Marcas da persistência

“Sempre pratiquei o incentivo aos estudos, pois são eles que irão te colocar aonde almeja chegar”, afirma a professora Joana

Kétila Maria

Foto acima: No laboratório, a professora Joana, que pesquisou uso de pele suína em transplantes (Acervo pessoal)

Joana D’Arc, francana, PhD em Química, professora, cientista brasileira com 99 prêmios na carreira e formada em uma das universidades mais cobiçadas do mundo: Harvard. Conquistas que foram alcançadas com muito suor e determinação. Mesmo sendo de origem humilde, nada foi empecilho para que lutasse pelos seus sonhos. Nas dificuldades, ela encontrou oportunidades.

Filha de um operário do curtume com uma empregada doméstica, ela apresentava, desde criança, facilidade na aprendizagem. A mãe a levava para o trabalho por não ter condições financeiras de pagar uma creche. “No trabalho, minha mãe me ensinou a ler os jornais que havia pela casa. Com isso, eu ficava quietinha. Aprendi a ler com três anos e meio.”

A habilidade de leitura tão precoce chamou a atenção da patroa da mãe, que abriu as portas para que a menina estudasse na escola que administrava, uma unidade do Serviço Social da Indústria (SESI).

Joana ingressou no colégio e, depois, foi fazer o Ensino Médio na Estadual Torquato Caleiro. Lembra que, naquela época, não tinha ideia do que era o vestibular; dos benefícios que uma graduação poderia trazer. Só quando estava prestes a terminar é que descobriu a importância de uma universidade. Tanto que dedicou o último ano para se aprofundar nos estudos. “Estudei, durante todo o ano, as apostilas. Chegava da escola após o almoço e me dedicava aos estudos até umas onze horas da noite.”

Paixão pelo jaleco branco foi inspiração para a formação em Química (Foto: Acervo pessoal)

Sabendo que o caminho era uma universidade pública fora da cidade natal, teve o desejo fortalecido com o apoio do pai. “Ele falava: ‘mesmo sem condições, a gente vai fazer o máximo, o possível e o impossível pra você estudar’.”

Ela optou por Química. Sentia-se atraída pela área justamente por vivenciar momentos do trabalho do pai num curtume de Franca. “Nesse curtume, vendo um químico trabalhando, me apaixonei pela Química. Na verdade, me apaixonei pelo jaleco branco. ‘Quero ser química, trabalhar no curtume e usar jaleco branco’.”

O resultado dos estudos foi a aprovação em três universidades com apenas 14 anos. Escolhendo a Universidade de Campinas (Unicamp), começou, logo no primeiro ano da faculdade, a iniciação científica, pela qual recebeu, até o final do curso, uma bolsa no valor de R$ 450,00 por mês da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Desse dinheiro, enviava R$ 100,00 aos pais, para ajudá-los nas despesas domésticas.

Com apenas 22 anos, já era doutora em Química. E não imaginava que, devido aos artigos publicados sobre a síntese de fármacos, receberia um convite para o pós-doutorado numa das universidades mais respeitadas do mundo, Harvard, nos Estados Unidos. Sem pensar, agarrou a oportunidade.

Projetos com alunos renderam reconhecimento de associação da indústria química (Foto: Acervo pessoal)

“Quando fui fazer o pós-doutorado, a sugestão era trabalhar com reaproveitamento de resíduos, e meu orientador me perguntou: ‘você quer trazer um problema brasileiro?’. Meu pai já tinha sugerido que eu levasse os resíduos do curtume daqui para ver o que eu podia fazer.”

Nas surpresas, um novo caminho

Em 2002, Joana se deparou com surpresas desagradáveis. Sofreu duas perdas na família, a irmã e o pai, que a trouxeram de volta para o Brasil. “Meu pai sentiu muito a morte da minha irmã e, depois de um mês e três dias, ele faleceu. O meu objetivo era ficar nos Estados Unidos, mas minha mãe ficou muito doente e o marido da minha irmã foi morar com ela e com as crianças. Eu resolvi voltar para ajudar a minha mãe na criação dos meus sobrinhos.”

Acontecimentos que indicaram novas portas. Uma delas, um concurso para dar aulas. Há mais de dez anos, ela leciona na ETEC Prof. Carmelino Corrêa Júnior, focando na orientação de estudantes da educação básica. “O estímulo à ciência deve começar desde cedo, para gerar frutos durante muitos e muitos anos.”

Junto com os alunos, desenvolveu diversos projetos, conquistando 99 prêmios, nacionais e internacionais, patenteados em 30 países. Entre eles, se destacam o Kurt Politzer de Tecnologia em 2014, concedido pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abquim). Um reconhecimento aos projetos de inovação tecnológica na área. A pesquisa premiada focava na utilização da pele suína em transplantes em seres humanos, que teve como inspiração a história de um parente de uma aluna, que sofreu graves lesões com ácido sulfúrico.

“Ele me contou a história e começou a falar sobre transplantes de pele. Comecei a pesquisar quais tipos de peles animais eram compatíveis com a humana e a que mais se aproximava era a suína, com 78% de compatibilidade. Eu quis descobrir o que faria chegar aos 100% e fomos purificando até alcançar o objetivo.”

A professora acredita que o incentivo aos estudos seja seu maior legado. “Me sinto realizada por não ter sido impedida por nenhum obstáculo, não ter desistido. Vejo a contribuição que eu estou dando ao meio ambiente e me sinto lisonjeada. Também me sinto bem por poder passar um pouco do meu conhecimento aos alunos e sentir o reconhecimento que eles têm. Sempre pratiquei o incentivo aos estudos, pois são eles que irão te colocar aonde almeja chegar.”

Para Joana, estímulo à ciência deve começar cedo, para gerar frutos por anos (Foto: Acervo pessoal)