Volta pra casa

Gente que se cansou das cidades está retornando ao campo em busca de ar puro, natureza e qualidade de vida

Reportagem: Pábolo de Oliveira

Foto acima: Cidinha trabalhou em hospital e clínica de estética, mas não era feliz (Pábolo Oliveira)

Em décadas passadas, era muito comum ouvir falar de pessoas que saíam da roça para morar na cidade. O chamado êxodo rural concentrou cerca de 85% da população brasileira na área urbana. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 30 milhões, dos pouco mais de 200 milhões de moradores do País, residem na zona rural. Mas esse perfil está mudando. Isso porque muitos têm escolhido o caminho inverso: a volta. Estão juntando as “tralhas” e migrando para o campo.

A pecuarista Suerlania Oliveira é formada em Ciência da Computação e trabalhava numa empresa em Franca, interior de São Paulo. O marido, William, era sapateiro e passou boa parte da vida em fábricas. “Larguei tudo para vir pra roça, pegar na enxada”, diz ele. O sitio foi adquirido por meio da troca da casa onde moravam por um pedacinho de terra entre Franca e Ibiraci-MG.

Após o nascimento do primeiro filho, o casal começou a pensar em mudar de vida. Sair do “sufoco diário, que não dava tempo para nada”. A situação foi agravada pela demissão de Suerlania, do emprego ao qual havia dedicado por dez anos. Com mais tempo em casa, percebeu que não estava feliz. E não queria que o filho sentisse o mesmo. “Queria proporcionar a ele um futuro melhor, mais tranquilo, longe da loucura da cidade”.

Vista que o casal Suerlania e William tem do sítio onde mora (Foto: Pábolo de Oliveira)

Queijos

Na pequena propriedade rural, eles trabalham unidos. Enquanto um tira o leite, cuja produção chega a 120 litros diários, e outro se encarrega de fazer os queijos. São cerca de 12 peças/dia, quantidade que pode variar de acordo com a época do ano, já que, em tempos secos, a produção cai à metade. Para a cidade, eles vão mesmo só pra vender os queijos, em padarias, supermercados e casas de clientes fixos.

Além dos serviços da roça, cuidam dos filhos Guilherme, de seis anos, e a recém-chegada Manuela, de dois. Mas esse trabalho “compensa”. As crianças podem desfrutar de uma paisagem exuberante, ar puro e silêncio. O único som que se ouve por lá é o canto dos pássaros.

Suerlania nasceu e viveu os primeiros 15 anos numa fazenda na região de Bambuí-MG com os pais. Na adolescência, foi pra Franca morar com a irmã para estudar. Já o marido tinha um perfil exclusivamente urbano. Nasceu e sempre viveu na cidade, até que as conversas com a esposa despertaram nele a vontade de mudar.

Casal vive da fabricação de queijos, vendidos na área urbana (Foto: Banco de imagens)

Desafios

Se não existem dificuldades? Os pecuaristas dizem que sim. Principalmente quando o assunto é energia elétrica. As constantes interrupções no fornecimento causam prejuízos frequentes. Já perderam muita mercadoria por conta dos “apagões”. “Não é preciso muito para a energia acabar. Um simples vento já é suficiente e nós, que dependemos do serviço, sofremos por nem sempre ver o retorno do valor que pagamos”, afirma William.

Outro problema é o transporte escolar usado por Guilherme, que precisa pular da cama duas horas mais cedo, já que o veículo passa longe da porta do sítio. Os pais o levam de carro, mas, quando chove, fica impossível transitar. Nesse caso, o filho corre o risco de ficar sem escola e eles, sem a venda do queijo.

Apesar dos transtornos, o casal se diz feliz com o novo estilo de vida. E não só eles. Segundo o censo de 2010 do IBGE, o número de pessoas que moram em áreas rurais continua diminuindo no país, mas proporcionalmente num ritmo bem menor. Isso significa, de acordo com Fernando Albuquerque, técnico do instituto, que o movimento rumo às áreas urbanas, que se intensificou na década de 1970, está perdendo força.

Aparecida Oliveira, irmã de Suerlania, tem uma trajetória parecida. Cidinha, como é conhecida pelos familiares, nasceu também em Bambuí. Enfermeira, foi morar em Uberlândia-MG, onde teve três filhas: Marília, Jaqueline e Giovana. Foi funcionária de um hospital e de uma clínica de estética. Mas não era feliz. Sentia a necessidade de voltar ao campo. Foi, então, para um sítio próximo a Franca, onde viveu muitos anos da venda de queijos.

Hoje, ela mora numa fazenda no interior do Tocantins, onde se dedica à criação de gado de corte. Garante que essa vida só faz bem e que não consegue imaginar outro caminho. “Se tivesse que fazer tudo de novo? Faria, sim, sem dúvida alguma”.

Cidinha, irmã de Suerlania, mora numa fazenda em Tocantins (Foto: Pábolo de Oliveira)