{"id":1856,"date":"2020-11-30T17:10:53","date_gmt":"2020-11-30T17:10:53","guid":{"rendered":"https:\/\/agendasette.com.br\/?p=1856"},"modified":"2020-11-30T17:37:27","modified_gmt":"2020-11-30T17:37:27","slug":"teatro-negro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agendasette.com.br\/?p=1856","title":{"rendered":"Teatro negro"},"content":{"rendered":"<p><em>Grupo francano Corpo Negro denuncia o racismo apontando a falta de representatividade e de visibilidade nos palcos e na plateia<\/em><!--more--><\/p>\n<p><strong>Gabriela Sturaro<\/strong><\/p>\n<p><strong>Talita Souza<\/strong><\/p>\n<p><strong>Foto acima: Integrantes do grupo na apresenta\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo adulto \u201cUm cisco no peito\u201d (Divulga\u00e7\u00e3o\/Corpo Negro)<\/strong><\/p>\n<p>Foi em 2016 que Josiana Martins, Kauane Ketholin, Gabriel Saqueto e Rodrigo Raphael, estudantes do curso t\u00e9cnico de Teatro do Servi\u00e7o Nacional do Com\u00e9rcio (Senac) de Franca e fundadores do Grupo Corpo Negro, come\u00e7aram a perceber a aus\u00eancia de negros, seja representando ou assistindo.<\/p>\n<p>Josiana conta que assistiam a uma pe\u00e7a no Teatro SESI, sobre cultura africana. Havia apenas uma atriz negra em cena e poucas pessoas negras nas cadeiras. \u201cUmas cinco. N\u00f3s nos incomodamos e come\u00e7amos a debater\u201d.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma das hist\u00f3rias que voc\u00ea confere nesta quarta e \u00faltima reportagem da s\u00e9rie &#8220;Bocas gritando contra a crueldade&#8221;, sobre a cultura negra em Franca (clique e veja a <a href=\"https:\/\/agendasette.com.br\/2020\/11\/27\/voz-em-movimento\/\">primeira<\/a>, a <a href=\"https:\/\/agendasette.com.br\/2020\/11\/28\/tem-que-ser-de-luta\/\">segunda<\/a> e a <a href=\"https:\/\/agendasette.com.br\/2020\/11\/29\/boneca-preta\/\">terceira<\/a>).<\/p>\n<p>Questionando por que os artistas negros n\u00e3o tinham tanta visibilidade em Franca, os estudantes se lembraram de Rog\u00e9rio Miranda, que, de acordo com Josiana, era uma refer\u00eancia para eles. Decidiram conversar com o ator, que aceitou se reunir, com frequ\u00eancia, para debater temas do cotidiano dos negros na cidade. \u201cFoi a primeira vez que nos perguntamos \u2018quem s\u00e3o os artistas negros de Franca?\u2019. Foi isso que deu in\u00edcio ao encontro com o Rog\u00e9rio.\u201d<\/p>\n<p>No \u00faltimo ano do curso, em 2017, os quatro fundadores do grupo fizeram a primeira apresenta\u00e7\u00e3o juntos. Uma montagem em homenagem a Marcelino Freire, autor do livro \u201cContos Negreiros\u201d. A ideia surgiu de uma conversa com uma professora de teatro, Nath\u00e1lia Fernandes. A pe\u00e7a foi exibida primeiro no Senac, de onde se expandiu para outros lugares.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1861\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-29-at-13.08.24.jpeg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"616\" srcset=\"https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-29-at-13.08.24.jpeg 1280w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-29-at-13.08.24-300x144.jpeg 300w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-29-at-13.08.24-768x370.jpeg 768w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-29-at-13.08.24-1024x493.jpeg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/p>\n<p>Al\u00e9m de Rog\u00e9rio Miranda, seriam convidadas as atrizes Anny Ribeiro e Gabriela Sampaio, al\u00e9m de Nath\u00e1lia, como diretora, e de Ana Paula Bartos, a Anaz\u00fa, como produtora. Com a sa\u00edda de Gabriel, ficaram oito integrantes. Atualmente, o grupo trabalha em dois espet\u00e1culos: um adulto, \u201cUm cisco no peito\u201d, e um infantil, \u201cO mundo come\u00e7a na cabe\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 uma amplia\u00e7\u00e3o do projeto desenvolvido no Senac. Mistura cenas a partir do livro de Freire com cria\u00e7\u00f5es de outros autores e dos pr\u00f3prios membros do Corpo Negro. <strong>Segue o link para o teaser:<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/koqiyG73XTA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 o outro \u00e9 inspirado em hist\u00f3rias de crian\u00e7as negras, algumas das quais vividas pelos atores. Devido \u00e0 pandemia de Covid-19, as apresenta\u00e7\u00f5es est\u00e3o suspensas e sem previs\u00e3o de volta. <strong>Confira o teaser a seguir:\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5BPiLAg1KIE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Abdias do Nascimento<\/strong><\/p>\n<p>Em 1944, o francano Abdias do Nascimento, ent\u00e3o com 30 anos, fundou, no Rio de Janeiro, o Teatro Experimental do Negro (TEN), junto com Aguinaldo Oliveira de Camargo, Wilson Tib\u00e9rio, Sebasti\u00e3o Rodrigues Alves, Arinda Serafim e Ilena Teixeira. A proposta era valorizar o povo negro e a cultura afro-brasileira.<\/p>\n<p>A primeira pe\u00e7a apresentada, apenas com atores negros, foi \u2018O Imperador Jones\u2019, que Abdias havia assistido em uma passagem pelo Peru, antes de fundar o TEN. Na ocasi\u00e3o, ficou inconformado de ver personagens negros sendo interpretados por atores brancos com a pele pintada. Seria o estopim para a cria\u00e7\u00e3o do TEN.<\/p>\n<p>No artigo \u201cTeatro experimental do negro: trajet\u00f3ria e reflex\u00f5es\u201d, escrito em 2004, Abdias afirmou que o negro era rejeitado n\u00e3o s\u00f3 como personagem e int\u00e9rprete, mas de \u201csua vida pr\u00f3pria, com perip\u00e9cias espec\u00edficas no campo sociocultural e religioso, como tem\u00e1tica da nossa literatura dram\u00e1tica\u201d. Por isso, a import\u00e2ncia do TEN.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1858\" aria-describedby=\"caption-attachment-1858\" style=\"width: 446px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1858\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Abdias_do_Nascimento-833x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"446\" height=\"562\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1858\" class=\"wp-caption-text\">Abdias do Nascimento fundou o Teatro Experimental do Negro (TEN), ap\u00f3s pe\u00e7a no Peru (Foto: Banco de imagens)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Al\u00e9m do grupo, ele fundaria o Comit\u00ea Democr\u00e1tico Afro-brasileiro, em 1945, com sede na Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE), para lutar pela anistia de presos pol\u00edticos e ajudar a restabelecer a democracia no Brasil. No mesmo ano, o TEN e o comit\u00ea, juntos, realizaram, no Rio de Janeiro e em S\u00e3o Paulo, a Conven\u00e7\u00e3o Nacional do Negro Brasileiro, sob a lideran\u00e7a de Abdias \u2013 que \u00e9 uma das maiores influ\u00eancias do Grupo Corpo Negro.<\/p>\n<p>Para a atriz Gabriela Sampaio, tamb\u00e9m educadora social e integrante do Conselho Municipal de Participa\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento da Comunidade Negra (COMDECON), ele, que morreu em maio de 2011, aos 97 anos, \u00e9 respeitado n\u00e3o apenas por ter fundado o TEN, mas pela origem francana.<\/p>\n<p>\u201cO grupo tem v\u00e1rias inspira\u00e7\u00f5es, mas o nome que fazemos quest\u00e3o de falar \u00e9 Abdias do Nascimento. N\u00e3o apenas pelo legado, mas por ser um francano pouco lembrado na cidade, al\u00e9m de fundador do Teatro Experimental do Negro. Sem o TEN, acho que seria muito dif\u00edcil a gente dar continuidade e saber dessa import\u00e2ncia que carregamos. Abdias \u00e9 um nome reconhecido mundialmente e que n\u00e3o trabalhou s\u00f3 com o teatro.\u201d<\/p>\n<p>Por isso, o Corpo Negro, segundo a atriz, n\u00e3o \u00e9 apenas um grupo teatral, mas pol\u00edtico e de pesquisa. \u201cAdmiramos Abdias em suas v\u00e1rias facetas, como dramaturgo, pintor, ativista&#8230; Uma figura muito importante pra gente.\u201d<\/p>\n<p><strong>Escassez de fontes<\/strong><\/p>\n<p>Por ter caracter\u00edsticas de pesquisa, a montagem dos espet\u00e1culos do Corpo Negro envolve muitos estudos. Antes dos ensaios, os integrantes definem o recorte de um tema e, a partir da\u00ed, s\u00e3o consultados v\u00e1rios autores, principalmente do teatro brasileiro e, de forma mais espec\u00edfica, do teatro negro no pa\u00eds. \u201cA jun\u00e7\u00e3o das pessoas do grupo tem, a princ\u00edpio, esse desejo pela pesquisa, por entender qual \u00e9 o lugar do negro, do corpo negro no teatro brasileiro. E, no caso do teatro negro, ele acontece, em sua grande maioria, a partir da pesquisa que \u00e9 feita por recortes\u201d, afirma Rog\u00e9rio Miranda.<\/p>\n<p>Devido ao pequeno n\u00famero de dramaturgos negros no Brasil, o grupo acaba tendo que recorrer a outras fontes, como poetas e m\u00fasicos negros. Rog\u00e9rio explica que, por causa da escassez de autores, h\u00e1 uma diferen\u00e7a do teatro negro para o teatro em si. \u201cA quantidade de textos produzidos por negros \u00e9 menor e, geralmente, est\u00e3o nos pr\u00f3prios grupos. Existem poucos que escrevem para outros grupos ou, exclusivamente, para publica\u00e7\u00e3o. Por isso, os textos n\u00e3o v\u00eam inteiros nem prontos, como uma obra de Shakespeare.\u201d<\/p>\n<p>Com isso, cada grupo produz sua pr\u00f3pria dramaturgia. Recolhe um material aqui, outro l\u00e1 e vai compondo o que ser\u00e1 dito em cena. \u201cDepois, esse grupo escolhe como o texto ser\u00e1 dito e, junto com isso, o que ser\u00e1 dito sem texto. O resultado disso \u00e9 uma dramaturgia de recortes\u201d, explica Rog\u00e9rio.<\/p>\n<p>Para Josiana, a falta de materiais tamb\u00e9m se deve \u00e0 invisibilidade do povo negro, que dificulta o lugar de fala. \u201cO que encontramos, geralmente, n\u00e3o \u00e9 bem o que gostar\u00edamos de dizer. E, se n\u00e3o tem, criamos. Esse \u00e9 um movimento tamb\u00e9m de autoria. A partir dos recortes, tamb\u00e9m compomos, fazemos m\u00fasica. Depende do trabalho e da proposta. Hoje, por exemplo, temos um espet\u00e1culo adulto e um infantil, e ambos s\u00e3o baseados em fontes diferentes.\u201d<\/p>\n<p>Para Rodrigo Raphael, um dos aspectos mais importantes da pesquisa \u00e9 a possibilidade de tirar dela situa\u00e7\u00f5es que se encaixem com a viv\u00eancia dos atores, o que, na vis\u00e3o dele, traz mais \u201cverdade\u201d na hora de atuar. \u201cTanto na pe\u00e7a infantil quanto na adulta, voltamos l\u00e1 atr\u00e1s e tentamos lembrar coisas que j\u00e1 passamos. Um trabalho de pesquisa mesmo, de nos olhar e nos enxergar diante daquela obra que estamos montando.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_1859\" aria-describedby=\"caption-attachment-1859\" style=\"width: 1280px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1859\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/FOTO-1-2.jpeg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"853\" srcset=\"https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/FOTO-1-2.jpeg 1280w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/FOTO-1-2-300x200.jpeg 300w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/FOTO-1-2-768x512.jpeg 768w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/FOTO-1-2-1024x682.jpeg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1859\" class=\"wp-caption-text\">Integrantes do grupo \u201cCorpo Negro\u201d. Ao fundo (esq. para dir.): Gabriel Saqueto, Rodrigo Raphael, Rog\u00e9rio Miranda e Anny Ribeiro. Na frente, (esq. para dir.): Gabriela Sampaio, Kauany Neris e Josiana Martins. Espet\u00e1culo infanto-juvenil \u201cO mundo come\u00e7a na cabe\u00e7a&#8221; (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/Corpo Negro)<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Grupo francano Corpo Negro denuncia o racismo apontando a falta de representatividade e de visibilidade nos palcos e na plateia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1860,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-1856","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura-alternativa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1856","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1856"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1856\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1873,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1856\/revisions\/1873"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1860"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1856"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1856"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1856"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}