Padrões que oprimem

Por assumirem comportamentos diferentes dos aceitos socialmente, bi, pan e assexuais foram e são severamente rotulados

Gabriela Sturaro Junqueira

Colaboração: Yasmin Cavichioli

Foto acima: Brenda, que se descobriu bissexual após achar que era lésbica na infância (Acervo pessoal)

“Gostei de uma amiga de infância por cerca de nove anos. Só que as pessoas ao nosso redor diziam ofensas. Minha amiga ficava muito brava. Nunca falei nada dos meus sentimentos para ela. Para não estragar a nossa amizade, porque era importante para mim.”

Esse é o início do relato de Brenda do Carmo, de 19 anos. Moradora de Guaíra-SP, ela afirma ser bissexual, o que caracteriza pessoas que têm interesse por ambos os sexos. E, por isso, são vítimas de preconceito. Até mesmo na comunidade LGBTQIA+ (sigla para Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros, Queer, Intersexo e Assexuais).

Ao longo dessa reportagem, você poderá ler o depoimento completo. Dela e de Victor Cardoso, de Ceilândia-DF. E, ainda, de pans e assexuais. Mas, antes, buscaremos entender o que provoca o preconceito.

De acordo com o sociólogo Sérgio Lucas de Oliveira, de Guaíra, o bissexual é visto como “uma pessoa que não se ‘encaixa’”. Em muitos casos, é rotulado como “sem vergonha.”

“Vivemos em uma sociedade em que o padrão se ser humano ‘normal’ é o masculino ou o feminino. Isso devido a nossas tradições de família, com base na moral de muitas religiões. Os bissexuais seriam contra esses princípios morais, que têm o poder de influenciar as famílias.”

Segundo ele, as práticas bissexuais percorrem toda a história da humanidade. Há relatos na Grécia Antiga, onde eram conhecidas como pederastia, no Japão feudal, com o shudo, nas relações de dominação e submissão na Roma Antiga e nos costumes e rituais de povos indígenas. O sociólogo explica que, com o surgimento do cristianismo, no entanto, passaram a ficar escondidas. “Porém, com o movimento LGBTQIA+, tornaram-se, novamente, visíveis.”

Para enfrentar os preconceitos, o profissional busca dar algumas dicas. O primeiro é a aceitação, por si mesmo. “Procurar mostrar que os sentimentos são verdadeiros para ambos os sexos. E que a prática bissexual não define o seu caráter.”

Mesmo assim, é preciso estar preparado porque nem toda sociedade aceita, mesmo com explicações. “Enfrentar o preconceito nunca é fácil. Uma informação pode ser vista como exagerada e conflituosa, aumentando o preconceito, porque nem todos estão dispostos a entender o diferente.”

Ele acredita que os meios de comunicação e as escolas podem ajudar, por meio da abordagem séria e coerente permeada com a visão de especialistas, como psicólogos.

Outro sociólogo, Sidnei Ferreira dos Santos, também de Guaíra, afirma que os preconceitos acontecem porque a dicotomia em relação à sexualidade ainda é um tabu. Muitos entendem, por exemplo, que orientação de gênero e opção sexual são a mesma coisa. “A tendência é que os bissexuais sejam sempre entendidos como desvio moral ou mesmo como uma questão de promiscuidade”.

Nesse sentido, segundo ele, a bissexualidade deve ser pensada fora dos padrões sociais tradicionais, uma vez que essa é uma das várias formas identitárias que emergem na sociedade contemporânea. O debate e a própria luta por liberdade sexual e de gênero são formas de compreensão desse novo fenômeno. “E também de combater os estigmas sociais que cerceiam a liberdade dos indivíduos que se identificam com a questão dessa duplicidade enquanto opção sexual.”

Ele conclui dizendo que o direito ao corpo é fundamental para o desenvolvimento da democracia. “Precisamos entender que a democracia se faz pelo respeito ao direito à diversidade, à liberdade de expressão, seja escrita, falada, ou exteriorizada no corpo, nas roupas, ou na escolha de parceiros, afetiva ou sexualmente.”

Confira, a seguir, os depoimentos completos de Brenda e Victor.

“Gostei de uma amiga de infância por cerca de nove anos. Só que as pessoas ao nosso redor diziam ofensas. Minha amiga ficava muito brava. Eu nunca falei nada dos meus sentimentos para ela. Para não estragar a nossa amizade, porque era importante para mim.

No começo, achava que era lésbica. Mas já cheguei a me apaixonar e sentir atração por um garoto. Minha mãe dizia que era influência das minhas amigas lésbicas. Isso fazia com que eu tivesse medo de me descobrir e aceitar.

Quando conversei com os meus pais sobre a minha sexualidade, eles não souberam lidar com a situação. Agiram de uma maneira como se eu fosse a “ovelha negra” da família. Com isso, tive algumas recaídas de depressão. Eles me levaram a uma psicóloga, que era amiga deles. Não adiantou muita coisa, mas foi bom ser ouvida.

Depois que me descobri bissexual, com 16 anos, começaram os preconceitos de fora. Muita lésbica já parou de sair comigo, porque percebeu que eu também sentia atração por homens. Elas demonstravam medo de traição. Muitos caras diziam palavras machistas para mim. Sempre com a famosa frase: Isso não existe! Você é um ou outro.”

Brenda do Carmo, 19 anos – Guaíra-SP.

Victor: descoberta da bissexualidade com 13 anos (Foto: Acervo pessoal)

“Descobri que era bissexual aos 13 anos. Desde pequeno, sempre tive um jeito diferente dos outros meninos. Apesar de sempre brincar com eles, tinha meu próprio jeito.

E, claro, as ofensas começaram, como ‘viadinho’ e ‘maricona’. Mas nunca me importei, porque já sabia da minha atração por meninos. Aos 13 anos, fiquei com o meu primeiro ‘namorado’. Ele era um ótimo garoto.

Alguns meses depois, terminamos e percebi que nenhum outro garoto me chamava atenção. Conheci uma garota, com quem fiquei por três dias.

Então, fui conversar com um amigo da minha mãe, que é gay. Ele me explicou que eu poderia ser bissexual. Após isso, quando entrei na faculdade, conheci várias pessoas diferentes e tive mais certeza da minha sexualidade.

Os preconceitos começaram dentro da própria comunidade. Um homem, com quem eu estava ficando, do nada se afastou por saber que sou bissexual, e ainda me chamou de gay de Taubaté. Achei até engraçado. Por diversas vezes, rolou isso. Pessoas falavam que bissexual era coisa de indeciso. Que bissexualidade não existe.

Em relação a esses preconceitos, fico decepcionado. Porque toda forma de amor é válida. Contei pra minha mãe e ela me apoiou. Disse que só queria que eu fosse feliz.
Estou namorando uma garota que também é bissexual. Acho que foi uma coisa do destino. Para finalizar, vou deixar um recado para quem ler esse relato: não importa quem você é. Sempre ame o próximo, respeite e, o principal, seja você mesmo e feliz!”

Victor Cardoso, 23 anos – Ceilândia-DF.

Pansexuais

A pansexualidade é a atração sexual ou amorosa entre pessoas. É independente do sexo ou gênero. O pansexual se sente atraído por todos os sexos/gêneros.

“Falar para as pessoas que sou pansexual é complicado. Muitas não sabem o que é pansexualidade. E, mesmo sendo pouco conhecida, ainda existem várias definições erradas” afirma Catarina, nome fictício, de 19 anos, de Franca-SP, que prefere não ter a identidade revelada.

Confira o depoimento completo dela:

“Acredito que os panssexuais vivem na sombra dos bissexuais. É provável que todo pansexual já tenha dito para os conhecidos que era bissexual em algum momento da vida. Comigo foi assim, e com todos que eu conheço. O pansexual mal tem visibilidade na comunidade LGBTQIA+. É um dos grupos mais esquecidos.

Não me assumi para a minha família por vários motivos, sendo um deles o medo de que eles não entendam muito bem o que eu sou.

O pansexual pode sentir atração por qualquer pessoa que estiver por perto. Não que ele irá se apaixonar por todo mundo ao mesmo tempo, mas as possibilidades são maiores.

Eu não penso se é mulher, homem ou o que a pessoa seja. Somente olho e sinto que a pessoa é interessante ou bonita. Afinal, o pansexual também tem gosto, como todas as pessoas.

Quando digo que pode se atrair por todos, quero dizer todos que façam parte do contexto que o pansexual considera ser atraente para ele. Porque nós temos um padrão de pessoas por quem nos interessamos mais, talvez nem por aparência, mas por outros aspectos.”

Alice, nome fictício, também de Franca-SP, afirma notar que o preconceito acontece na própria comunidade LGBTQIA+. “Muita gente diz que pansexual não existe e que é ‘bi gourmet’. O que se pode fazer para acabar com isso é dar visibilidade aos pansexuais. Só queremos respeito.”

Sérgio: movimento pansexual surgiu como ruptura (Foto: Acervo pessoal)

Segundo o sociólogo Sérgio Lucas de Oliveira, essa pouca visibilidade se dá por se tratar de uma definição nova. Isso faz com que muitos pansexuais não se assumam. “Alguns acabam mesmo se denominando como bissexuais, no intuito de facilitar a compreensão daqueles que não têm conhecimento da definição.”

Diferente da bissexualidade, segundo ele, não há relatos históricos concretos sobre os pansexuais. “Como a primeira teve princípio na Grécia Antiga, alguns especialistas acabam relacionando, também com a Grécia, a origem da pansexualidade.”

Força

Oliveira conta como a pansexualidade ganhou força. “O movimento surgiu por meio da ruptura no movimento bissexual, nas décadas de 1980/90 e, principalmente, nos anos 2000. Isso impulsionou o surgimento da identidade pansexual, paralelamente à luta dos bissexuais, na derrubada da transfobia dentro do movimento bissexual.”

A luta contra o preconceito passa, conforme ele explica, até por desmistificar julgamentos desconexos, como o de que a pansexualidade estaria ligada à zoofilia (atração por animais).

O psicólogo André Bordini, de Ribeirão Preto-SP, explica, porém, que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o sexo saudável é aquele realizado entre seres humanos, mentalmente capazes e de forma livremente consentida. Nesse caso, a zoofilia, bem como a pedofilia e a necrofilia são considerados abuso de incapazes ou violência sexual. “Tudo o que está fora dessas expressões patológicas é uma experiência sexual psicologicamente aceitável.” Entre elas, a pansexualidade.

“É uma experiência sexual de gente que curte/gosta de gente. Independente do gênero, aparência física e orientação sexual do outro. São pessoas que sentem capazes de serem atraídas e de atrair outros seres humanos. De sua forma mais ampla e genérica.”

André: segundo a OMS, pansexualidade é prática saudável (Foto: Acervo pessoal)

Assexuais

Não só os bi e pansexuais enfrentam preconceitos. Aqueles que se consideram assexuais também sofrem com a falta de entendimento sobre suas opções.

A assexualidade se caracteriza pela falta de atração sexual a qualquer pessoa. E por pequeno ou nenhum interesse relacionado às atividades sexuais humanas. De acordo com dados do Programa de Estudos da Sexualidade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (ProSex-IPq), cerca de 7,7% das mulheres brasileiras e 2,5% dos homens, entre 18 e 80 anos, se declaram assexuais.

A estudante de Design Gráfico Bianca Alves Rodrigues Bianchini, de 23 anos, de Sacramento-MG, é uma delas. Ela afirma que nunca teve o mesmo interesse que as amigas por garotos. “Quando pré-adolescente, as meninas já falavam quem era o menino mais bonito. Eu escutava e achava tudo bobagem.”

Segundo a estudante, com o passar do tempo, esse tipo de assunto se tornou mais frequente. “Me veio uma insatisfação, já que as pessoas ficavam perguntando: quando você vai beijar tal garoto? Eu via as pessoas e nunca senti necessidade de beijar ou ter relações sexuais. Mesmo todos dizendo que era maravilhoso. Com isso, também parei de frequentar as festas.”

A estudante relata como lida com as pessoas que querem se relacionar com ela. E como enfrenta preconceitos sobre sua sexualidade. “Quando uma pessoa diz que está solteira e que quer ficar comigo, digo que sou assexual. Normalmente, ela se assusta e explico o conceito. Mas nunca respondem um ‘compreendo’ e, sim, como ‘gay no armário’ ou que não encontrei a pessoa certa.”

Na família, ela garante que já se acostumaram. “As pessoas acham estranho o fato de só amizade me fazer feliz. Mas percebo, também, que elas não querem ficar sozinhas de forma alguma e esse tipo de coisa assusta. Algumas chegam a pensar que sou de alguma seita religiosa.”