\u201d caiu em desuso, j\u00e1 que estar ou n\u00e3o em um relacionamento n\u00e3o quer dizer, necessariamente, compartilhar a miss\u00e3o de cuidar.<\/p>\n<p>Quatro hist\u00f3rias. Quatro m\u00e3es solo contaram \u00e0 reportagem suas viv\u00eancias durante a pandemia. Medos, receios, ansiedade, ang\u00fastia&#8230; S\u00e3o temas comuns a elas. E a expectativa \u00e9 que a Covid-19 d\u00ea uma tr\u00e9gua, para que possam respirar. Nem que seja um pouco.<\/p>\n<p><strong>O come\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>Franca est\u00e1 ensolarada. Enquanto me preparo para conversar com Daniele Lima, que mora em Iguatu-CE, arrumo a casa. Sinto o suor pingando. Duas horas da tarde e est\u00e1 muito calor. N\u00e3o sou m\u00e3e e a rotina j\u00e1 \u00e9 dura. Me imagino no lugar dela, que coloca o filho para brincar antes de falar comigo.<\/p>\n<p>\u201cChamada de v\u00eddeo? N\u00e3o posso responder em \u00e1udio? \u00c9 melhor pra mim. Meu filho \u00e9 24 horas no meu p\u00e9\u201d, pede Daniele. Digo que sim, ao perceber, tamb\u00e9m, que ela \u00e9 t\u00edmida. Ao ficar confort\u00e1vel, poderia me contar sobre a vida dela de forma mais aberta.<\/p>\n<p>Daniele tem 28 anos e um dia a dia que n\u00e3o \u00e9 nada remoto. Passa o tempo inteiro em casa com Jos\u00e9 Kauan, de cinco anos, brincando, ajudando nas atividades escolares e cuidando da casa. &#8220;Sou uma pessoa extremamente nervosa. Ent\u00e3o, evito sair de casa, principalmente com ele. S\u00f3 se for algo urgente. As pessoas da minha cidade n\u00e3o t\u00eam respeito.\u201d<\/p>\n<p>Era mar\u00e7o do ano passado quando come\u00e7aram os alertas sobre o novo coronav\u00edrus. O que parecia ser apenas um resfriado encheu ainda mais os hospitais, que j\u00e1 eram lotados. N\u00e3o havia leito pra todo mundo. Com\u00e9rcios foram fechados, trabalhadores dispensados. Escolas pararam. As recomenda\u00e7\u00f5es eram evitar aglomera\u00e7\u00f5es e usar m\u00e1scara e \u00e1lcool em gel.<\/p>\n<p>\u201cEntrei em p\u00e2nico\u201d, lembra Daniele. A maior preocupa\u00e7\u00e3o era com o pequeno Jos\u00e9 Kauan, que \u00e9 autista. Tem a imunidade baixa. J\u00e1 teve pneumonia e come muito pouco de comida saud\u00e1vel. \u201cAt\u00e9 hoje, estou assustada. Cheguei a fazer terapia, porque realmente me encontrei com medo. Foi e ainda \u00e9 bastante complicado.\u201d<\/p>\n<p><strong>Tudo no seu tempo, meu filho<\/strong><\/p>\n<p>O menino, que estuda em escola particular, passou a receber as atividades em casa. Mas, segundo Daniele, \u00e9 preciso seguir o tempo dele para cumpri-las. \u201cTiro o tempo em que ele est\u00e1 apto. Quando est\u00e1 com vontade de fazer a tarefinha, faz direitinho. Agora, se estiver irritado, j\u00e1 fica complicado de ensinar, porque, geralmente, quando erra alguma coisa, fica agitado, quer rabiscar a tarefa toda. Sempre procuro o hor\u00e1rio em que ele est\u00e1 mais calmo. N\u00e3o importa se \u00e9 manh\u00e3, tarde ou noite.\u201d<\/p>\n<p>Para cuidar do filho, Daniele at\u00e9 recebe a ajuda da m\u00e3e dela, mas s\u00f3 quando ele est\u00e1 a fim de ficar com outra pessoa. Enquanto ela limpa a casa, a av\u00f3 de Jos\u00e9 Kauan fica com neto. Mas, quando ele s\u00f3 quer a m\u00e3e, n\u00e3o tem jeito: Daniele precisa estar disposta a tudo. A psic\u00f3loga Rafaela Cortez, de Ribeir\u00e3o Preto-SP, diz que, nesses casos, uma rede de apoio \u00e9 fundamental. \u201cGeralmente, essa rede \u00e9 a fam\u00edlia. Todo esse conjunto e esse contexto acabam contribuindo.\u201d<\/p>\n<p>Entretanto, a psic\u00f3loga destaca que as m\u00e3es devem estar abertas a essa ajuda. \u201cExiste muito na cabe\u00e7a da m\u00e3e que ela precisa tomar conta de tudo, mas est\u00e1 tudo bem se n\u00e3o conseguir. \u00c9 muita coisa, muito pesado. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ter \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o essa rede. Temos um ponto importante aqui: saber at\u00e9 onde consigo ir e at\u00e9 onde n\u00e3o consigo, reconhecendo que preciso de aux\u00edlio.\u201d<\/p>\n<p>Enquanto conversamos, \u00e9 poss\u00edvel ouvir a voz de Jos\u00e9 Kauan ao fundo, cantando. Sinto que, em algum momento, vai chamar pela m\u00e3e. E chama. Daniele o atende, encerrando o \u00e1udio.<\/p>\n<p><strong>Tudo vai passar <\/strong><\/p>\n<p>Apesar de morar com a m\u00e3e, a irm\u00e3, um sobrinho de 13 anos e o filho, Daniele se sente sozinha. Ainda mais sendo a maior respons\u00e1vel por Jos\u00e9 Kauan. Nos primeiros segundos de um de seus \u00e1udios, de tr\u00eas minutos, a voz dela est\u00e1 embargada. El para pra respirar e volta a falar. \u201cSim&#8230; Ele \u00e9 uma crian\u00e7a que \u00e9 indecisa, \u00e0s vezes quer fazer tudo ao mesmo tempo. Quer coisas que n\u00e3o pode. Tem dias que estou cansada, mas n\u00e3o fisicamente, psicologicamente.\u201d<\/p>\n<p>Os momentos em que o filho v\u00ea objetos na internet e deseja t\u00ea-los est\u00e3o entre os mais dif\u00edceis. Explicar que n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de dar ou que, ali onde moram, n\u00e3o tem o que o filho deseja a deixa exausta.\u00a0 A situa\u00e7\u00e3o piora porque ele n\u00e3o entende o \u201cn\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Daniele segue o que a psic\u00f3loga do filho, Nathalia, orientou para essas situa\u00e7\u00f5es: substituir o \u201cn\u00e3o\u201d por outras palavras. \u201c\u00c9 o que exige muita paci\u00eancia. Tem que sentar, explicar, acalmar. E voc\u00ea tem que ser uma pessoa\u00a0 bem trabalhada.\u201d<\/p>\n<p>Todo dia \u00e9 de cansa\u00e7o. Dif\u00edcil lidar com tudo \u00e0 volta. A preocupa\u00e7\u00e3o de adoecer, do filho ou de qualquer outra pessoa dentro de casa recai sobre ela. \u201cFa\u00e7o sempre o poss\u00edvel pra ele ficar dentro de casa, longe de poeira. Tem dias que deito e estou exausta. Tenho crises de ansiedade, gastrite nervosa. Fiz um tempo de terapia online para ajudar a trabalhar isso tudo.\u201d<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo sul-coreano Byung-Chul Han, no livro \u201cSociedade do cansa\u00e7o\u201d, afirma que a busca implac\u00e1vel pelo \u201cseu melhor\u201d, \u201cdando tudo de si\u201d, leva ao adoecimento psicol\u00f3gico. Han argumenta que s\u00e3o comuns, em nossa sociedade, a depress\u00e3o e a S\u00edndrome de Burnout, uma condi\u00e7\u00e3o que afeta as pessoas que se submetem ao cansa\u00e7o constante.<\/p>\n<p>Nesse caso, os sintomas recorrentes s\u00e3o a ins\u00f4nia (ou excesso de sono sem descanso) e o estresse cont\u00ednuo, que tamb\u00e9m aparecem na depress\u00e3o e na s\u00edndrome do p\u00e2nico. Desse modo, o indiv\u00edduo n\u00e3o possui mais amarras que o prendem fisicamente, mas um sistema em que ele perde a liberdade sem que perceba.<\/p>\n<p>Para a psic\u00f3loga Rafaela, a sa\u00fade mental dessas m\u00e3es \u00e9 um caos, pois tudo \u00e9 responsabilidade delas. \u201cO lado que vejo que foi mais prejudicado foi a autoestima. Elas priorizam tudo e acabam se deixando por \u00faltimo. E, nas 24 horas, muitas vezes n\u00e3o d\u00e1 tempo de chegar nesse \u00faltimo. O que tem acontecido \u00e9 essas m\u00e3es, por exemplo, come\u00e7arem a ver que n\u00e3o est\u00e3o dando conta dessas crian\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>Ainda conforme a psic\u00f3loga, \u201celas se olham no espelho e n\u00e3o se sentem mais poderosas, donas de si mesmas, suficientes, capazes. E isso tudo acaba prejudicando.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_1984\" aria-describedby=\"caption-attachment-1984\" style=\"width: 960px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1984\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/IMAGEM-4-e1615052637310.jpeg\" alt=\"\" width=\"960\" height=\"1120\" srcset=\"https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/IMAGEM-4-e1615052637310.jpeg 960w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/IMAGEM-4-e1615052637310-257x300.jpeg 257w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/IMAGEM-4-e1615052637310-768x896.jpeg 768w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/IMAGEM-4-e1615052637310-878x1024.jpeg 878w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1984\" class=\"wp-caption-text\">A psic\u00f3loga Rafaela Cortez alerta para a import\u00e2ncia de uma rede de apoio (Foto: Acervo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Entre chuva e rel\u00e2mpagos <\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o quase dez horas da noite quando come\u00e7a a chover em Franca. A internet da minha casa come\u00e7a a oscilar. Fico apreensiva. O bairro onde moro, o City Petr\u00f3polis, na zona norte, n\u00e3o pode ver uma chuva que a energia cai. \u00a0Apesar de morarmos na mesma cidade, a entrevista ser\u00e1 feita remotamente, por preocupa\u00e7\u00e3o com sa\u00fade das duas e de todos ao nosso redor, e devido ao fato de K\u00e9tani Amaral trabalhar e estudar.<\/p>\n<p>K\u00e9tani me manda o link de uma sala no Google Meet para que possamos conversar. Ela est\u00e1 no quarto dela. O filho, em p\u00e9 ao lado, desviando o olhar do celular que segura para a c\u00e2mera do computador. \u201cBen\u00edcio, vai ver no seu quarto\u201d, pede a m\u00e3e. O garotinho atende e sai.<\/p>\n<p>K\u00e9tani tem 25 anos, trabalha numa grande rede de lojas e estuda Direito. Tem dois filhos: Valentina, de nove anos, e Ben\u00edcio, de cinco.\u00a0No come\u00e7o da pandemia, trabalhava em outra empresa e conta que foi complicado. Morava no centro da cidade com os filhos e precisava deix\u00e1-los na casa da m\u00e3e e do padrasto. Depois de ficar desempregada, tinha dificuldade para conciliar o trabalho dom\u00e9stico, a faculdade, pela qual passou a ter aulas online, e o cuidado com os filhos. Ainda mais morando sozinha com eles. \u201cN\u00e3o t\u00ednhamos nenhuma rotina. Eles em casa s\u00f3 queriam ficar assistindo televis\u00e3o, deitados. N\u00e3o queriam brincar e, muito menos, fazer as atividades da escola. Tento fazer uma coisa diferente, incentivar, mas \u00e9 muito dif\u00edcil mesmo\u201d. Com o aumento no n\u00famero de casos de Covid-19, a m\u00e3e e o padrasto foram morar com ela. Um al\u00edvio.<\/p>\n<p>Para a professora Vivian Delfino, a rede de apoio familiar deve ser, tamb\u00e9m, uma rede de afeto. \u201cGeralmente, as m\u00e3es solo contam com um elemento-chave, que \u00e9 a av\u00f3 materna das crian\u00e7as. Muitas vezes parceira, apoia a cria\u00e7\u00e3o dos netos de forma afetuosa e n\u00e3o joga na cara que \u00e9 obrigada a cuidar.\u201d<\/p>\n<p><strong>Aux\u00edlio <\/strong><\/p>\n<p>K\u00e9tani lembra que, no come\u00e7o da pandemia, o aux\u00edlio emergencial a ajudou. \u201cComo eu era sozinha, recebia R$ 1.200. Perdi meu emprego, mas o aux\u00edlio supriu\u201d. A estudante declara, por\u00e9m, que, na Educa\u00e7\u00e3o, o governo falhou.<\/p>\n<p>Ben\u00edcio reaparece quando estamos conversando sobre uma poss\u00edvel volta \u00e0s aulas e se ela deixaria os filhos retornarem. Envergonhado, depois de dizer um oi, ele permanece atr\u00e1s da m\u00e3e. \u201cMe questiono sobre isso. De verdade, n\u00e3o sei responder. \u00c0s vezes, fico pensando que seria bom. A rotina da escola faz falta pra eles. Mas, ao mesmo tempo, n\u00e3o sei se seria bom. Crian\u00e7as n\u00e3o tomam cuidado, n\u00e9? Tanto para eles quanto para os professores, que, geralmente, s\u00e3o mais velhos.\u201d<\/p>\n<p>A conversa termina com K\u00e9tani receosa sobre o futuro. Ela n\u00e3o sabe se tudo voltar\u00e1 ao \u201cnormal\u201d.<\/p>\n<p><strong>Longe de casa<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma tarde de quarta-feira quando falo com Poliana Ara\u00fajo, de 27 anos. Em Franca, os term\u00f4metros marcam 29 graus. Enquanto a espero terminar o almo\u00e7o, reviso as perguntas que pretendo fazer. A conversa, por telefone, come\u00e7a minutos depois. Poliana mora em Presidente Prudente, \u00a0a 535 quil\u00f4metros de Franca. \u00c9 m\u00e3e de Pedro e de Felipe, de oito e seis anos, respectivamente.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s ganhar uma bolsa de estudo pelo Prouni, Poliana se mudou de Franca para Presidente Prudente para cursar Agronomia. Nesse processo, perdeu a guarda do primog\u00eanito. O pai da crian\u00e7a tinha uma estabilidade financeira melhor. O juiz determinou que era melhor a crian\u00e7a ficar com ele, enquanto a m\u00e3e terminava o curso. J\u00e1 Felipe seguiu com ela.<\/p>\n<p>Os meninos s\u00e3o filhos de pais diferentes. Poliana conta que o de Felipe \u00e9 ausente. Apenas manda a quantia da pens\u00e3o no final do m\u00eas. Em compensa\u00e7\u00e3o, a av\u00f3 paterna gosta muito do neto. Apesar de morar longe do filho mais velho, a estudante confia na rede de apoio. E no pr\u00f3prio Pedro, que, desde o princ\u00edpio, compreendeu que a m\u00e3e precisava estudar. \u201cDesde quando me mudei, ele entendeu que a mam\u00e3e estava indo pra ter uma vida melhor. E como ele \u00e9 pr\u00f3ximo do pai, n\u00e3o sentiu tanta diferen\u00e7a. O que foi pesado pra ele foi se afastar do irm\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>M\u00e3e e filho conversam todos os dias por telefone. E jogam um game que ficou bastante famoso na quarentena, o Amoung Us, em que uma tripula\u00e7\u00e3o precisa descobrir quem \u00e9 o impostor e expuls\u00e1-lo.<\/p>\n<p><strong>Sobrecarga<\/strong><\/p>\n<p>Um dos primeiros efeitos da pandemia na vida de Poliana foi o fechamento da universidade. \u201cFechou antes mesmo da escola do Felipe. Agora ficando em casa, achei que daria tudo certo. Mas est\u00e1 tudo corrido. Estou no \u00faltimo semestre. Tem TCC, horas extras para entregar, est\u00e1gio. Depois que comecei a ter aulas online, a escola do Felipe fechou.\u201d<\/p>\n<p>A fala \u00e9 cortada pela do filho, que a chama. Poliana pede licen\u00e7a e diz que vai ajudar o pequeno. Logo, volta partindo de onde paramos a conversa. \u201cA professora fez um grupo e come\u00e7ou a mandar as atividades. Mas, para mim, \u00e9 muito complicado auxili\u00e1-lo, porque tenho aula online todos os dias, das sete e meia da manh\u00e3 \u00e0s seis da tarde. E ele tem uma dificuldade gigante de se concentrar. Na escola, \u00e9 mais f\u00e1cil, pois tem os amiguinhos fazendo. Isso o estimula. Aqui em casa, sou s\u00f3 eu. Tento fazer, mas \u00e9 bem dif\u00edcil. Ele ficou com bastante atividade atrasada.\u201d<\/p>\n<p>A professora Vivian Delfino lembra que, quando as atividades pararam, as m\u00e3es foram impactadas financeiramente. \u201cVoc\u00ea tem que atender uma demanda de filhos que ficam em casa, que v\u00e3o comer mais, gastar mais energia, v\u00e3o exigir que voc\u00ea consiga providenciar uma distra\u00e7\u00e3o. E tem a quest\u00e3o da escola virtual, que exige que essa m\u00e3e tenha condi\u00e7\u00e3o de ofertar: um computador, um celular ou os dois, al\u00e9m de uma internet capaz de manter uma aula online, a assist\u00eancia da realiza\u00e7\u00e3o dos trabalhos ou, ent\u00e3o, arcar com o \u00f4nus de ver seu filho n\u00e3o estudando.\u201d<\/p>\n<p>Vivian ainda destaca que, ao ficarem em casa, as pessoas perceberam a import\u00e2ncia dos cuidados, e, no caso das m\u00e3es solo, isso significou uma sobrecarga maior. \u201cAs crian\u00e7as ficaram em casa e exigem um cuidado 24 horas, n\u00e3o s\u00f3 de cozinhar, passar&#8230; \u00c9 de olhar, de atender, ser requisitada muito mais vezes. O fato de n\u00e3o ter o tempo da escola fez com que elas tivessem uma sobrecarga imensa. Exigem que tenham paci\u00eancia para estar sempre \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de atender o \u2018m\u00e3e\u2019 que vai vir durante todo o dia.\u201d<\/p>\n<p>Com a quarentena, Felipe, por exemplo, ficou bastante ansioso. Poliana conta que ele engordou e tem que fazer uma dieta por estar acima do peso. \u201cEle passa por uma psic\u00f3loga, tamb\u00e9m faz tratamento com uma fono, porque tem defici\u00eancia auditiva.\u201d<\/p>\n<p>No aspecto financeiro, Poliana recebe uma bolsa de R$ 400 da universidade, al\u00e9m da pens\u00e3o do filho. E tamb\u00e9m conseguiu o aux\u00edlio emergencial de R$ 300 reais. Pelo fato de o cadastro \u00fanico estar em conjunto com o da m\u00e3e, que \u00e9 aposentada, n\u00e3o teve a ajuda inicial de R$ 1.200 paga pelo Governo Federal.<\/p>\n<p><strong>Um dia de cada vez <\/strong><\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que Poliana disserta que os estudos pesam at\u00e9 mais do que cuidar dos filhos, se ouve a voz de Felipe ao fundo. Ele brinca com algum objeto perto da m\u00e3e. \u201cNo meu curso, muita coisa \u00e9 aula pr\u00e1tica e a gente n\u00e3o est\u00e1 aprendendo direito. Ainda bem que minha faculdade oferece terapia de gra\u00e7a. Fa\u00e7o toda semana, sen\u00e3o tinha surtado ainda mais. Evito sair de casa, mas isso me sufoca um pouco. Sou uma pessoa soci\u00e1vel, gosto de encontrar os amigos. S\u00e3o coisas que estou evitando. Mas a gente vai levando, um dia de cada vez.\u201d<\/p>\n<p>O tempo que consegue pra ela \u00e9 na hora de dormir. Ap\u00f3s terminar os estudos, por volta das seis da tarde, d\u00e1 banho em Felipe, arruma a cozinha, faz janta. \u00c0s vezes, ainda brinca um pouco com o filho ou assiste a um desenho.<\/p>\n<p>Com a voz demonstrando o cansa\u00e7o de um dia que est\u00e1 longe de acabar, diz que o que mais deseja \u00e9 uma vacina. \u201cPara poder voltar tudo ao normal. Ano que vem, saio para o est\u00e1gio, e provavelmente n\u00e3o vai ser aqui [Presidente Prudente], nem em Franca. De novo, terei que ficar longe das crian\u00e7as. O Felipe \u00e9 muito sentido com essas coisas.\u201d<\/p>\n<p>Mesmo que o \u201cnormal\u201d n\u00e3o seja o de antes, ela espera que, pelo menos, a rotina seja diferente. \u201cQue a gente consiga voltar um pouquinho da nossa vida. Que eu consiga trabalhar e dar in\u00edcio ao que eu vim buscar quando vim fazer faculdade, que \u00e9 ter uma estabilidade financeira e dar uma vida melhor para os meninos.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_1982\" aria-describedby=\"caption-attachment-1982\" style=\"width: 598px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1982\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/IMAGEM-2-e1615052738681.jpeg\" alt=\"\" width=\"598\" height=\"852\" srcset=\"https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/IMAGEM-2-e1615052738681.jpeg 598w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/IMAGEM-2-e1615052738681-211x300.jpeg 211w\" sizes=\"auto, (max-width: 598px) 100vw, 598px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1982\" class=\"wp-caption-text\">Vivian: &#8220;pandemia explicitou import\u00e2ncia dos cuidados&#8221; (Foto: Acervo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>A \u00faltima festa <\/strong><\/p>\n<p>Vivian Delfino, que, durante a entrevista, revelou tamb\u00e9m ser m\u00e3e solo, aceitou dar seu depoimento sobre isso. Por causa dos compromissos dela, combinamos outra data para que a conversa continuasse. Mas foi dif\u00edcil. M\u00e3e, professora e doutoranda, n\u00e3o tinha dias compat\u00edveis com os meus. Na agenda dela, muitos congressos e palestras.<\/p>\n<p>Depois de muito tentar, consigo para um dia que chove muito em S\u00e3o Paulo, onde ela mora, e em Franca. Vivian se mostra preocupada. A energia oscila na cada dela, o que tamb\u00e9m \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o da minha parte. Mas o universo comanda e, no final, corre tudo bem.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, quando vieram as primeiras not\u00edcias sobre um v\u00edrus que circulava na China, Vivian n\u00e3o se preocupava. N\u00e3o fazia ideia de que chegaria ao Brasil. A fam\u00edlia comemorava o anivers\u00e1rio de Caio, o filho \u00fanico dela, que completava 13 anos naquele janeiro de 2020.<\/p>\n<p>A vida antes da chegada do novo coronav\u00edrus era como um filme clich\u00ea. As ruas cheias,\u00a0crian\u00e7as brincando nos playgrounds, amigos se juntando para o churrasquinho de domingo, os bares lotados. Os corredores das escolas e universidades contavam hist\u00f3rias por meio dos falat\u00f3rios, risadas e cochichos.<\/p>\n<p>Haveria tempo, ainda, para a \u00faltima festa antes do distanciamento social. O anivers\u00e1rio da m\u00e3e de Vivian, em 7 de fevereiro. \u201cPouco tempo depois, o Caio parou de ir \u00e0 escola. J\u00e1 fechou tudo e, quando teve o primeiro caso de morte aqui, ele ficou muito angustiado. Eu tamb\u00e9m. Mas a gente achava que ia passar r\u00e1pido.\u201d<\/p>\n<p>Mesmo de longe, j\u00e1 que a entrevista \u00e9 via WhatsApp, \u00e9 poss\u00edvel identificar o cansa\u00e7o na voz de Vivian, principalmente quando lembra o come\u00e7o da pandemia. No primeiro m\u00eas, o sentimento foi de surpresa, que, com o passar do tempo, foi virando medo, apreens\u00e3o.\u00a0\u201cO problema mesmo come\u00e7ou a ficar punk quando chegou no meio do ano e nada tinha mudado, quando deu um semestre enfiado em casa. O que o Caio teve muito no in\u00edcio foi medo de pegar, que os av\u00f3s ficassem doentes.\u201d<\/p>\n<p><strong>Rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e e filho<\/strong><\/p>\n<p>Entre as m\u00e3es entrevistadas para a reportagem, Vivian \u00e9 a \u00fanica de um menino entrando na adolesc\u00eancia. Antes da pandemia, eles sa\u00edam muito juntos. Praia e cinema estavam entre os passeios prediletos. E n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil visualiz\u00e1-la curtindo um dia com o filho. Nas poltronas do cinema, rindo com uma com\u00e9dia ou tapando os olhos em um filme de terror, com ele rindo do medo que ela sente. Ou um domingo na areia, com raios de sol que confortam e aquecem, como um convite para um banho de mar.<\/p>\n<p>Caio fazia muitas atividades. Aulas de bateria e marimba, jogar futebol, reunir um grupo grande de amigos para dormir na casa dele ou de outro. Vivian tamb\u00e9m levava amigos para a fazenda da fam\u00edlia, em Mairinque-SP. \u201cQuando isso come\u00e7ou a faltar, foi sofrido pra ele. Com dois meses, come\u00e7ou a ficar muito triste, e a gente come\u00e7ou a discutir muito.\u201d<\/p>\n<p>Ela se deparou com outro Caio. N\u00e3o era mais aquele menino alegre e ativo. Estava sem \u00e2nimo para nada. \u201cN\u00e3o queria ler, fazer as coisas da escola. Tive que aprender a lidar com essa nova realidade. Estava prostrado, s\u00f3 jogava v\u00eddeo game e dizia que era a \u00fanica coisa legal para fazer. O quarto dele virou uma caverna. Foi horr\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p>A chuva em S\u00e3o Paulo continua forte. \u00c9 poss\u00edvel ouvir as trovoadas pelos \u00e1udios que Vivian manda. Um reflexo da vida dela, que se viu no meio de um temporal: cuidar do filho enquanto o volume de trabalho aumentava absurdamente. \u201cNo mundo pr\u00e9-pandemia, o Caio ia para a aula \u00e0 tarde. Quando come\u00e7ou o ensino a dist\u00e2ncia, a escola mudou as aulas para o per\u00edodo da manh\u00e3. Ent\u00e3o, ele teve que levantar cedo. Achou super legal, mas, em 15 dias, os alunos passaram a desligar a c\u00e2mera.\u201d<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Vivian testemunhou o filho v\u00e1rias vezes voltando a dormir. \u201cEssa aus\u00eancia do conv\u00edvio, da din\u00e2mica da sala de aula, n\u00e3o refletia a escola. Eu tinha que convenc\u00ea-lo a ir pra aula. Li\u00e7\u00e3o n\u00e3o fazia, estudar n\u00e3o estudava, coisas que ele nunca me deu trabalho. N\u00e3o tive trabalho de coloc\u00e1-lo na frente do celular. Tive trabalho pra fazer com que ele entendesse que aquilo era a escola agora e, infelizmente, aceitasse.\u201d<\/p>\n<p>Caio passou a odiar os estudos e arrumar intriga com os professores. As notas ca\u00edram. Conhecendo a \u00e1rea educacional e preocupada com o rumo que as coisas tomavam, Vivian entrou em contato com a escola, falou sobre a quantidade de atividades e opinou que a forma de aprender deveria ser diferente. \u201cNo come\u00e7o, os professores, com receio, sabendo que os alunos n\u00e3o estavam indo para a aula, mandavam um monte de trabalhos. Ele chorava para fazer. Eu e outras m\u00e3es conversamos na escola para reduzirem o n\u00famero de atividades.\u201d<\/p>\n<p>O apelo foi ouvido. A escola marcou algumas aulas para a tarde, para que os alunos n\u00e3o ficassem quatro horas seguidas online. \u201cFiz alguns trabalhos com ele, para que ficassem mais l\u00fadicos. Mas confesso que, para os adolescentes, as coisas bateram diferentes. A conviv\u00eancia, o grupo s\u00e3o muito importantes.\u201d<\/p>\n<p>Para Vivian, o filho ainda n\u00e3o teve oportunidades de viver fases t\u00edpicas da adolesc\u00eancia, como aprender a andar pela cidade sozinho e paquerar. \u201cA escola \u00e9 o ponto em que isso acontece, e tudo pra ele rolou online. Est\u00e1 perdendo essa coisa de a escola ser mais que estudar.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_2144\" aria-describedby=\"caption-attachment-2144\" style=\"width: 1011px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2144\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/WhatsApp-Image-2021-03-08-at-13.26.38-e1615343493212.jpeg\" alt=\"\" width=\"1011\" height=\"952\" srcset=\"https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/WhatsApp-Image-2021-03-08-at-13.26.38-e1615343493212.jpeg 1011w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/WhatsApp-Image-2021-03-08-at-13.26.38-e1615343493212-300x282.jpeg 300w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/WhatsApp-Image-2021-03-08-at-13.26.38-e1615343493212-768x723.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1011px) 100vw, 1011px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2144\" class=\"wp-caption-text\">Vivian e Caio: com rotina alterada, menino deixava as aulas para dormir (Foto: Acervo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Autocuidado<\/strong><\/p>\n<p>Um estrondo reverbera pela casa dela. A chuva ainda est\u00e1 forte. \u00c9 poss\u00edvel escutar Caio gritando que a energia acabou e voltou em segundos. Vivian ri e come\u00e7a a contar como ficou seu trabalho e a sa\u00fade mental. \u201cSei que estou totalmente descompensada com essa pandemia\u201d.<\/p>\n<p>No Instituto Federal, foi contemplada com afastamento remunerado para cursar o Doutorado, em Campinas. Mesmo na correria do dia a dia, com todos os afazeres de casa e do trabalho, a viagem era um momento prazeroso. \u201cQuando eu pegava o carro e dirigia uma hora e vinte minutos, ia escutando m\u00fasica e cantando dentro do carro. Pensava na vida, conversava comigo mesma\u201d. Lembra, com entusiasmo, do ambiente universit\u00e1rio, do qual sente falta. \u201cEstava adorando ir pra aula. Pra mim, era massa.\u201d<\/p>\n<p>Para ela, tamb\u00e9m n\u00e3o foi f\u00e1cil. Logo, o semestre come\u00e7ou online, com aulas tr\u00eas vezes na semana, quatro horas por dia. N\u00e3o bastasse isso, o Instituto Federal precisou de um apoio dos professores afastados.<\/p>\n<p>Na Unicamp, assumiu a coordena\u00e7\u00e3o de um grupo de trabalho. Tinha que escrever muito e publicar. \u201cMe empolguei. Na minha cabe\u00e7a, como trabalho em S\u00e3o Roque, que fica a 60 quil\u00f4metros da minha casa, e estudo em Campinas, que \u00e9 mais 90 quil\u00f4metros, em casa eu teria tempo sobrando. Doce ilus\u00e3o. Comecei a trabalhar mais.\u201d<\/p>\n<p>Como antes, a carreira profissional estava entrela\u00e7ada \u00e0 vida dom\u00e9stica, mas agora ambas exigindo mais, gritando, sem dar tempo para refletir. A vida se tornou um malabarismo: cuidar da casa, do trabalho, do filho, da m\u00e3e idosa. \u201cTrabalho o dia inteiro, essa \u00e9 a verdade. Continuo em <em>home office<\/em>, mas n\u00e3o tem um dia que n\u00e3o esteja trabalhando. S\u00e1bado e domingo, \u00e9 tudo igual. No meu celular, recebo em torno de 200, 300 mensagens para responder, todo dia. Um monte de e-mails. E, em meio a isso, vieram os convites para participar de lives. Uma virou duas, dez. Quando vi, todo dia estava fazendo lives. Cheguei a fazer tr\u00eas no mesmo dia.\u201d<\/p>\n<p>Procurou ajuda, mas a terapia online n\u00e3o deu certo. \u201cPreciso de um profissional que se encaixe comigo. Meu c\u00e9rebro n\u00e3o relaxa, n\u00e3o desliga\u201d. Ela conta que n\u00e3o tem mais hora certa pra dormir, passou a ter v\u00edcio com o celular e ins\u00f4nia, al\u00e9m de ansiedade. \u201cTenho que me controlar. Caso contr\u00e1rio, como o dia inteiro. Estou sempre com a sensa\u00e7\u00e3o de estar atrasada, que estou devendo. O turbilh\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es sobre cursos sempre me d\u00e1 impress\u00e3o de que estou perdendo uma oportunidade, mas, na verdade, n\u00e3o tenho mais condi\u00e7\u00e3o de fazer nada. \u00c9 angustiante. N\u00e3o tenho ideia de como vai ser quando retornar ao processo presencial.&#8221;<\/p>\n<p>Lamenta n\u00e3o ter tempo para se cuidar. \u201cAcho que tem uns cinco meses que n\u00e3o fa\u00e7o a unha, s\u00f3 corto. Fa\u00e7o o b\u00e1sico, lavo o cabelo, tomo banho, escovo os dentes, uso desodorante. Tem dias que uso hidrate, dias que n\u00e3o consigo. O tempo pra mim \u00e9 zero.\u201d<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m precisa zelar pelos pais, idosos. A m\u00e3e, que mora com ela, era ativa, sa\u00eda muito para dan\u00e7ar e, de repente, se viu presa em casa. Tamb\u00e9m perdeu muitas amigas para a Covid-19. Vivian teme pela sa\u00fade dela. \u201cTinha dia que eu acordava e ela estava triste. Eu perguntava o que tinha acontecido e ela falava que uma amiga dela tinha falecido. Pelo que acompanho, ela perdeu cinco ou seis amigas. Ainda tem isso, n\u00e9? A pessoa v\u00ea outras da sua idade indo.\u201d<\/p>\n<p>Vivian \u00e9 a pessoa que mais conversa com a m\u00e3e. Mesmo com muitos trabalhos, n\u00e3o deixa que ela fique num canto sozinha. \u201cQuando vou comer ou no fim do dia, quando sento pra assistir televis\u00e3o, converso com ela. \u00c9 necess\u00e1rio que eu converse. E todos os dias ligo para o meu pai. Estou no computador, mas estou falando com ele.\u201d<\/p>\n<p>Para a professora, a ideia de normal mudou. \u201cA vida antes da pandemia acabou. Agora, vamos construir um novo processo de vida, que n\u00e3o sei como vai ser\u201d. Entre todos os desejos dela, est\u00e1 o de poder sair de casa. \u201cN\u00e3o para aglomerar ou fazer festa, mas ir ao cinema, o que eu gostava muito antes da pandemia. \u00c0s vezes, vinha do trabalho e pegava uma sess\u00e3o \u00e0s nove e meia da noite. O shopping \u00e9 perto de casa. Vou passar a dar mais valor a essas coisinhas sabe, como ir a uma praia tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_1983\" aria-describedby=\"caption-attachment-1983\" style=\"width: 1280px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1983\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/IMAGEM-3.jpeg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"853\" srcset=\"https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/IMAGEM-3.jpeg 1280w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/IMAGEM-3-300x200.jpeg 300w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/IMAGEM-3-768x512.jpeg 768w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/IMAGEM-3-1024x682.jpeg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1983\" class=\"wp-caption-text\">K\u00e9tani com os filhos, Valentina e Ben\u00edcio: trabalho, estudo e vida dom\u00e9stica (Foto: Acervo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mulheres que cuidam sozinhas dos filhos relatam trabalho e apreens\u00e3o aumentados durante a pandemia de Covid-19<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1986,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-1979","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-espirito-do-tempo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1979","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1979"}],"version-history":[{"count":16,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1979\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2148,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1979\/revisions\/2148"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1986"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1979"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1979"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1979"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}