Mães solo

Mulheres que cuidam sozinhas dos filhos relatam trabalho e apreensão aumentados durante a pandemia de Covid-19

Júlia Paiva

Foto acima: Poliana com os filhos, Pedro e Felipe: bolsa da universidade e auxílio emergencial ajudam no orçamento (Acervo pessoal)

“A pandemia do novo coronavírus certamente visibilizou e deixou à mostra o quanto as mulheres estão em uma situação de fragilidade e, ao mesmo tempo, de sobrecarga de trabalho, que tem a ver com questões de gênero, raça, e também com seu direito de uso da cidade, sua posição geográfica, sua posição no coletivo onde mora: se ocupa um espaço de poder, mesmo que seja em um coletivo periférico, como uma comunidade rural, um grupo de mulheres, se está ou não em uma rede de interação social. A pandemia explicitou o quanto é importante o trabalho dos cuidados”.

A reflexão é de Vivian Delfino, que mora em São Paulo, é doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas-SP (Unicamp) e docente no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), em São Roque-SP. Segundo ela, o cuidar, que, no caso das mães, não é visto como um trabalho, mas como uma obrigação, é economicamente fundamental para a manutenção da sociedade. E, quando a mulher que fica em casa por causa da Covid-19 é uma mãe solo, passa a ter sobrecarga ainda maior: além de casa e emprego, os filhos demandam atenção intensa.

O termo “mãe solo” é usado para designar mulheres inteiramente responsáveis pela criação dos filhos. Com ele, o conceito de “mãe solteira” caiu em desuso, já que estar ou não em um relacionamento não quer dizer, necessariamente, compartilhar a missão de cuidar.

Quatro histórias. Quatro mães solo contaram à reportagem suas vivências durante a pandemia. Medos, receios, ansiedade, angústia… São temas comuns a elas. E a expectativa é que a Covid-19 dê uma trégua, para que possam respirar. Nem que seja um pouco.

O começo

Franca está ensolarada. Enquanto me preparo para conversar com Daniele Lima, que mora em Iguatu-CE, arrumo a casa. Sinto o suor pingando. Duas horas da tarde e está muito calor. Não sou mãe e a rotina já é dura. Me imagino no lugar de Daniele, que coloca o filho para brincar antes de falar comigo.

“Chamada de vídeo? Não posso responder em áudio? É melhor pra mim. Meu filho é 24 horas no meu pé”, pede Daniele. Digo que sim, ao perceber, também, que ela é tímida. Ao ficar confortável, ela poderia me contar sobre a vida dela de forma mais aberta.

Daniele tem 28 anos e tem um dia a dia que não é nada remoto. Passa o tempo inteiro em casa com José Kauan, de cinco anos, brincando, ajudando nas atividades escolares e cuidando da casa. “Sou uma pessoa extremamente nervosa. Então, evito sair de casa, principalmente com ele. Só se for algo urgente. As pessoas da minha cidade não têm respeito”.

Era março do ano passado quando começaram os alertas sobre o novo coronavírus. O que parecia ser apenas um resfriado encheu ainda mais os hospitais, que já eram lotados. Não havia leito para todo mundo. Comércios foram fechados, trabalhadores dispensados. Escolas pararam. As recomendações eram evitar aglomerações e usar máscara e álcool em gel.

“Entrei em pânico”, lembra Daniele. A maior preocupação era com o pequeno José Kauan, que é autista. Tem a imunidade baixa. Já teve pneumonia e come muito pouco de comida saudável. “Até hoje, estou assustada. Cheguei a fazer terapia, porque realmente me encontrei com medo. Foi e ainda é bastante complicado.”

Tudo no seu tempo, meu filho

O menino, que estuda em escola particular, passou a receber as atividades em casa. Mas, segundo Daniele, é preciso seguir o tempo dele para cumpri-las. “Tiro o tempo em que ele está apto. Quando está com vontade de fazer a tarefinha, faz direitinho. Agora, se estiver irritado, já fica complicado de ensinar, porque, geralmente, quando erra alguma coisa, fica agitado, quer rabiscar a tarefa toda. Sempre procuro o horário em que ele está mais calmo. Não importa se é manhã, tarde ou noite.”

Para cuidar do filho, Daniele até recebe a ajuda da mãe dela, mas só quando ele está a fim de ficar com outra pessoa. Enquanto ela limpa a casa, a avó de José Kauan fica com neto. Mas, quando ele só quer a mãe, não tem jeito: Daniele precisa estar disposta a tudo. A psicóloga Rafaela Cortez, de Ribeirão Preto-SP, diz que, nesses casos, uma rede de apoio é fundamental. “Geralmente, essa rede é a família. Todo esse conjunto e esse contexto acabam contribuindo”.

Entretanto, a psicóloga destaca que as mães devem estar abertas a essa ajuda. “Existe muito na cabeça da mãe que ela precisa tomar conta de tudo, mas está tudo bem se não conseguir. É muita coisa, muito pesado. E não é só ter à disposição essa rede. Temos um ponto importante aqui: saber até onde consigo ir e até onde não consigo, reconhecendo que preciso de auxílio.”

Enquanto conversamos, é possível ouvir a voz de José Kauan ao fundo, cantando. Sinto que, em algum momento, vai chamar pela mãe. E chama. Daniele o atende, encerrando o áudio.

Tudo vai passar

Apesar de morar com a mãe, a irmã, um sobrinho de 13 anos e o filho, Daniele se sente sozinha. Ainda mais sendo a maior responsável por José Kauan. Nos primeiros segundos de um de seus áudios, de três minutos, sua voz está embargada. É preciso parar pra respirar e voltar a falar. “Sim… Ele é uma criança que é indecisa, às vezes quer fazer tudo ao mesmo tempo. Quer coisas que não pode. Tem dias que estou cansada, mas não fisicamente, psicologicamente”.

Os momentos em que o filho vê objetos na internet e deseja tê-los estão entre os mais difíceis. Explicar que não tem condições de dar ou que, ali onde moram, não tem o que o filho deseja a deixa exausta.  A situação piora porque ele não entende o “não”.

Daniele segue o que a psicóloga do filho, Nathalia, orientou para essas situações: substituir o “não” por outras palavras. “É o que exige muita paciência. Tem que sentar, explicar, acalmar. E você tem que ser uma pessoa  bem trabalhada”.

Todo dia é de cansaço. Difícil lidar com tudo à volta. A preocupação de adoecer, do filho ou de qualquer outra pessoa dentro de casa recai sobre ela. “Faço sempre o possível pra ele ficar dentro de casa, longe de poeira. Tem dias que deito e estou exausta. Tenho crises de ansiedade, gastrite nervosa. Fiz um tempo de terapia online para ajudar a trabalhar isso tudo.”

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, no livro “Sociedade do cansaço”, afirma que a busca implacável pelo “seu melhor”, “dando tudo de si”, leva ao adoecimento psicológico. Han argumenta que são comuns, em nossa sociedade, a depressão e a Síndrome de Burnout, uma condição que afeta as pessoas que se submetem ao cansaço constante.

Nesse caso, os sintomas recorrentes são a insônia (ou excesso de sono sem descanso) e o estresse contínuo, que também aparecem na depressão e na síndrome do pânico. Desse modo, o indivíduo não possui mais amarras que o prendem fisicamente, mas um sistema em que ele perde a liberdade sem que perceba.

Para a psicóloga Rafaela, a saúde mental dessas mães é um caos, pois tudo é responsabilidade delas. “O lado que vejo que foi mais prejudicado foi a autoestima. Elas priorizam tudo e acabam se deixando por último. E, nas 24 horas, muitas vezes não dá tempo de chegar nesse último. O que tem acontecido é essas mães, por exemplo, começarem a ver que não estão dando conta dessas crianças”.

Ainda conforme a psicóloga, “elas se olham no espelho e não se sentem mais poderosas, donas de si mesmas, suficientes, capazes. E isso tudo acaba prejudicando.”

A psicóloga Rafaela Cortez alerta para importância de rede de apoio (Foto: Acervo pessoal)

Entre chuva e relâmpagos

São quase dez horas da noite quando começa a chover em Franca. A internet de casa começa a oscilar. Fico apreensiva. O bairro onde moro, o City Petrópolis, localizado na zona norte, não pode ver uma chuva que a energia cai.  Apesar de morarmos na mesma cidade, por preocupação à saúde das duas e de todos ao nosso redor, e devido ao fato de Kétani Amaral trabalhar e estudar, a entrevista será feita remotamente.

Kétani me manda o link de uma sala no Google Meet para que possamos conversar. Ela está no quarto dela. O filho, em pé ao seu lado, desviando o olhar do celular que segura para a câmera do computador. “Benício, vai ver no seu quarto”, pede a mãe. O garotinho atende e sai.

Kétani tem 25 anos, trabalha numa grande rede de lojas e estuda Direito. Tem dois filhos, Valentina, de nove anos, e Benício, de cinco. No começo da pandemia, ela trabalhava em outra empresa e conta que foi complicado. Morava no centro da cidade com os filhos e precisava deixá-los na casa da mãe e do padrasto dela. Depois de ficar desempregada, tinha dificuldade para conciliar o trabalho doméstico, a faculdade, pela qual passou a ter aulas online, e o cuidado com os filhos. Ainda mais morando sozinha com eles. “Não tínhamos nenhuma rotina. Eles em casa só queriam ficar assistindo televisão, deitados. Não queriam brincar e, muito menos, fazer as atividades da escola. Tento fazer uma coisa diferente, incentivar, mas é muito difícil mesmo”. Com o aumento no número de casos de Covid-19, a mãe e o padrasto foram morar com ela. Um alívio.

Para a professora Vivian Delfino, a rede de apoio familiar deve ser, também, uma rede de afeto. “Geralmente, as mães solo contam com um elemento-chave, que é a avó das crianças, geralmente a avó materna. Muitas vezes parceira, apoia a criação dos netos de forma afetuosa e não joga na cara que é obrigada a cuidar.” .

Auxílio

Kétani lembra que, no começo da pandemia, o auxílio emergencial a ajudou. “Como eu era sozinha, recebia R$ 1.200. Perdi meu emprego, mas o auxílio supriu”. A estudante declara, porém, que, no quesito Educação, o governo falhou.

Benício reaparece quando estamos conversando sobre uma possível volta às aulas e se ela deixaria os filhos retornarem. Envergonhado, depois de dizer um oi, ele permanece atrás da mãe. “Me questiono sobre isso. De verdade, não sei responder. Às vezes, fico pensando que seria bom. A rotina da escola faz falta pra eles. Mas, ao mesmo tempo, não sei se seria bom. Crianças não tomam cuidado, né? Tanto para eles quanto para os professores, que, geralmente, são mais velhos.”

A conversa termina com Kétani receosa sobre o futuro. Ela não sabe se tudo voltará ao “normal”.

Longe de casa

É uma tarde de quarta-feira quando falo com Poliana Araújo, de 27 anos. Em Franca, os termômetros marcam 29 graus. Enquanto a espero terminar o almoço, reviso as perguntas que pretendo fazer. A conversa, por telefone, começa minutos depois. Poliana mora em Presidente Prudente,  a 535 quilômetros de Franca. É mãe do Pedro e do Felipe, de oito e seis anos, respectivamente.

Após ganhar uma bolsa de estudo pelo Prouni, Poliana se mudou de Franca para Presidente Prudente para cursar Agronomia. Nesse processo, perdeu a guarda do primogênito. O pai da criança tinha uma estabilidade financeira melhor. O juiz determinou que era melhor a criança ficar com ele, enquanto a mãe terminava o curso. Já Felipe seguiu com ela.

Os meninos são filhos de pais diferentes. Poliana conta que o de Felipe é ausente. Apenas manda a quantia da pensão no final do mês. Em compensação, a avó paterna gosta muito do neto. Apesar de morar longe do filho mais velho, a estudante confia na rede de apoio. E no próprio Pedro, que, desde o princípio, compreendeu que a mãe precisava estudar. “Desde quando me mudei, ele entendeu que a mamãe estava indo pra ter uma vida melhor. E como ele é próximo do pai, não sentiu tanta diferença. O que foi pesado pra ele foi se afastar do irmão”.

Mãe e filho conversam todos os dias por telefone. E jogam um game que ficou bastante famoso na quarentena, o Amoung Us, em que a tripulação precisa descobrir quem é o impostor e expulsá-lo.

Sobrecarga

Um dos primeiros efeitos da pandemia na vida de Poliana foi o fechamento da universidade. “Fechou antes mesmo da escola do Felipe. Agora ficando em casa, achei que daria tudo certo. Mas está tudo corrido. Estou no último semestre. Tem TCC, horas extras para entregar, estágio. Depois que comecei a ter aulas online, a escola do Felipe fechou.”

A fala é cortada pela do filho, que a chama. Poliana pede licença e diz que vai ajudar o pequeno. Logo, volta partindo de onde paramos a conversa. “A professora fez um grupo e começou a mandar as atividades. Mas, para mim, é muito complicado auxiliá-lo, porque tenho aula online todos os dias, das sete e meia da manhã às seis da tarde. E ele tem uma dificuldade gigante de se concentrar. Na escola, é mais fácil, pois tem os amiguinhos fazendo. Isso o estimula. Aqui em casa, sou só eu. Tento fazer, mas é bem difícil. Ele ficou com bastante atividade atrasada.”

Vivian Delfino lembra que, quando as atividades pararam, as mães foram impactadas financeiramente. “Você tem que atender uma demanda de filhos que ficam em casa, que vão comer mais, gastar mais energia, vão exigir que você consiga providenciar uma distração. E tem a questão da escola virtual, que exige que essa mãe tenha condição de ofertar: um computador, um celular ou os dois, além de uma internet capaz de manter uma aula online, a assistência da realização dos trabalhos ou, então, arcar com o ônus de ver seu filho não estudando.”

Vivian ainda destaca que, ao ficarem em casa, as pessoas perceberam a importância dos cuidados, e, no caso das mães solo, significou uma sobrecarga maior. “As crianças ficaram em casa e exigem um cuidado 24 horas, não só de cozinhar, passar… É de olhar, de atender, ser requisitada muito mais vezes. O fato de não ter o tempo da escola fez com que elas tivessem uma sobrecarga imensa. Exigem que tenham paciência para estar sempre à disposição de atender o ‘mãe’ que vai vir durante todo o dia”.

Com a quarentena, Felipe, por exemplo, ficou bastante ansioso. Poliana conta que ele engordou e tem que fazer uma dieta por estar acima do peso. “Ele passa por uma psicóloga, também faz tratamento com a dono, porque tem deficiência auditiva”.

No aspecto financeiro, Poliana recebe uma bolsa de R$ 400 da universidade, além da pensão do filho. E também conseguiu o auxílio emergencial de R$ 300 reais. Pelo fato de o cadastro único estar em conjunto com o da mãe, que é aposentada, não conseguiu a ajuda inicial de R$ 1.200 paga pelo Governo Federal.

Um dia de cada vez

Ao mesmo tempo que Poliana disserta que os estudos pesam até mais do que cuidar dos filhos, se ouve a voz de Felipe ao fundo. Ele brinca com algum objeto perto da mãe. “No meu curso, muita coisa é aula prática e a gente não está aprendendo direito. Ainda bem que minha faculdade oferece terapia de graça. Faço toda semana, senão tinha surtado ainda mais. Evito sair de casa, mas isso me sufoca um pouco. Sou uma pessoa sociável, gosto de encontrar os amigos. São coisas que estou evitando. Mas a gente vai levando, um dia de cada vez”.

O tempo que Poliana consegue pra ela é na hora de dormir. Após terminar os estudos, por volta das seis da tarde, dá banho em Felipe, arruma a cozinha, faz janta. Às vezes, ainda brinca um pouco com o filho ou assiste a um desenho.

Com a voz demonstrando o cansaço de um dia que está longe de acabar, diz que o que mais deseja é uma vacina. “Para poder voltar tudo ao normal. Ano que vem, saio para o estágio, e provavelmente não vai ser aqui [Presidente Prudente], nem em Franca. De novo, terei que ficar longe das crianças. O Felipe é muito sentido com essas coisas”.

Mesmo que o “normal” não seja o de antes, ela espera que, pelo menos, a rotina seja diferente. “Que a gente consiga voltar um pouquinho da nossa vida. Que eu consiga trabalhar e dar início ao que eu vim buscar quando vim fazer faculdade, que é ter uma estabilidade financeira e dar uma vida melhor para os meninos.”

Vivian: “pandemia explicitou importância dos cuidados” (Foto: Acervo pessoal)

A última festa

Vivian Delfino, que, durante a entrevista, revelou também ser mãe solo, aceitou dar seu depoimento sobre isso. Por causa dos compromissos dela, combinamos outra data para que a conversa continuasse. Mas foi difícil. Mãe, professora e doutoranda, não tinha dias compatíveis com os meus. Na agenda dela, muitos congressos e palestras.

Depois de muito tentar, consegui para um dia que chovia muito em São Paulo, onde ela mora, e em Franca. Vivian se mostra preocupada. A energia oscila na cada dela, o que também é uma preocupação da minha parte. Mas o universo comanda e, no final, corre tudo bem.

No início, quando vieram as primeiras notícias sobre um vírus que circulava na China, Vivian não se preocupava. Não fazia ideia de que chegaria ao Brasil. A família comemorava o aniversário de Caio, o filho único dela, que completava 13 anos naquele janeiro de 2020.

A vida antes da chegada do novo coronavírus era como um filme clichê. As ruas cheias,  crianças brincando nos playgrounds, amigos se juntando para o churrasquinho de domingo, os bares lotados. Os corredores das escolas e universidades contavam histórias por meio dos falatórios, risadas e cochichos.

Haveria tempo, ainda, para a última festa antes do distanciamento social. O aniversário da mãe de Vivian, em 7 de fevereiro. “Pouco tempo depois, o Caio parou de ir à escola. Já fechou tudo e, quando teve o primeiro caso de morte aqui, ele ficou muito angustiado. Eu também. Mas a gente achava que ia passar rápido.”

Mesmo de longe, já que a entrevista é via WhatsApp, é possível identificar o cansaço na voz de Vivian, principalmente quando lembra o começo da pandemia. No primeiro mês, o sentimento foi de surpresa, que, com o passar do tempo, foi virando medo, apreensão. “O problema mesmo começou a ficar punk quando chegou no meio do ano e nada tinha mudado, quando deu um semestre enfiado em casa. O que o Caio teve muito no início foi medo de pegar, que os avós ficassem doentes.”

Relação de mãe e filho

Entre as mães entrevistadas para a reportagem, Vivian é a única de um menino entrando na adolescência. Antes da pandemia, eles saíam muito juntos. Praia e cinema estavam entre os passeios prediletos. E não é difícil visualizá-la curtindo um dia com o filho. Nas poltronas do cinema, rindo com uma comédia ou tapando os olhos em um filme de terror, com ele rindo do medo que ela sente. Ou um domingo na areia, com raios de sol que confortam e aquecem, como um convite para um banho de mar.

Caio fazia muitas atividades. Aulas de bateria e marimba, jogar futebol, reunir um grupo grande de amigos para dormir na casa dele ou de outro. Vivian também levava amigos para a fazenda da família, em Mairinque-SP. “Quando isso começou a faltar, foi sofrido pra ele. Com dois meses, começou a ficar muito triste, e a gente começou a discutir muito.”

Ela se deparou com outro Caio. Não era mais aquele menino alegre e ativo. Estava sem ânimo para nada. “Não queria ler, fazer as coisas da escola. Tive que aprender a lidar com essa nova realidade. Estava prostrado, só jogava vídeo game e dizia que era a única coisa legal para fazer. O quarto dele virou uma caverna. Foi horrível.”

A chuva em São Paulo continua forte. É possível ouvir as trovoadas pelos áudios que Vivian manda. Um reflexo da vida dela, que se viu no meio de um temporal: cuidar do filho enquanto o volume de trabalho aumentava absurdamente. “No mundo pré-pandemia, o Caio ia para a aula à tarde. Quando começou o ensino a distância, a escola mudou as aulas para o período da manhã. Então, ele teve que levantar cedo. Achou super legal, mas, em 15 dias, os alunos passaram a desligar a câmera.”

A própria Vivian testemunhou o filho várias vezes voltando a dormir. “Essa ausência do convívio, da dinâmica da sala de aula, não refletia a escola. Eu tinha que convencê-lo a ir pra aula. Lição não fazia, estudar não estudava, coisas que ele nunca me deu trabalho. Não tive trabalho de colocá-lo na frente do celular. Tive trabalho pra fazer com que ele entendesse que aquilo era a escola agora e, infelizmente, aceitasse.”

Caio passou a odiar os estudos e arrumar intriga com os professores. As notas caíram. Conhecendo a área educacional e preocupada com o rumo que as coisas tomavam, Vivian entrou em contato com a escola, falou sobre a quantidade de atividades e opinou que a forma de aprender deveria ser diferente. “No começo, os professores, com receio, sabendo que os alunos não estavam indo para a aula, mandavam um monte de trabalho. Ele chorava para fazer. Eu e outras mães conversamos na escola para reduzirem o número de atividades.”

O apelo foi ouvido. A escola marcou algumas aulas para a tarde, para que os alunos não ficassem quatro horas seguidas online. “Fizemos alguns trabalhos juntos, para que ficassem mais lúdicos. Mas confesso que, para os adolescentes, as coisas bateram diferentes. A convivência, o grupo são muito importantes.”

Para Vivian, o filho ainda não teve oportunidades de viver fases típicas da adolescência, como aprender a andar pela cidade sozinho e paquerar. “A escola é o ponto em que isso acontece, e tudo pra ele rolou online. Está perdendo essa coisa de a escola ser mais que estudar.”

Autocuidado

Um estrondo reverbera pela casa dela. A chuva ainda está forte. É possível escutar Caio gritando que a energia acabou e voltou em segundos. Vivian ri e começa a contar como ficou seu trabalho e a saúde mental. “Sei que estou totalmente descompensada com essa pandemia”.

No Instituto Federal, foi contemplada com afastamento remunerado para cursar o Doutorado, em Campinas. Mesmo na correria do dia a dia, com todos os afazeres de casa e do trabalho, a viagem era um momento prazeroso. “Quando eu pegava o carro e dirigia uma hora e vinte minutos, ia escutando música e cantando dentro do carro. Pensava na vida, conversava comigo mesma”. Lembra, com entusiasmo, do ambiente universitário, do qual sente falta. “Estava adorando ir pra aula. Pra mim, era massa.”

Para ela, também não foi fácil. Logo, o semestre começou online, com aulas três vezes na semana, quatro horas por dia. Não bastasse isso, o Instituto Federal precisou de um apoio dos professores afastados.

Na Unicamp, assumiu a coordenação de um grupo de trabalho. Tinha que escrever muito e publicar. “Me empolguei. Na minha cabeça, como trabalho em São Roque, que fica a 60 quilômetros da minha casa, e estudo em Campinas, que é mais 90 quilômetros, em casa eu teria tempo sobrando. Doce ilusão. Comecei a trabalhar mais.”

Como antes, a carreira profissional estava entrelaçada à vida doméstica, mas agora ambas exigindo mais, gritando, sem dar tempo para refletir. A vida se tornou um malabarismo: cuidar da casa, do trabalho, do filho, da mãe idosa. “Trabalho o dia inteiro, essa é a verdade. Continuo em home office, mas não tem um dia que não esteja trabalhando. Sábado e domingo é tudo igual. No meu celular, recebo em torno de 200, 300 mensagens para responder, todo dia. Um monte de e-mails. E, em meio a isso, vieram os convites para participar de lives. Uma virou duas, dez. Quando vi, todo dia estava fazendo lives. Cheguei a fazer três no mesmo dia.”

Procurou ajuda, mas a terapia online não deu certo. “Preciso de um profissional que se encaixe comigo. Meu cérebro não relaxa, não desliga”. Ela conta que não tem mais hora certa pra dormir, passou a ter vício com o celular e insônia, além de ansiedade. “Tenho que me controlar. Caso contrário, como o dia inteiro. Estou sempre com a sensação de estar atrasada, que estou devendo. O turbilhão de informações sobre cursos sempre me dá impressão de que estou perdendo uma oportunidade, mas, na verdade, não tenho mais condição de fazer nada. É angustiante. Não tenho ideia de como vai ser quando retornar ao processo presencial.”

Lamenta não ter tempo para se cuidar. “Acho que tem uns cinco meses que não faço a unha, só corto. Faço o básico, lavo o cabelo, tomo banho, escovo os dentes, uso desodorante. Tem dias que uso hidrate, dias que não consigo. O tempo pra mim é zero”.

Também precisa zelar pelos pais, idosos. A mãe, que mora com ela, era ativa, saía muito para dançar e, de repente, se viu presa em casa. Também perdeu muitas amigas para a Covid-19. Vivian teme pela saúde dela. “Tinha dia que eu acordava e ela estava triste. Eu perguntava o que tinha acontecido e ela falava que uma amiga dela tinha falecido. Pelo que acompanho, ela perdeu cinco ou seis amigas. Ainda tem isso, né? A pessoa vê outras da sua idade indo”.

Vivian é a pessoa que mais conversa com a mãe. Mesmo com muitos trabalhos, não deixa ela fique num canto sozinha. “Quando vou comer ou no fim do dia, quando sento pra assistir televisão, converso com ela. É necessário que eu converse. E todos os dias ligo para o meu pai. Estou no computador, mas estou falando com ele.”

Para a professora, a ideia de normal mudou. “A vida antes da pandemia acabou. Agora, vamos construir um novo processo de vida, que não sei como vai ser”. Entre todos os desejos dela, está o de poder sair de casa. “Não para aglomerar ou fazer festa, mas ir ao cinema, o que eu gostava muito antes da pandemia. Às vezes, vinha do trabalho e pegava uma sessão às nove e meia da noite. O shopping é perto de casa. Vou passar a dar mais valor a essas coisinhas sabe, como ir a uma praia também.”

Kétani com os filhos, Valentina e Benício: trabalho, estudo e vida doméstica (Foto: Acervo pessoal)