O futuro em jogo

Em Batatais-SP, tecnologia capta água da chuva para atividades domésticas e gera economia para programa social e empresa 

Ana Flávia Teixeira

Foto acima: Crianças aprendem, no BATEA, a importância da preservação (Divulgação)

Você já parou pra pensar que a água potável pode acabar? Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), 100 litros de água por dia são suficientes para o bem-estar e a higiene de uma pessoa. Mas nós, brasileiros, gastamos bem mais que isso: 187 litros/dia, em média. Os estadunidenses consomem quase 350 litros. Já os africanos da região subsaariana vivem com menos de 20 litros.

Em Batatais, no interior de São Paulo, onde moram cerca de 60 mil pessoas, algumas soluções estimulam o consumo consciente. Um programa social e uma empresa adotaram a ideia do reaproveitamento da água da chuva.

Educação
O projeto educacional se chama BATEA (Batatais Educação Ambiental). Em parceria com a Secretaria Municipal da Educação, atende 2 mil crianças de escolas municipais por ano, trabalhando diversos temas que visam à preservação da natureza, inclusive a água.

No prédio onde o programa funciona, existe um sistema de captação de água da chuva que foi instalado com recursos do Fundo Ambiental de Batatais do COMDEMA (Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente).

Fabio, diretor do programa, que atende 2 mil crianças (Foto: Adriel Faccini)

O diretor do BATEA, Fabio Ferreira Picinato, que também é professor e biólogo, explica que um dos focos principais atualmente é a plantação de mudas. As crianças aprendem a adubar e regar, aproveitando a água da chuva. Elas também são conscientizadas sobre a importância de economizar a reaproveitar a água para as atividades do dia a dia, como lavar calçadas e carros.

A capacidade de armazenamento é de 30 mil litros de uma só vez. A água é captada por meio de calhas instaladas no prédio. Percorre canos e, por meio da gravidade, chega às caixas. Como não passa por tratamento, não pode ser usada para consumo humano, mas serve para atividades domésticas e para molhar as mudas. Isso, no entanto, deve mudar em breve. “Já existem filtros capazes de fazer com que a água da chuva possa ser consumida por humanos. No Nordeste, é muito comum encontrá-los”, afirma Fabio.

Há, também, no local, uma base meteorológica, permitindo que sejam medidas a velocidade do vento, a temperatura e a quantidade de chuva, tornando possível calcular quanto de água foi captada. A reutilização chega a 130 mil litros de água por mês, uma economia de R$ 200. Com isso, a conta da prefeitura passou a ser de R$ 60.

Esquema mostra como funciona a captação no BATEA: calhas retêm a água da chuva, que passa por canos até chegar aos reservatórios e, destes, é direcionada para atividades domésticas

Crianças

Quando fala das crianças, o olhar de Fabio brilha. Ele conta que, dia desses, estava num supermercado quando o pai de um de seus alunos perguntou: “Você é o Fabio, professor do BATEA? É que meu filho ficou muito bravo comigo por deixar a torneira aberta na hora de escovar os dentes. Pediu que eu fechasse rapidamente para economizar água e ajudar o meio ambiente. Disse que você quem falou para toda a sala dele. Quero agradecer você por incentivar as crianças a não desperdiçar água”.

Ouvir aquilo o fez acreditar que ainda existe esperança.

Para ele, o reaproveitamento poderia melhorar ainda mais caso houvesse, na cidade, sistemas para tratar a água do esgoto, que poderia ser reutilizada para banhos e pias.

Lanchote se prepara para lavar parte da empresa com água da chuva (Foto: Adriel Faccini)

A empresa
Ainda em Batatais, a Transportadora Lanchote, que trabalha com caminhões-pipa e agrícolas, tem um reservatório de água da chuva com quase 400 mil litros.

O dono, César Lanchote, investiu R$ 150 mil para adaptar uma área antes sem utilidade à instalação ecológica. Ele explica como foram os procedimentos. “Na nossa estrutura, a água da chuva é captada através dos canos e calhas no telhado, de 10, 20 e 30 centímetros de circunferência. Os menores vão levando água aos maiores, até chegar ao reservatório. Com a grande velocidade da água, a sujeira acaba ficando no fundo”.

A água reaproveitada é usada, na transportadora, para lavar calçadas, ruas e caminhões, molhar plantas e irrigar plantações agrícolas – nesse caso, sendo transportada por caminhões-pipa.

A empresa consome, aproximadamente, 100 mil litros de água por mês. Sem o investimento, César diz que pagaria R$ 600 de conta de água. Mas o boleto não passa de R$ 40.

O proprietário diz que valeu a pena apostar, pensando no futuro e na própria economia. “Prefiro investir agora, para que meus netos não sofram e consigam viver em paz, sem falta de água. São poucas as pessoas que realmente dão valor à natureza”.

Placa na entrada da empresa avisa sobre iniciativa, que gera economia (Foto: Adriel Faccini)