{"id":1474,"date":"2018-07-24T18:31:17","date_gmt":"2018-07-24T18:31:17","guid":{"rendered":"https:\/\/agendasette.com.br\/?p=1474"},"modified":"2020-07-25T02:32:33","modified_gmt":"2020-07-25T02:32:33","slug":"violencia-obstetrica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agendasette.com.br\/?p=1474","title":{"rendered":"Viol\u00eancia obst\u00e9trica"},"content":{"rendered":"<p><em>Num momento que deveria ser de alegria pela chegada de um filho, mulheres relatam sofrimento na mesa de parto <\/em><!--more--><\/p>\n<p><strong>Carolina Oliveira<\/strong><\/p>\n<p><strong>Foto acima: Por medo, mulheres que sofreram em hospitais geralmente n\u00e3o revelam identidade (Banco de imagens)<\/strong><\/p>\n<p>O nascimento de uma crian\u00e7a \u00e9 uma das experi\u00eancias mais marcantes e emocionantes na vida de uma mulher. \u00c9 o final de nove meses de espera, quando todo seu corpo se preparou para essa chegada. A m\u00e3e poder\u00e1, finalmente, ver o rostinho do beb\u00ea. A ansiedade \u00e9 grande, pois o nome escolhido vai ganhar uma fisionomia e as roupinhas compradas com tanto carinho v\u00e3o abrigar aquele corpinho min\u00fasculo.<\/p>\n<p>\u00c9 um turbilh\u00e3o de sentimentos, todos misturados, que n\u00e3o cabem no peito (nem na barriga) e s\u00e3o acompanhados pelo medo. Medo do novo, de n\u00e3o se adaptar. De n\u00e3o dar conta. O que muitas esperam, nesse processo t\u00e3o complexo e, \u00e0s vezes, dolorido, \u00e9 ser bem acolhida e orientada no hospital onde escolheu dar \u00e0 luz. Mas nem sempre \u00e9 assim. Para algumas, o parto passa de um momento de imensa alegria para um trauma.<\/p>\n<p>Estima-se que, no Brasil, uma a cada quatro mulheres sofreram algum tipo de viol\u00eancia obst\u00e9trica, nem sempre de forma aberta, pois at\u00e9 mesmo coment\u00e1rios ofensivos s\u00e3o uma forma velada desse problema. Qualquer desrespeito \u00e0 autonomia ou a integridade f\u00edsica e mental, como ignorar escolhas ou prefer\u00eancias, \u00e9 viol\u00eancia obst\u00e9trica. Mas al\u00e9m de outro medo dessas mulheres, o de denunciar, quase n\u00e3o h\u00e1 puni\u00e7\u00e3o quando os casos v\u00eam \u00e0 tona, por causa das dificuldades de comprovar o ocorrido.<\/p>\n<p>O parto \u00e9 comumente relatado como um procedimento dif\u00edcil, pois, al\u00e9m das dores extremas, pode ser acompanhado pela solid\u00e3o dos centros cir\u00fargicos, pelas humilha\u00e7\u00f5es de enfermeiros e m\u00e9dicos e pela invas\u00e3o dos corpos sem permiss\u00e3o. Nos casos de viol\u00eancia obst\u00e9trica, a mulher \u00e9 silenciada, apagada, no momento em que deveria ser o foco das aten\u00e7\u00f5es e cuidados.<\/p>\n<p>Foi o caso de N. N., de Franca, que relata ter vivido momentos de horror. A m\u00e9dica plantonista n\u00e3o queria aceitar a interna\u00e7\u00e3o da estudante, pois estava pouco dilatada, mesmo ap\u00f3s sangramentos importantes. Ela foi mandada para casa, mas teve que voltar pouco tempo depois por conta das dores e de novos sangramentos. Ap\u00f3s ser internada, pediu um rem\u00e9dio para umas das enfermeiras, que trouxe um \u201csorinho\u201d para ajudar.<\/p>\n<p>O soro era a ocitocina, subst\u00e2ncia que \u00e9 produzida normalmente pelo corpo da mulher, mas que os hospitais utilizam, na vers\u00e3o sint\u00e9tica, para acelerar o parto. \u201cFiquei muito tempo sem comer, estava com muita dor e muito fraca. Apaguei na maca e acordei com o exame de toque do m\u00e9dico que havia assumido o plant\u00e3o. Ele estava com v\u00e1rios estudantes em volta, todos observando e anotando.\u201d<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o exame, o m\u00e9dico percebeu que o quadro n\u00e3o havia evolu\u00eddo e a encaminhou para a ces\u00e1rea. \u201cEstava t\u00e3o fraca que nem vi direito o que acontecia. Minha vis\u00e3o estava turva. Assim que minha filha nasceu, levaram para longe de mim e eu nem a vi\u201d.<\/p>\n<p>Outra m\u00e3e, que pede para n\u00e3o ser identificada, tamb\u00e9m passou por experi\u00eancias bastante humilhantes. \u201cFui internada \u00e0s sete horas da manh\u00e3 e passei o dia inteiro l\u00e1. Meu marido n\u00e3o p\u00f4de ficar comigo e teve que aguardar em uma sala separada. Fiquei sozinha na sala de pr\u00e9-parto, mas, como as dores estavam suport\u00e1veis, fiquei de boa. Mas, l\u00e1 pelas sete da noite, romperam minha bolsa, que n\u00e3o tinha rompido de forma natural, e come\u00e7ou o meu pesadelo. Tive dores muito fortes, que nem imaginei que eram poss\u00edveis. Uma coisa \u00e9 voc\u00ea imaginar a dor, outra \u00e9 sentir.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_1477\" aria-describedby=\"caption-attachment-1477\" style=\"width: 200px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1477\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/beb\u00ea-200x300.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/beb\u00ea-200x300.jpg 200w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/beb\u00ea-768x1152.jpg 768w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/beb\u00ea-683x1024.jpg 683w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1477\" class=\"wp-caption-text\">Uma a cada quatro brasileiras com filhos sofreram viol\u00eancia de profissionais da sa\u00fade (Foto: Banco de imagens)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ela relata que era hostilizada ao expressar a dor. \u201cEles [enfermeiros e m\u00e9dicos] avisavam que n\u00e3o queriam escutar nenhum grito aqui, que dor todo mundo sente, mas que dava para aguentar caladinha, sem esc\u00e2ndalo\u201d.<\/p>\n<p>A pior parte, no entanto, estava por vir. Dentro do centro cir\u00fargico. \u201cQuando era onze da noite, falei para a enfermeira que precisava ir ao banheiro e ela me mandou levantar da cama, que tava na hora de nascer. Fui andando para o centro cir\u00fargico, com muita dificuldade. Avisei que meu marido queria acompanhar o parto e ela achou ruim. Come\u00e7ou a berrar pra chamar o marido \u2018dessa a\u00ed\u2019 e para andarem r\u00e1pido.\u201d<\/p>\n<p>Chegando \u00e0 sala de parto, ela foi deitada. Pediram que fizesse for\u00e7a. Mais uma vez sem gritar. \u201cComo eu tinha ficado o dia todo sem comer, nem beber nada, estava muito fraca e avisei a enfermeira. Ela chamou outra enfermeira e as duas subiram na minha barriga, empurrando. Aquilo doeu demais. Depois, o m\u00e9dico disse que ia cortar e simplesmente me cortou. Fez episiotomia [corte na \u00e1rea entre a vagina e o \u00e2nus]. Nem me perguntou se eu estava de acordo. Ap\u00f3s o parto, levaram minha filha. Todos sa\u00edram da sala. S\u00f3 sobraram eu, o m\u00e9dico e algumas auxiliares. Ele come\u00e7ou a me costurar cantando sertanejo, como se eu fosse um bicho, sei l\u00e1. Me senti muito humilhada. Fiquei com vontade de chorar, mas n\u00e3o tinha nem for\u00e7as pra isso\u201d.<\/p>\n<p><strong>Doulas<\/strong><\/p>\n<p>No ano passado, foi sancionada uma lei que permite o acompanhamento de doulas em hospitais de Franca, o que trouxe alento a gestantes e novas oportunidades de emprego. \u00c9 o caso de Karoline Marchetti, que come\u00e7ou a pesquisar sobre o tema quando estava gr\u00e1vida e se viu envolvida no companheirismo de mulheres que estavam na mesma situa\u00e7\u00e3o, buscando conhecimento e lutando por um parto respeitoso e pelo direito de ter uma doula como acompanhante. \u201cNesse caminhar, conheci Mara Freira, que me formou doula.\u201d<\/p>\n<p>A palavra doula, do grego <em>abula<\/em>, significa \u201caquela que serve\u201d. \u00c9 uma profissional que trata o parto de uma forma natural e n\u00e3o patol\u00f3gico. N\u00e3o possui conhecimento t\u00e9cnico da \u00e1rea da sa\u00fade, mas d\u00e1 assist\u00eancia e informa a mulher durante toda a gesta\u00e7\u00e3o, parto e p\u00f3s-parto, sempre buscando mediar situa\u00e7\u00f5es, trazer harmonia, seguran\u00e7a e consci\u00eancia do pr\u00f3prio corpo, das mudan\u00e7as dos procedimentos m\u00e9dicos e, tamb\u00e9m, da realidade violenta nos hospitais.<\/p>\n<p>Essa profissional tem base intuitiva e pr\u00e1tica, pois, durante a gravidez, abre os caminhos para que a gestante compreenda seus desejos e vontades, com informa\u00e7\u00f5es baseadas na ci\u00eancia. No parto, tem o papel de coadjuvante, auxiliando nos momentos de dor, com massagens e outros m\u00e9todos n\u00e3o farmacol\u00f3gicos. Ap\u00f3s o nascimento, ainda ajuda no aleitamento e d\u00e1 apoio emocional \u00e0 nova m\u00e3e.<\/p>\n<p>Karoline afirma que, por ser algo novo, enfrenta dificuldades. \u201cAs pessoas n\u00e3o entendem o que \u00e9 esse trabalho e alguns m\u00e9dicos t\u00eam medo de nos deixar entrar para acompanhar as parturientes, pois, com as nossas instru\u00e7\u00f5es, fazemos a mulher mais consciente de sua natureza e n\u00e3o aceite todos os procedimentos propostos sem necessidade. Alguns m\u00e9dicos se sentem diminu\u00eddos por isso, mas estamos falando da recep\u00e7\u00e3o de um novo ser humano e de uma nova mulher-m\u00e3e que cuidar\u00e1 desses filhos, que tamb\u00e9m s\u00e3o filhos de toda uma na\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_1475\" aria-describedby=\"caption-attachment-1475\" style=\"width: 960px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1475\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pregnant-971982_960_720.jpg\" alt=\"\" width=\"960\" height=\"640\" srcset=\"https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pregnant-971982_960_720.jpg 960w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pregnant-971982_960_720-300x200.jpg 300w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pregnant-971982_960_720-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1475\" class=\"wp-caption-text\">O carinho recebido em casa nem recebe se repete nos hospitais (Foto: Banco de imagens)<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num momento que deveria ser de alegria pela chegada de um filho, mulheres relatam sofrimento na mesa de parto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1476,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-1474","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sexualidade-e-genero"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1474","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1474"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1474\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1482,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1474\/revisions\/1482"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1476"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1474"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1474"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1474"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}