Durante a tempestade

Fiéis da região de Franca adotam práticas alternativas para manter a fé viva durante a pandemia do novo coronavírus

Paloma Soares

Foto acima: Com igrejas vazias, como a Matriz de Pedregulho, adeptos passaram a promover missas e reuniões nas redes sociais (Paloma Soares)

Com a inquietação causada pela chegada da Covid-19, muitas reuniões de grupos e celebrações em templos religiosos tiveram que ser suspensas por tempo indeterminado para evitar aglomerações. Para enfrentar esse novo cenário, fiéis assumiram diversas maneiras de manter suas atividades sem descumprir o isolamento social. Usam redes sociais, aplicativos, entre outras ferramentas.

“Minha vida está sendo ainda melhor que antes na questão da fé, pois estou rezando sempre e refletindo sobre como ela pode, sim, me ajudar, nesse momento difícil, a ver sempre o lado positivo”, afirma Estefani Aparecida dos Santos, católica e participante do grupo de jovens “Christus Lux”, fundado há 11 meses, com cerca de 25 participantes, em Pedregulho-SP.

Em contrapartida, diz sentir muita falta das atividades em grupo. “Sem dúvidas, fazem falta os abraços, apertos de mão, poder se reunir com irmãos em missas e encontros religiosos, como retiro, pregações, shows. Está sendo muito difícil, porém sempre com todo entusiasmo e dedicação para levar aos cristãos um pouco do amor de Deus, da palavra de Jesus e tentar mudar um pouco a formar de agir.”

Para tentarem suprir a ausência, os membros do grupo não deixaram de se encontrar de forma virtual. “Temos usados recursos online e, mesmo de longe, têm sido momentos importantes para nós”.

Estefani completa buscando dar dicas para quem também sente falta das atividades presenciais. Afirma que estão sendo transmitidas missas e reuniões em várias plataformas. “Estamos fazendo, também, momentos de orações por chamada de vídeo e nos encontrando uma vez por semana, com poucas pessoas na capela onde fazemos as celebrações, uso de mascaras, álcool em gel e com a distância que for necessária para evitar o risco.”

Grupo de jovens em Pedregulho: pandemia tem provocado reflexões (Foto: Acervo pessoal)

Assembleia

A pastora Simone Imaculada Militão dos Santos, da Assembleia de Deus em Jeriquara-SP, classifica o momento com uma “tortura”. “Uma mistura de tristeza e angústia”, desabafa.

Sobre as alternativas para suprir os cultos presenciais, a igreja tem recorrido às redes sociais, que ela não vê como uma boa saída. “Em partes, pode até ser bom, pois mantemos o contato com os fiéis, mas, por outro lado, não é legal, porque alguns fiéis podem se acomodar com esses recursos e abandonar a igreja quando tudo se normalizar, achando que não é necessário ir. Então, não estou me apegando muito a esses recursos”.

Ela diz estar frequentando cultos presenciais dois dias na semana, apenas com sua família dentro do espaço.

Xamanismo

Outras crenças, como o xamanismo, também buscam adaptações. Segundo Júlia Nascimento da Silva, moradora em Pedregulho-SP, as reuniões são realizadas a distância, cada um na sua casa, mas não deixando de manter a conexão.

Quando os encontros são presenciais, em vez de duas vezes por semana, como era antes, acontecem uma vez por mês. Outrora, eram, em média, 30 participantes. Agora, as vivências têm o limite de dez pessoas, contando apenas com ela e sua família, cada um bem distante do outro, já que o espaço é aberto e bem grande. E tomando os cuidados necessários, garante Júlia.

“No xamanismo, usamos diversas medicinas de formas coletivas e, neste momento, estamos adotando novos procedimentos e, até mesmo, eliminando alguns para o cuidado e proteção de todos. Usamos mascaras, distanciamento de um metro e meio de cada um e fazemos o uso do álcool em lugares específicos do local. Além das reuniões presenciais, também temos momentos a distância em horário combinado, cada um na sua casa e cada pessoa tem a sua forma de se conectar, como medicinas, meditações, músicas ou até mesmo em silêncio. Vemos que o trabalho físico parou, mas, no astral, estamos sempre juntos”, afirma.

Além de deixar claro que os cuidados são essenciais, alguns líderes religiosos têm ajudado comunidades carentes, com arrecadação de alimentos, equipamentos médicos e mensagens de conforto.

Casa de Júlia Nascimento: reuniões do xamanismo caíram para uma por mês (Foto: Acervo pessoal)