Geladeiras e árvores

Espaços inusitados na região servem para projetos de leitura como atividade de lazer e de promoção da cultura

Carolina Arantes

Foto acima: Árvores do Saber têm espaços de leitura e conta com estantes em formato de árvores (Divulgação)

Ainda há espaço para o incentivo à leitura numa época em que a tecnologia promete substituir o livro impresso e suas extensas narrativas pela linguagem rápida e, muitas vezes, pouco aprofundada da internet? Bibliotecas carentes de leitores e repletas de livros, cada vez menos solicitados, vão sobreviver?

Talvez a solução para resgatar e incentivar o hábito de ler seja mudar a forma como chegamos até os livros, ou melhor, como eles chegam até nós. Diferentes projetos da região, em diferentes épocas, já tentaram ou ainda tentam nos reaproximar deles, integrando pequenas bibliotecas ao espaço público.

Geladeiras, árvores… Não importa o formato. A ideia é dar a todos os que passam a oportunidade de ler ou de doar um livro. Quem não tem condições de comprar, passa a ter acesso gratuito a inúmeros exemplares. E quem tem livros sobrando democratiza as histórias que já fazem parte de suas memórias.

Geladeiroteca

Fabiana Virgílio, integrante da Associação dos Amigos da Praça das Bandeiras, idealizou o projeto em 2012, em Araraquara-SP. Segundo ela, existia uma percepção de que a praça havia se tornado mais um local de consumo de drogas do que de convívio familiar e atividades culturais e de lazer. O projeto, junto com outras atividades propostas, serviu como ferramenta de reocupação da praça.

Geladeiroteca surgiu com grupo de Arararaquara (Divulgação)

Esta percepção foi construída em diversas reuniões realizadas informalmente pelos frequentadores do Bar do Zinho, comércio localizado em frente à praça. Em uma delas, nasceu a associação e, em diversas outras, projetos que promovessem atividades culturais.

A partir desta iniciativa, foi criada uma agenda coletiva, levando à praça atividades de cultura e lazer, como teatro, cinema, música, saraus, entre outras.  No entanto, estas atividades tinham um caráter periódico e os membros da associação queriam propor algo permanente e vinculado à leitura. Mas como deixar livros disponíveis de forma gratuita?

Fabiana encontrou a solução em casa: “A gente abre a geladeira para matar nossa fome e, na praça, ela pode proteger os livros do sol, da chuva… A gente pode abrir a geladeira para saciar nossa alma com conhecimento. Então, foi aí que deu o start.”

Foi desta forma que surgiu a ideia de utilizar uma geladeira para armazenagem dos livros. A associação conseguiu uma que seria descartada e convidou o artista plástico Hugo Elias para revitalizar o exterior do eletrodoméstico, dando a ele uma cara mais condizente com a nova função. A primeira doação de livros foi feita pela biblioteca Monteiro Lobato.

A geladeira ficou ativa por cinco anos, com diversos tipos de livros. O acesso sempre foi gratuito. Qualquer um que passasse pela Praça das Bandeiras podia, durante aquele período, pegar um livro para ler ou, então, contribuir para aumentar o acervo.

Com o tempo, ela se deteriorou e acabou sendo retirada. Não conseguiram revitalizá-la novamente e o acesso aos livros passou a ser por meio de um dos eventos programados pela Associação dos Amigos da Praça das Bandeiras: os saraus, que são realizados a cada dois ou três meses. O último foi em maio deste ano.

Ressurgimento

O gestor bibliotecário Haroldo Beraldo conheceu a geladeiroteca e decidiu implantá-la em Sertãozinho-SP, destinando livros da Biblioteca da Canaoeste (Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo), onde trabalha, para as geladeiras que ele mesmo instalava em locais públicos.

Haroldo viu no projeto de Araraquara uma forma de democratizar a leitura também na sua cidade, unindo paixão e solidariedade: “Isso tem uma intenção pessoal. Tenho uma afinidade com livros e com a leitura. Isso não é de hoje. É de criança”.

Sarau realizado na praça em Araraquara: outra das ações do grupo (Divulgação)

Em 2013, ele conseguiu a doação de uma geladeira usada e propôs a uma associação de bairro de Sertãozinho a sua instalação em um ponto com grande concentração de pessoas, que se reunissem para fazer atividades físicas, praticar esportes, cursos para comunidades, entre outros. Seria uma oportunidade de agregar a estes locais mais uma oportunidade de acesso à cultura.

Os livros, em bom estado, doados ao projeto eram separados e colocados nas geladeiras. Em 2014, eram oito delas, sete em Sertãozinho e uma em Ribeirão Preto. Cada uma tinha uma equipe responsável por administrá-la. No mesmo ano, Haroldo recebeu o prêmio Viva Leitura, que valoriza os cinco melhores projetos de categorias de bibliotecas do país.

Atualmente, ele não está mais à frente do projeto, mas colabora com outras geladeirotecas. Sempre que possível, doa livros, estimula projetos de doação e auxilia na aquisição de novas geladeiras, para que a ideia se perpetue.

Conhecimento alimenta

Árvores do Saber é uma iniciativa do Ribeirão Shopping em conjunto com a Fundação do Livro de Ribeirão Preto. O projeto é um espaço de leitura, que conta com três estantes de livros em formato de árvores, divididas em literatura infantil, juvenil e adulta. A proposta é muito parecida com a narrativa das geladeirotecas: promover a leitura e a circulação dos livros, caracterizados aqui como frutos que, ao serem consumidos, nos alimentam com conhecimento e grandes histórias.

O acesso ao local e aos livros é gratuito. Não há controle de quem os retira ou exigência de devolução. Também é possível doar livros para o acervo e estes são classificados e disponibilizados para acesso e leitura por quem se interessar. O Árvores do Saber fica localizado no Setor Terra Vermelha do empreendimento, em frente ao restaurante Jangada, dentro do shopping.

Além dos livros, o projeto conta com uma programação de contação de histórias aos domingos. Grupos são convidados para promover a atividade, como a Cia Vagalume. Gracyela Gitirana, representante da companhia, fala sobre a programação: “As histórias que contamos fazem parte do nosso repertório. São histórias de Ricardo Azevedo, Rubem Alves, Eva Furnari e contos de fada.”

O horário do funcionamento do espaço de leitura é de segunda a sábado, das 10h às 22h, e aos domingos e feriados, das 14h às 20h. Mais informações estão disponíveis no site www.ribeiraoshopping.com.br.

Grupo de Araraquara disponibilizava trechos literários em varais (Divulgação)

Feira do Livro

A Fundação do Livro de Ribeirão Preto iniciou uma mobilização, em dezembro de 2018, com uma série de ações da Campanha Permanente de Doação de Livros.

Segundo Dulce Neves, presidente da fundação, o projeto visa reunir livros novos e usados de diversos estilos literários, principalmente infantis, que podem ser retirados gratuitamente durante eventos anuais, como a Feira Nacional do Livro em Ribeirão Preto-SP, programada para 9 a 16 de junho.

O projeto existe há três anos, sendo realizado durante a feira. No ano passado, também fez parte do “Livro Livre”, projeto criado pela fundação em 2017 para mobilizar cidadãos, empresas e instituições a ocuparem e revitalizarem o espaço público. Além de seu caráter permanente, a campanha acontece, ainda, em parceria com o Árvores do Saber.

Durante a Feira do Livro, na Praça XV de Novembro, haverá espaço para mobilização de troca e doação de livros, bem como ambientes para leitura e atividades que visam reforçar o contato dos visitantes com livros e levá-los à reflexão sobre a importância da leitura.

Interessados em fazer doações podem visitar a sede da fundação, no bairro Jardim América, na Rua Professor Mariano Siqueira, 81. Mais informações pelo telefone (16) 3911-1050.

Espaço Árvores do Saber, em Ribeirão Preto: acesso ao livros gratuitamente (Divulgação)