Na hora do adeus

Crematórios pet têm sido cada vez mais requisitados: permitem cerimônia de despedida e evitam contaminação 

Pablo Henrique

Foto acima: Luciana com Marley, que foi cremado (Acervo pessoal)

”O amor que eles dedicam a nós durante toda a vida deles e o aprendizado que deixam… O mínimo que podemos retribuir e fazer por eles é dar um final com dignidade, respeito e carinho.”

O depoimento é de Luciana Hyppolito, voluntária de um abrigo que resgata animais em situação crítica de abandono e também dona da Petcreche – Hotelzinho e Day Care para Pets, em Ribeirão Preto. Após perder Marley, seu fiel companheiro, ela procurou a Pet Prever e utilizou um dos serviços que vem sendo bastante requisitados: a cremação de pets, uma opção que é, também, ambientalmente mais correta em comparação com o descarte em terrenos baldios ou praças públicas.

O Pet Prever surgiu da ideia de oferecer uma despedida mais respeitosa da família para com seus pets. Funciona no complexo de crematórios humanos do Grupo UniPrev-Prever, ocupando um espaço de 32.700 m² na Rodovia Cândido Portinari, em trecho que liga Ribeirão Preto a Brodowski. O plano funerário para pets oferece, além da cremação, descontos em pet shops, em consultas veterinárias, entre outros.

Sala para que tutores se despeçam de seus animais (Foto: Divulgação)

Kátia Abbud aderiu ao plano para sua cachorrinha, Adele, adotada há dois anos e meio de uma ONG que resgata animais de rua. Segundo ela, isso traz tranquilidade porque, entre outros benefícios, há toda uma preparação após a morte. O animal é retirado em casa, conservado em câmara fria até a cerimônia de cremação, as salas para despedida são individuais e há um espaço especialmente para a entrega das cinzas. O tutor ainda recebe um certificado de cremação.

Saúde pública

“Eu peço para que as pessoas não vejam os pets como coisa. Eles têm sentimento. Sentem fome, sede, dor, ficam tristes… Eles pegam amor. Pense muito antes, pois eles não são um bichinho de pelúcia”. O apelo é de Rejane Cattarine Marcos, de Ribeirão Preto, que tem 13 cachorros, dos quais dez resgatados da rua. “Eu ajudo pessoas, ONGs, não só animais. A pessoa tem que se doar. Quem se doa ganha mais do que quem recebe. Pode ter certeza.”

Ela já precisou usar os serviços do Crematório Amigos de Patas por cinco vezes: duas no ano passado, com Maria Vitória e Francisco, e três neste ano, com Jay, Menina e Nestor. Tem mais dos planos preventivos em andamento, que servem para qualquer um dos cães que possui atualmente.

Ela indicou o plano para a cunhada, Danielle Diniz Bastos Marcos, também de Ribeirão, que perdeu o companheiro Tico. “Ele viu a gente construir a casa, nadava na piscina… Um dia, chegamos em casa e ele havia falecido dentro da piscina”. A opção foi pela cremação, tanto pela questão ambiental quanto pela consideração ao amigo, que viveu com ela por seis anos. Agora, Danielle tem mais dois cachorros, que foram adotados da própria Rejane: o Thor, por causa do filme de mesmo nome – ela garante que o cão, de dois anos, é parecido com o personagem do cinema –, e o Neneca, em homenagem ao ex-goleiro do Botafogo de Ribeirão, time do qual o filho dela, de apenas um ano, já é fã.

Forno no Amigos de Patas: temperatura pode chegar a 1.200ºC (Foto: Pablo Henrique)

O Amigos de Patas foi montado depois que os sócios, Roberto Mura e seu irmão José Enrique Mura, tiveram um de seus pets levados para um aterro sanitário após a morte. O crematório, que está localizado no distrito industrial de Jardinópolis e mantém um escritório para atendimento em Ribeirão Preto, funciona desde 2015.

“A cremação é uma questão de saúde pública. Ela veio para suprir e corrigir toda a parte ecológica, pois não polui. As cinzas são calcificadas e inoculadas”, afirma José Henrique. “Quando há o descarte de forma inadequada, ou seja, em aterros ou terrenos, você não acaba com a patogenia, possibilitando o contato com outros animais e espalhando doenças.”

Outra questão importante é o tutor pedir o certificado de cremação, pois existem muitos crematórios clandestinos que dizem que o animal foi cremado quando foi apenas incinerado. “Só incinerar é errado porque o tempo de exposição é menor, cerca de 60% a 70%, de forma que sobram resíduos que, obrigatoriamente, são enviados a aterros sanitários”, explica Roberto. A incineração é permitida para plásticos, lixos industriais, outros dejetos, mas não em animais. Já a cremação diminui em 96% o volume de carcaça do pet. Os outros 4% viram cinzas e não sobra material contaminante. Segundo Roberto, o forno chega até 1.200°C, eliminando qualquer patogenia.

O Amigos de Patas recebe, em média, de 80 a 100 pedidos de cremações mensais, prestando serviços para qualquer tipo de animal, como cachorros, gatos, pássaros, bezerros, entre outros. O valor varia de R$ 400 a 900, dependendo do tamanho do bicho e se o plano é individual ou coletivo. A empresa não oferece um plano funerário, que se paga até o fim da vida do pet, mas um preventivo, pelo qual o tutor tem data para começar e terminar de quitar, ficando garantida a cremação quando o pet falecer. As parcelas mensais vão de R$ 15 a 60, o que depende também do tipo de animal e da quantidade de meses acordada.

Rejane Marcos cuida de 13 cães, dos quais dez foram resgatados das ruas (Foto: Acervo pessoal)

Descarte correto

Segundo o biólogo Lucas Melo Silva, de Franca, a Lei 12305/10, que trata da política nacional de resíduos sólidos, institui que qualquer trabalho que produza resíduos deve descartá-los de forma correta, para não haver problemas com a fauna e a flora.

“A lei está em vigor e tem ajudado muito”. Ele diz isso por experiência própria, pois tem atuado em aterros sanitários e testemunhado a quantidade enorme de lixo gerada diariamente. “Muitas vezes, a população nem sabe para onde vai esse lixo. Uma pessoa pode produzir cerca de 1 kg de lixo por dia. Um aterro sanitário do interior de São Paulo, que atende de 5 a 6 municípios, recebe cerca de 400 toneladas de lixo por dia, e ele tem que ser tratado. Temos que ter essa consciência.”

O biólogo cita os compostos químicos que contaminam o solo quando a pessoa enterra seu pet, como dióxido de carbono, metano, entre outros. São liberados, também, metais como chumbo, ferro, zinco e titânio. Mas a pior de todas as substâncias é o necrochorume, liberado na decomposição, pois alimenta algumas bactérias que fazem a putrefação, retardando a decomposição do corpo e fazendo com que ela seja mais duradoura, podendo atingir reservatórios de água próximos e espalhar doenças.

Silva reforça que a cremação é ecologicamente correta. E sugere que as cinzas do animal possam colaborar ainda mais com a natureza. “Como fazer isso? Simples. Basta você colocá-las em um vaso com terra, adubo e sementes. Assim, ajudará a germinar uma planta ou árvore. Isso contribui não só com o meio ambiente, mas para passar seu pet à frente, gerando uma nova vida.”

Lucas ensina a importância da destinação correta de materiais (Foto: Acervo pessoal)