{"id":1162,"date":"2020-04-04T14:21:20","date_gmt":"2020-04-04T14:21:20","guid":{"rendered":"https:\/\/agendasette.com.br\/?p=1162"},"modified":"2020-06-15T18:45:07","modified_gmt":"2020-06-15T18:45:07","slug":"ameaca-as-bananas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agendasette.com.br\/?p=1162","title":{"rendered":"Amea\u00e7a \u00e0s bananas"},"content":{"rendered":"<p><em>Mal-do-panam\u00e1, que dizimou a variedade Gros Michel, representa um risco a outras: Col\u00f4mbia tem plantas contaminadas<\/em><!--more--><\/p>\n<p><strong>Pedro Klein<\/strong><\/p>\n<p><strong>Foto acima:\u00a0Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO), 36% das exporta\u00e7\u00f5es de banana t\u00eam como origem o Equador (Agencia de Regulaci\u00f3n y Control Fito y Zoosanitario\/Equador)<\/strong><\/p>\n<p>A banana \u00e9 a fruta mais consumida no Brasil. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (Embrapa), 6,9 milh\u00f5es de toneladas da fruta s\u00e3o produzidos por ano em todos os estados e no Distrito Federal \u2013 95% para consumo interno. Isso d\u00e1 25 quilos de banana <em>per capita<\/em>.<\/p>\n<p>Quase todas essas bananas s\u00e3o da mesma esp\u00e9cie. Prata, ma\u00e7\u00e3 e nanica s\u00e3o g\u00eaneros da variedade Cavendish, cujo cultivo se iniciou na primeira metade do s\u00e9culo XIX. Todavia, a banana que se come hoje \u00e9 muito diferente da que era consumida 60 anos atr\u00e1s, justamente porque era uma esp\u00e9cie completamente diferente.<\/p>\n<p>A banana Gros Michel foi desenvolvida na ilha da Martinica, um territ\u00f3rio franc\u00eas no Caribe, pelo bot\u00e2nico Nicolas Baudin tamb\u00e9m no s\u00e9culo XIX, a partir de algumas mudas trazidas da \u00c1sia. A planta se espalhou pelo Caribe e era consumida pelos habitantes locais, mas praticamente desconhecida no resto do mundo. Foi s\u00f3 a partir da d\u00e9cada de 1910 que a banana passou a dominar os hortifr\u00fatis.<\/p>\n<p>Era uma fruta barata, crescia muito bem na Am\u00e9rica Central e era muito conveniente: f\u00e1cil de armazenar, dispensava embalagem e era r\u00e1pida de descascar. Perfeita para os almo\u00e7os dos trabalhadores das f\u00e1bricas dos Estados Unidos. Por quarenta anos, at\u00e9 a d\u00e9cada de 1950, a banana Gros Michel reinou no mercado de frutas das Am\u00e9ricas, mas foi eliminada do cultivo comercial e est\u00e1 praticamente extinta. A raz\u00e3o disso? O mal-do-panam\u00e1.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1165\" aria-describedby=\"caption-attachment-1165\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-1165\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/WhatsApp-Image-2020-04-04-at-11.04.32-1-1024x498.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"389\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1165\" class=\"wp-caption-text\">No Equador, maior produtor mundial, a banana rende 3 bilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano, empregando cerca de 17% da popula\u00e7\u00e3o (Foto: Agencia de Regulaci\u00f3n y Control Fito y Zoosanitario\/Equador)<\/figcaption><\/figure>\n<p>A doen\u00e7a, causada pelo fungo <em>Fusarium oxysporum<\/em>, \u00e9 transmitida por \u00e1gua contaminada ou por processos de manejo inadequados. As pr\u00e1ticas de com\u00e9rcio predat\u00f3rias da United Fruit, a empresa que tinha o virtual monop\u00f3lio da banana \u00e0 \u00e9poca, aceleraram a contamina\u00e7\u00e3o do fungo por toda a Am\u00e9rica Central. Como efeito, na d\u00e9cada de 1960, o preju\u00edzo pelo fungo, segundo computado pelas empresas exportadoras, foi de 2,3 bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>O mal-do-panam\u00e1 n\u00e3o tem cura nem fungicida preventivo. Quando \u00e9 detectado, n\u00e3o \u00e9 rara a necessidade da destrui\u00e7\u00e3o de toda a cultivar. A isso se soma o fato de as bananas se reproduzirem assexuadamente. S\u00e3o todas geneticamente id\u00eanticas e, portanto, possuem as mesmas fragilidades a patog\u00eanicos. \u00c9 importante pontuar que a doen\u00e7a n\u00e3o afeta humanos, apenas as cultivares. As bananas que est\u00e3o no mercado, de qualquer origem, s\u00e3o seguras para o consumo sob a \u00f3ptica do mal-do-panam\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Resist\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>As bananas Cavendish s\u00e3o resistentes a essa variedade espec\u00edfica do <em>Fusarium oxysporum<\/em> e puderam substituir a Gros Michel. N\u00e3o sem adapta\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que a Cavendish \u00e9 mais sens\u00edvel, possui maiores perdas no transporte e apodrece mais r\u00e1pido. Apesar do choque no fornecimento e as necessidades de altera\u00e7\u00f5es na cadeia produtiva, a Cavendish obteve sucesso em seu cultivo e a demanda por banana cresceu durante toda a metade seguinte do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1990, todavia, uma nova variedade do mal-do-panam\u00e1, a qual a Cavendish n\u00e3o tem resist\u00eancia, foi detectada em Taiwan, de onde se espalhou para a \u00c1frica Oriental e o Oriente M\u00e9dio, devastando planta\u00e7\u00f5es por onde passava.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a n\u00e3o atingiu ainda a \u00c1frica Ocidental e foi contida com sucesso na Austr\u00e1lia em 2015 e 2017. As autoridades nas Am\u00e9ricas, a principal regi\u00e3o produtora do mundo, estiveram em alerta m\u00e1ximo, monitorando o avan\u00e7o do fungo. Em 2013, pa\u00edses da Am\u00e9rica Central publicaram um plano de conten\u00e7\u00e3o conjunto, ainda em opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1164\" aria-describedby=\"caption-attachment-1164\" style=\"width: 576px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-1164\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/FOTO-5-576x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"576\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/FOTO-5-576x1024.jpg 576w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/FOTO-5-169x300.jpg 169w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/FOTO-5.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 576px) 100vw, 576px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1164\" class=\"wp-caption-text\">Imagem mostra como mal-do-panam\u00e1 age na bananeira: ainda n\u00e3o h\u00e1, na Am\u00e9rica, plano para o combate (Foto: L\u00e9a Cunha\/Divulga\u00e7\u00e3o Embrapa)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Mas nenhum dos cuidados foi o bastante para evitar a contamina\u00e7\u00e3o, uma vez que, em agosto de 2019, foram detectadas plantas doentes na Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>O pa\u00eds vizinho, o Equador, \u00e9 o maior produtor global de bananas. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO), 36% das exporta\u00e7\u00f5es t\u00eam como origem o pa\u00eds sul-americano. A cultivar representa o segundo maior lan\u00e7amento nas contas do pa\u00eds, com 2% do PIB e 36% do setor agr\u00edcola nacional, perdendo s\u00f3 para a ind\u00fastria do petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>A banana rende 3 bilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano \u00e0 economia equatoriana <em>free-on-board<\/em> (descontados os custos com fretes e seguros) e 17% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds t\u00eam v\u00ednculo com o cultivo da fruta, que ocupa quase 300 mil hectares em terras agricultur\u00e1veis.<\/p>\n<p>A autoridade fitossanit\u00e1ria do pa\u00eds possui plano de conten\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a desde 2011 e, a partir da detec\u00e7\u00e3o do caso na Col\u00f4mbia, as a\u00e7\u00f5es foram endurecidas, com esta\u00e7\u00f5es de desinfec\u00e7\u00e3o em aeroportos, portos e aduanas, capacita\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicos e produtores e cumprimento de protocolos para a importa\u00e7\u00e3o de plantas <em>in vitro<\/em>. Ainda n\u00e3o h\u00e1 casos identificados no Equador, tampouco em nenhuma outra na\u00e7\u00e3o das Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p><strong>Extin\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>No Equador, a institui\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel por isso \u00e9 o Instituto Nacional de Investigaciones Agropecuarias (INIAP), que estuda desenvolvimento e uso consciente de defensivos agr\u00edcolas, bem como tamb\u00e9m trabalha com o melhoramento gen\u00e9tico da planta.<\/p>\n<p>Para Fernando Garc\u00eda-Bastidas, bi\u00f3logo colombiano, em entrevista \u00e0 reda\u00e7\u00e3o National Geographic, os esfor\u00e7os de conten\u00e7\u00e3o est\u00e3o sendo eficientes, mas, sem um fungicida, a erradica\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel. A elimina\u00e7\u00e3o completa da banana Cavendish \u00e9, hoje, um risco concreto e prov\u00e1vel e, ao contr\u00e1rio do que ocorreu com a Gros Michel, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma outra esp\u00e9cie dispon\u00edvel hoje que a substitua.<\/p>\n<p>No Brasil, projetos de melhoramento gen\u00e9tico e desenvolvimento de fungicidas s\u00e3o conduzidos pela Embrapa e por v\u00e1rias universidades p\u00fablicas, estaduais e federais, ao longo de toda a d\u00e9cada de 2010. Tanto a Embrapa como o Minist\u00e9rio da Agricultura (MAPA) foram procurados para dar esclarecimentos, mas a reportagem\u00a0n\u00e3o recebeu respostas.<\/p>\n<p>O Brasil possui um plano de conting\u00eancia da doen\u00e7a, em vigor desde 2018, mas, desde a posse do novo minist\u00e9rio, em janeiro, nem com a detec\u00e7\u00e3o do caso colombiano, novas a\u00e7\u00f5es foram implantadas.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Central, a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional Regional de Sa\u00fade Agropecu\u00e1ria (OIRSA) articula as a\u00e7\u00f5es de combate ao fungo. No resto do continente, ainda n\u00e3o h\u00e1 um plano concreto de coopera\u00e7\u00e3o internacional. O que existe, atualmente, \u00e9 a Declara\u00e7\u00e3o Regional de Autoridades Agropecu\u00e1rias Sobre o Foc R4T, que pede aos pa\u00edses signat\u00e1rios um esfor\u00e7o mais concentrado na prote\u00e7\u00e3o dos plant\u00e9is.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o consumo e a demanda por banana continuam fortes. As vendas ao exterior das bananas equatorianas est\u00e3o previstas para aumentar em 3% em valores <em>free-on-board<\/em> neste ano, em compara\u00e7\u00e3o com dados de 2018.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio mundial \u00e9 de preocupa\u00e7\u00e3o. E o tempo de agir est\u00e1 diminuindo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1166\" aria-describedby=\"caption-attachment-1166\" style=\"width: 960px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1166\" src=\"http:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/WhatsApp-Image-2020-04-04-at-11.04.32-2.jpeg\" alt=\"\" width=\"960\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/WhatsApp-Image-2020-04-04-at-11.04.32-2.jpeg 960w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/WhatsApp-Image-2020-04-04-at-11.04.32-2-225x300.jpeg 225w, https:\/\/agendasette.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/WhatsApp-Image-2020-04-04-at-11.04.32-2-768x1024.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1166\" class=\"wp-caption-text\">A partir do caso na Col\u00f4mbia, Equador endureceu as a\u00e7\u00f5es, com esta\u00e7\u00f5es de desinfec\u00e7\u00e3o em aeroportos, portos e aduanas, capacita\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicos e produtores e protocolos para garantir importa\u00e7\u00e3o de plantas sadias (Foto: Agencia de Regulaci\u00f3n y Control Fito y Zoosanitario\/Equador)<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mal-do-panam\u00e1, que dizimou a variedade Gros Michel, representa um risco a outras: Col\u00f4mbia tem plantas contaminadas<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1167,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-1162","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ciencia-transformadora"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1162","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1162"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1162\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1200,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1162\/revisions\/1200"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1167"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1162"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1162"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agendasette.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1162"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}